Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

15 de fevereiro de 2021

Seg, 15 fevereiro 2021: independentisme català

Hoje não é o Dia da Independência da Catalunha, mas um passo largo foi ontem dado nessa direção e eu explico o que se passou nas eleições. Também exploro o que se passa nas direitas espanhola e portuguesa, procurando semelhanças e vincando diferenças.

O independentisme català levou ontem um empurrão eleitoral significativo nas eleições da Catalunha. Por duas razões: uma, os partidos independentistas aumentaram a representação e o PSOE que governa de Madrid já tinha prometido mais autonomia; outra, os partidos nacionalistas foram amplamente derrotados.

Factos:

Podem surgir dois governos diferentes:

Em qualquer caso, o camião da independência catalã vai aumentar a velocidade. A única dúvida é se mete a segunda velocidade com o PSC+Podemos a abrir devagar, ou se mete a quarta com os independentistas coordenados em prol do seu bem maior.

A extrema direita espanhola entrou pela primeira vez no parlamento catalão através do Vox. Escrevi que vemos na Catalunha o mesmo processo já observado em toda a Península Ibérica: a extrema direita fica com os votos e os deputados que eram da direita tradicional. Mas há uma forma mais correcta de abordar o assunto.

Mais do que ao crescimento, assistimos sim à emancipação da extrema direita. No caso espanhol, e como referiu Nuno Ramos de Almeida em conversa no Facebook, essa extrema direita “sempre esteve presente, embora dentro do Partido Popular. Santiago Abascal foi dirigente e deputado desse partido e muito próximo de Aznar, com quem trabalhou. E o partido antecessor do PP, a Aliança Popular, foi fundado por sete ministros do Franco, apodados dos sete Magníficos”. Assim, “a extrema direita sempre existiu em Espanha, estava era numa frente, dentro do PP, com sectores menos radicais”, concluiu o Nuno.

Ainda no Facebook e dentro do tema da extrema direita espanhola, Rui Bebiano menciona o Pacto Del Olvido como uma razão para o que vê como eu comecei por ver, “o crescimento à custa da direita democrática”. Isto ao invés do que vemos nos países do Norte da Europa, onde os partidos da direita democrática criaram um “cordão sanitário” para isolar a extrema direita. O pacto entre os partidos espanhóis para impedir que a digestão do franquismo afectasse o desenvolvimento da democracia em Espanha o que acabou por fazer foi varrer o lixo para debaixo do tapete. E é esse lixo que agora foi destapado.

Até que ponto podemos estabelecer um paralelo entre Espanha e Portugal? É frouxo, o ponto. Os dois países ibéricos têm um passado diferente. Cá existiu uma extrema direita fora dos partidos de direita, embora residual mas identitária. E se é difícil encontrar no CDS alguma coisa, além da cabeça confusa de Nuno Melo, a que se possa chamar de sensibilidade extrema que hoje engrosse o Chega, já a relação com o PSD não precisa de esforço algum: o Chega é para todos os efeitos um fenómeno de divisão de células. Ou seja: ainda que muito disfarçada, envolta na bandeira maior do poder a qualquer custo que é a única característica comum das diferentes correntes internas que convoluem no interior do PSD, a corrente extrema direita já lá estava nas bases. Faltava um rosto, um porta-estandarte. Intencionalmente ou não (e eu inclino-me para o não), Passos Coelho forneceu-o às bases através de André Ventura.

A relação entre os dois partidos, Chega e PSD, é a relação entre vasos comunicantes: flua num e noutro sentido, o líquido eleitoral é o mesmo. Mesmo o atributo de varinha de vedor que alguns vêem no Chega com a atração de pessoas que vagabundeavam na abstenção já existia no PSD; apresento as quatro maiorias absolutas quatro de Cavaco Silva como testemunhas de defesa.

Neste aspeto as extremas direitas portuguesa e espanhola serão mais parecidas entre elas do que com as congéneres francesa e alemã.

Serão? Não percas cenas dos próximos capítulos! [ritmo e sotaque de telenovela brasileira dos anos 1980] Amanhã ou quarta abordo as evoluções dessas extremas direitas com a bengala preciosa de S.M., com quem tenho trocado correspondência luminosa sobre o assunto.