Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

Domingo, 13 de junho de 2021

Hoje foi um domingo tranquilo, calmo, pacífico. As polémicas que por aí andam são indignas, coisa de tablóides e folhas panfletárias, e estamos no Mês da Grande Alienação. De modos que escrevo sobre o lançamento de Ana Catarina Mendes no Flashback (ou lá como aquilo se chama atualmente).

Seja qual for o nome que tem atualmente — não vou gastar neurónios a atualizar o nome cada vez que se lembram de o mudar, o que sucede com inusitada frequência e mau gosto —, o Flashback está numa boa fase. A entrada de Ana Catarina Mendes, a primeira mulher no programa em cerca de 40 anos, trouxe uma novidade refrescante: levou José Pacheco Pereira e António Lobo Xavier a um mais elevado nível de aprumo discursivo.

Por outro lado, JPP tem vindo a melhorar num aspeto que considero fundamental: abandonou o tudologismo em que caiu durante anos. E parece que prepara melhor a generalidade dos temas (nem todos, mas a grande maioria). E ALB tem feito maravilhas para se distanciar do CDS e da IL, ao mesmo tempo que mantém bem fechada a fronteira com o selvagem da extrema-direita, ganhando assertividade no processo.

Mas esta menção tem outro fundamento. Repara nos dois fotogramas seguintes, que são do programa de há duas semanas:

No primeiro, Pacheco Pereira aplaude Ana Catarina Mendes. Discretamente, mas notoriamente. No segundo, Lobo Xavier tira o chapéu a Ana Catarina Mendes e não é um mero salamaleque de queque. Há um intervalo de menos de um minuto entre os dois fotogramas.

Os dois já “escolheram” anteriormente o futuro secretário geral do PS e futuro Primeiro Ministro. Digamos até que o preparam (não encontro uma melhor tradução para o inglês to groom) ao longo dos meses que esteve no programa. É inevitável fazer um paralelismo — e estas imagens tiveram esse poderoso efeito. Estou convencido que este assunto faz parte da cumplicidade dos membros do programa. Com os devidos sorrisos.

Pessoalmente, gostaria que a “escolha” se concretizasse ;) Considero outros candidatos e não enjeitaria nenhum dos nomes já lançados, mas vejo em Ana Catarina Mendes todos os predicados para Primeira Ministra. A “rodagem” que nitidamente tem vindo a ganhar no Flashback (ou lá como se chama agora) é mais um passo numa trajetória ascensional que tem sido interessante seguir.

Vamos com calma, ou melhor: vamoláver. A eleição de um novo secretário-geral do PS não está propriamente na agenda. É certo que se especula com uma eventual saída para um cargo europeu, mas em primeiro lugar é especulação e em segundo lugar mesmo que venha a suceder será num futuro relativamente longínquo.

António Costa está para lavar e durar no PS e no Governo. À partida tem as condições reunidas para um terceiro governo, uma terceira legislatura. Digo “à partida” porque se as eleições fossem hoje Costa ganhava-as e fazia o governo que quisesse, mas faltam dois anos e não subestimemos nem a reconhecida e excelsa competência das tribos do PS para destruirem a reputação com as suas práticas endogâmicas, muito menos o desgaste que todo e qualquer elenco governativo sofre através dos tempos.

A favor de Ana Catarina Mendes está a sua idade. Terá 50 anos no início da próxima legislatura.

Nem vou invocar o trabalho. Ou a necessidade de férias. É mesmo uma questão de menos para dizer. Não somos iguais todos os dias. É a explicação para a ausência do diário alguns dias. Como repararam muit*s d*s assinantes. Para quem perguntou: está tudo bem de saúde, obrigado ;) E esta semana que entra concluímos, a Ana e eu, a vacinação anti-covid.

Este é um mês de alienação. De 11 de junho a 11 de julho decorre o mês da Grande Feira Europeia de roupa de marca cara, cervejas, agências de viagens que dezenas de milhões de almas ainda confundem com o antigo desporto chamado futebol. Os teus impostos vão pagar uma pequena fortuna para o serviço público de televisão afogar o horário nobre em seis jogos. Espero que os teus olhos não ajudem as outras televisões de canal aberto, que vão substituir a propaganda pela alienação à hora de jantar.

