Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

18 de fevereiro de 2021

Quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Hoje foi o Dia P de Perseverance, cuja amartagem foi bem sucedida. Para descermos aqui à lama temos uma batalha de egos no PSD com o inescapável á-cse-cse dos jornais. Ah: e o PR mandou para o Constitucional o diploma da eutanásia.

Imagina a alegria das pessoas que trabalham na NASA. O carrito Perseverance — do tamanho de uma carrinha Megane — poisou em Marte, eram 20:55, quase 56, hora de Lisboa. É o evento do dia que a História registará, o resto é ruído terráqueo.

Ah, disto é que os nossos jornais gostam! Uma guerra de egos no PSD! Dificilmente se encontra melhor tema para a economia dos media: junta raiva, que é o ingrediente principal, à direita, que é a obrigação coletiva.

Como se escreve no Expresso, com a sua conhecida vocação de moço deles, o primeiro recado” de Rui Rio foi para Carlos Carreiras, autarca de Cascais e responsável pelas autárquicas do partido em 2017: “esse é o pior, é o mais incompetente nisso. Foi primeiro responsável pela desgraça de 2017 e nem tem a humildade. Não recebo críticas com quem fez um desastre”, cita David Dinis o chefe.

Carreiras tem criticado Rio pela má gestão das próximas eleições. Rio respondeu com agressividade. Mas continua a ter confiança em Carreiras, que poderá ser recandidato pelo PSD em Cascais: “Será se for proposto pela concelhia e aceite pela distrital, certamente. Se tiver um mau resultado assumo as consequências”.

Carreiras aumentou imediatamente o tom de violência! Uma técnica aliás moderna, que consiste em chamar a atenção dos media e das pessoas usando os tons emotivos que espoletam a raiva e excitam, de forma a furar a apatia generalizada dos cidadãos para com as mensagens políticas frouxas, gastas ou — como é o caso nesta altura do campeonato das autárquicas — irrelevantes. Como? Agradecendo a Rio ter-lhe feito um ataque pessoal!

A guerra de egos foi recebida nas Redações como Moisés no deserto a apanhar maná. PSD e Rui Rio dominaram o noticiário e as manchetes, conforme podes ver nas duas imagens abaixo:

Continuar o entretenimento:

Ainda dentro do assunto autárquicas, mas num registo sério: o PS vai corrigir a lei que dificulta as candidaturas dos movimentos independentes. As alterações à lei, aprovadas no ano passado pelo PS e PSD, não permitem que os movimentos independentes se candidatem às freguesias e às câmaras. Ana Catarina Mendes admitiu erros numa aprovação à pressa.

Ouvido pela TSF, o presidente da Associação dos Movimentos Autárquicos Independentes, regista a disponibilidade do PS, mas espera pelos detalhes. Aurélio Ferreira pede ao PSD que acompanhe a disponibilidade dos socialistas: “Pedimos, PS e PSD, que ponham a mão na consciência, façam aquilo que devem fazer, sejam corretos, deixem os cidadãos praticarem a cidadania”.

No outro assunto do dia que fez o pleno em todos os meios, o PR enviou o diploma da eutanásia ao Tribunal Constitucional para fiscalização preventiva. Ou seja: fez exatamente o que toda a gente sabia que Marcelo faria, que Marcelo sabia que faria e nunca assumiu que iria fazer.

Recordo que votaram contra o diploma 56 deputados do PSD, nove do PS, incluindo o secretário-geral adjunto, José Luís Carneiro, todos os do PCP, do CDS-PP e o deputado do Chega. Um total de 136 votos a favor e 78 contra, duas abstenções na bancada do PS e duas na do PSD. Na base deste diploma estiveram projetos de lei de BE, PS, PAN, PEV e Iniciativa Liberal aprovados na generalidade em fevereiro de 2020.

Marcelo deixa sublinhado, para as leituras nas entrelinhas, que não se trata de “saber se a eutanásia, enquanto conceito, é ou não conforme com a Constituição, mas antes a questão de saber se a concreta regulação da morte medicamente assistida operada pelo legislador no presente Decreto se conforma com a Constituição, numa matéria que se situa no core dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, por envolver o direito à vida e a liberdade da sua limitação, num quadro de dignidade da pessoa humana”.

E considerou: “ao não fornecer aos médicos quaisquer critérios firmes para a interpretação destes conceitos, deixando-os, no essencial, excessivamente indeterminados, o legislador criou uma situação de insegurança jurídica que seria, de todo em todo, de evitar, numa matéria tão sensível. Esta insegurança afeta todos os envolvidos: peticionários, profissionais de saúde, e cidadãos em geral, que assim se veem privados de um regime claro e seguro, num tema tão complexo e controverso.”

(Presidência da República, Renascença)