Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

20 de fevereiro de 2021

Sábado, 20 de fevereiro de 2021

Hoje faço uma espécie de ponto de situação da pandemia. Ciência OK, saúde no bom caminho, economia aguenta-te paraduncha mais um pouco, o pior é a política: como efeito colateral, caminhamos para um período de desigualdade de direitos. Péssimo, péssimo.

Não tarda, começam as pressões sobre António Costa para reabrir os cabeleireiros, oficinas, pastelarias e restaurantes — as micro e pequenas empresas que são a seiva da economia portuguesa, tanto pelo lado do emprego como pelo lado dos impostos. Os números estão a ficar bons: o que é mau para os negócios dos jornais, das televisões, do Chega, do CDS e da IL, é bom para o país. Mas o que me ocupa não são estes detalhes. São os efeitos maiores da Covid-19 e seu combate na sociedade e suas regras, isto é, no nosso futuro. Os sinais são muito preocupantes.

Com alguns efeitos colaterais aceitáveis, a ciência resolveu depressa a questão sanitária, até porque os incentivos financeiros eram (são, serão) brutais. Mas não tem o mesmo incentivo para resolver os efeitos colaterais do combate, isto é, do confinamento e da vacinação. Por outras palavras, é tremendo e até disruptivo o custo da pandemia no agravamento das desigualdades (todas elas: Norte/Sul, ricos/pobres, desenvolvidos/atrasados, elites/comuns) e na caminhada para uma sociedade de castas em vez de classes, através da diferenciação nos direitos dos cidadãos.

E nem falo dos pequenos e evidentes sinais de desigualdade, como os cidadãos endinheirados terem o privilégio de poderem transportar a Covid-19 livremente entre Brasil e Portugal (um aspeto que não vi referenciado no episódio da meia tonelada de cocaína em que foi protagonista acidental João Loureiro).

Falo dos parlamentos e governos em diferentes países da União Europeia e fora dela que já avançaram (Grécia e Israel) e se propõem avançar com os “passaportes covid”, nos quais o lóbi das companhias aéreas coloca um grande esforço, não sendo o único.

“Passaportes” é pouco. O que Israel também já fez foi transpor para os cidadãos israelitas as políticas de segregação amplamente testadas, e com bons resultados do ponto de vista do Estado israelita, nos cidadãos palestinianos. O “green badge” a envergar orgulhosamente pelos cidadãos vacinados permitir-lhes-á o privilégio de visitar museus e jantar em restaurantes que está inacessível a quem não tiver o distintivo.

Claro que, como a estrela em fundo amarelo, está a ser vendido pelas melhores razões. But of course. “Ser vacinado é um dever moral. É parte da nossa responsabilidade mútua”, diz o ministro da Saúde de Israel. Yuli Edelstein avança com o novo mantra: “quem não for vacinado, será deixado para trás”.

As questões éticas são levantadas na peça do NYT (ver links abaixo). E até João Vieira Pereira, no Expresso, se mostra escandalizado: “Daqui é um salto para a cria­ção de medidas de exclusão, guetos e grupos de privilegia­dos. Daqui é um salto para existirem viagens só para vacinados, restaurantes, lojas, cinemas, espetáculos, festivais de música, hotéis e, quem sabe, praias. Daqui é um salto para um retrocesso civilizacional inaceitável. Andamos há décadas a lutar por uma sociedade mais igualitária, onde a raça, o sexo, a religião ou as crenças deixem de ser motivo de segregação, para tudo ser colocado em causa por causa da cura para um vírus”.

Os antecedentes das medidas e políticas “de exceção” e “pontuais” são péssimos e fazem soar o alarme. Independentemente de entregarem ou não o que propuseram resolver, a regra é tais medidas tornarem-se perenes.

E estas medidas o que fazem é consolidar a ideia de direitos desiguais. Ou seja, o que até aqui tem sido uma pedra de toque das sociedades avançadas, pelo menos teórico, mas em qualquer caso oficial, que é a narrativa dos cidadãos terem os mesmos direitos, está em vias de ficar para trás. A diferenciação social deixa de ser possível apenas fora da lei — diferenciação de recursos financeiros, género, cor de pele — e é transposta para dentro dela. Esse caminho conduz a uma sociedade com castas em vez de classes. E eu não estou certo de gostar dela, digamos assim.

Para aprofundar:

Ainda a Covid-19 e a disrupção: não percas a entrevista da coordenadora do projeto Pandemic Risk and Emergency Management, Máire Connolly, ao Público. O título não é o que parece, não te afastes quando lá chegares. A especialista em saúde pública lida com pandemias há mais de 25 anos e foi uma das cientistas que alertava em 2017 para a iminência de uma pandemia. Mas nunca previu que chegássemos a este ponto: “Agora vejo que mesmo o nosso pior cenário não previa este nível de disrupção social e económica.

Um dos entregáveis do projeto é um dashboard para seguir eventos desta escala em tempo real. Dados de laboratórios, hospitais, dados sobre a mortalidade, de rastreamento de contactos, sobre a mobilidade (de operadoras móveis, por exemplo), das redes sociais. “O que estamos a fazer é coligir tudo isso para ser apresentado num dashboard. Esperamos ter um protótipo nestes primeiros três meses e depois continuaremos a desenvolver estas bases de dados para analisar que indicadores são necessários. Temos de ter em atenção que isto é feito para futuras pandemias. Estamos a desenvolver estas ferramentas para preparar melhor a Europa para futuras pandemias — e até para as prevenir ou diminuir o seu impacto”.

E ainda a Covid-19: estamos de regresso a níveis de outubro, ora espreita o gráfico copiado do Público. Do ponto de vista sanitário, é animador. Valha-nos isso, pois precisamos de sinais positivos para re-orientar o ânimo e os recursos.

Hoje foi dia de responder a algum correio atrasado. No diário de amanhã faço um apanhado do correio dos leitores. Tenho alguns assuntos atrasados e a atrasarem-se: o consenso e a ciência, como o jornalismo se tornou numa ameaça para a democracia, a situação na Austrália com Facebook e Google a divergirem na resposta ao hacking legislativo perpetrado pelos donos dos grupos de media, e ainda a extrema-direita (uma sondagem de agora confirma a estagnação do Chega). Um bom pretexto para me dizeres qual a tua prioridade e sugerires perspectivas: clica no botão de responder.