Se gostas de ver, eu não tenho nada contra pagares um dos canais que transmite todos os jogos. Tenho contra é EU pagar por ti e ainda ter de gramar a tua distração em todos os canais como se ela fosse a Coisa Mais Importante Do Mundo, Quiçá Do Sistema Solar. Durante um mês. Inteiro, <mete aqui o teu palavrão cabeludo favorito>!!

Um dia destes trato o assunto com seriedade. Economia, sociologia, política, identidade, coesão europeia, etc. Hoje não consigo. O descabelado exagero da futebolização na sociedade portuguesa tira-me do sério.

Manchetes

21:01 Espadas acaba con el liderazgo de Susana Díaz y refuerza aún más el poder de Pedro Sánchez Público

13:11 Ione Belarra, nueva secretaria general de Podemos con el 88,7% de los votos Público

20:21 Israël : la chute du «roi Bibi» Libération

19:32 Naftali Bennett, un improbable premier ministre issu de la droite religieuse israélienne Le Monde

18:41 Pourquoi les Algériens ont massivement boudé les législatives de samedi ? 20 Minutes

17:21 Analyse. Une invasion armée de Taïwan par la Chine est-elle évitable ? Courrier International

21:11 Delaying England’s Covid reopening ‘could keep thousands out of hospital’ The Guardian

20:12 Johnson defends G7 deal amid criticism of final communique The Guardian

14:32 Spain’s Podemos elects Belarra as new leader Politico

20:01 Benjamin Netanjahu: Der Staat war ich Sueddeutsche Zeitung

Domingo, 6 de junho de 2021

Hoje proponho que pensemos na revisão dos critérios para as medidas de combate à pandemia. Também faço notar o nosso imenso sucesso nesse combate, sucesso que ficará para a História.

Vamos ser francos: os limites para estabelecer as medidas para a pandemia deviam ser revistos. Nesta altura, toda a informação disponível aponta para os limites serem desajustados da atual fase do vírus. Foram estabelecidos em função de um quadro em que uma percentagem significativa dos novos infectados acabava nos hospitais e dentro desses uma parte significativa acabava por necessitar de cuidados intensivos. Ora, na fase atual do vírus a percentagem de casos bicudos é menor e desses os que acabam mas mãos dos intensivistas são percentualmente menos.

As razões desta modificação do perfil pandémico são conhecidas. E têm um fator comum: não há regresso delas. Correndo o risco de parecer insensível e cruel: na larga escala, quem tinha de morrer de covid-19 já morreu. Os mais velhos e com menor resistência aos efeitos deste vírus mudaram quase completamente de estatuto: a menor parte morreu, a maior parte ganhou anti-corpos ou porque ultrapassou a doença, ou porque foi vacinada.

Eu compreendo as duas razões para não rever imediatamente os limites. Uma é a razão da cautela científica, ou do desconhecido que resta: o medo das mutações e novas estirpes. Na minha opinião, está sobrevalorizada face a outras razões para rever, a sanidade mental das populações, que também é um fator de saúde pública e os cientistas têm-no justamente salientado, e as necessidades da atividade económica.

A outra razão é o medo de errar por parte dos políticos. António Costa já errou várias vezes, como todos os outros líderes. Boris Johnson cometeu um grande erro na semana passada: a decisão de retirar Portugal da “lista verde”. Não procures justificações conspirativas, favores a outros países, etc: foi apenas o conservadorismo, o play by the book, inflexível.

O sensato seria rever imediatamente os critérios e a sua matriz, alargando-a. Ou introduzir outro fator, que talvez fosse mais simples: ajustar todos os critérios em função do seu impacto no serviço de saúde. Porque demos as voltas que quisermos dar, esse impacto é tudo o que o vírus tem.

Já o tenho referido e vou mencioná-lo uma vez mais: quando, no futuro mais ou menos breve, nos referirmos à pandemia Covid-19, o que dela ficará é a do tremendo sucesso que foi a resposta da espécie humana. Sim, eu sei que os nossos antepassados não tiveram o arsenal de soluções tecnológicas, recursos e sofisticação logística que nos caracteriza no século XXI, mas até isso, ou até por causa disso.

A Ana e eu já recebemos os SMS para a segunda dose que concluirá o presente ciclo de vacinação. Se no dia 6 de junho de 2020 me dissesses que daí por um ano, em junho de 2021, ela e eu estávamos vacinados contra a Covid-19, eu não teria acreditado.

Terias tu acreditado?

Isto leva-me à figura de Gouveia e Melo. Ou melhor: leva-me ao equívoco da nomeação de Francisco Ramos para coordenador do plano de vacinação. Sem querer tirar nem um grama de valor ao vice-Almirante, pelo contrário, e digo-te desde já que espero que Marcelo lhe dê a mais significativa medalha, o contraste com o antecessor jogou a seu favor.

Francisco Ramos é um político típico do bloco central em geral e do PS em particular. Um perfil de grande utilidade para determinadas tarefas que envolvam grupos de interesses internos, do partido, ou clientelares, sempre solícito, sempre disposto a encontrar o mecanismo certo para justificar a coisa errada. Hoje neste posto, amanhã naquele cargo.

Gouveia e Melo apareceu como a antítese. O militar em comissão de serviço. A missão é tudo — não deve nada a clientes nem a interesses, tem o seu lugar ao qual regressará uma vez cumprida a missão.

Para esta tarefa em particular um carreirista da política seria sempre a escolha errada. As decisões seriam naturalmente as decisões equívocas.

Ah e tal, a comunicação social sempre foi assim (avessa à ciência, isto a propósito do antigo jornalista e editor da SIC José Gomes Ferreira ter escrito um livro delirante e aberrante que a sua estação tem promovido como se fosse sério), dizem-me no Facebook.

Não, não foi. Acompanho imprensa há 55 anos — é fácil situar porque estou à beira dos 61 e basicamente aprendi a ler nas páginas de O Século e, dentro deste, nas colunas sobre tecnologia e ciência, em especial num suplemento que se a memória não me falha era semanal, ao sábado.

Lembro-me da capa da Vida Mundial de julho de 1969 mas fui buscá-la aos arquivos da Internet para ti:

Ao longo do meio século que levo de relação com os jornais e a comunicação social, 15 como mero leitor e 35 como jornalista e leitor, não me recordo de um período em que a ciência tenha sido tão destratada como é de há uns cinco ou seis anos para cá, talvez um pouco mais, mas não andava atento à regressão.

O que sucedeu na maior parte desse tempo foi um certo fascínio, um respeito no mínimo, pela ciência, pelos cientistas, pelos seus métodos. Nem sempre compreendidos e bem noticiados? Nem sempre: o jornalista era, e é, um produtor de generalidades e por norma tem dificuldades com o rigor, a precisão e a medição quantitativa. Mas não discutia nm minimizava.

Hoje a norma é o desprezo e o destratamento. Portanto, não: a Comunicação Social nem sempre foi assim. O atavismo que constatamos com JGF e outros é um fenómeno que devia preocupar as pessoas da Imprensa.

Manchetes

20:21 Quem “sucede” a Ivo Rosa no “Marquês”? Francisco Henriques, o juiz que suspira quando se enfada Público

16:32 Faro recebe a 4ª Mostra de Cartoons, este ano sobre coronavírus, ambiente e sociedade Gerador

11:11 IRC de 15% para multinacionais dava 100 milhões a Portugal Diário de Notícias

21:52 Marruecos fulmina la operación ‘Paso del Estrecho’ en plena crisis diplomática entre Rabat y Madrid ABC

07:52 Sánchez aspira a controlar la gran empresa a través de sus consejos ABC

21:51 Nigeria : le chef de Boko Haram est mort, selon le groupe jihadiste rival Iswap France 24

19:11 L’UE peut-elle s’entendre sur un taux commun de fiscalité ? 20 Minutes

15:41 Économie. Trop tard pour l’UE, la Chine plane déjà sur le Mercosur Courrier International

21:33 Global G7 deal may let Amazon off hook on tax, say experts The Guardian

20:53 Lockdown to be fully lifted on 21 June if Covid hospital admissions don’t rise, Hancock indicates The Independent

18:32 With trust ‘low,’ EU, UK swap words ahead of post-Brexit talks Politico

19:53 Grüne im Gegenwind Baerbock kann ihre Enttäuschung nicht verhehlen Frankfurter Allgemeine

09:53 Erfolge der Energiewende Willkommen im Jahr 2030 Frankfurter Allgemeine

2021/09/23

El acto de saber se ha sustituido por el de creer. La información se ha sustituido por la superstición. Cada tribu vive en su realidad paralela, propiciada por la fragmentación; y exacerbada por la polarización elpais.com

há 10 meses

O destino do jornalismo tornou-se-me indiferente

Uma vez jornalista, sempre jornalista”. “O jornalismo é sacerdócio”. “Podes deixar de praticar, mas não deixas de ser jornalista”.

Ao longo da vida sempre ouvi estas frases. Talvez por isso, quando os jornais deixaram de querer os meus serviços, por volta de 2013-14, tive problemas para estabelecer uma bioline. “Ex-jornalista” ia contra o cânone segundo o qual tu nunca deixas de ser jornalista. “Antigo jornalista” idem, além de soar pior. Usei ambos, sentindo-me sempre desconfortável.

Até que deixei de invocar o jornalismo; está no CV, aí permanecerá para sempre, foram 30 e tal anos, uma vida, quase toda a minha vida produtiva, mas faz já algum tempo que não é mais invocável no meu dia a dia. Ter sido jornalista não me confere qualquer grau, prestígio ou estatuto especial. Amig@s e leitor@s podem achar que sim, mas eu sei que não. Outros jornalistas no ativo, em pousio ou na reforma podem achar que sim e cada um falará por si, as vidas são diferentes.

Falo disto porque numa conversa que não vem ao caso com o Pedro Fonseca saí-me com esta frase: “o jornalismo é um campo que já não abarco de forma intensa e, confesso, o seu destino tornou-se-me indiferente”.

há um ano

Portugal tem menos oposição do que precisa e a culpa é, inteirinha, do PSD

Portugal tem menos PSD do que devia, tem menos oposição do que precisa. E nada disso é assacável a um PS enfraquecido e asfixiado sob o peso da responsabilidade da gestão dos fundos comunitários. A nulidade política da direita portuguesa é para a conta, inteirinha, dela própria. Resulta da deserção de Rui Rio do espaço público onde se negoceiam entendimentos sobre os temas da década.

há um ano

01. O apoio do LIVRE a Ana Gomes vem facilitar, mas é cedo para escolher

O apoio do LIVRE a Ana Gomes vem tornar a minha escolha menos difícil. Mas é cedo para escolher.

Creio que a melhor coisa a fazer pelos eleitores como eu, que votam sempre e só à esquerda mas não se sentem, ou nunca ficaram, obrigados a um partido, é ver como evoluem a pré-campanha e a campanha — naturalmente, com maior ou menor envolvimento enquanto cidadãos interessados.

Nesse sentido, e como sucedeu nas últimas legislativas, distribuirei pelas redes o que achar pertinente tenha origem na campanha de Ana Gomes, na campanha de Marisa Matias ou na campanha de João Ferreira.

Ou seja: estou apoiante destas 3 candidaturas até ao momento em que decidir o meu voto (e enquanto elas existirem).

há um ano

17 anos depois, o relançamento

17 anos passam num instante? Não. Demoram. E 20 anos — que é o tempo de vida deste domínio? E 31 anos, que é o tempo que levo a publicar coisas na Internet? São milhares de artigos e páginas e posts por todo o lado. Quando queres consolidar um arquivo destes, é preciso coragem para ganhar balanço. E se queres relançar a publicação pessoal? Escreves uma aplicação que faça a coisa exatamente como a queres.