Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

21 de fevereiro de 2021

Domingo, 21 de fevereiro de 2021

Hoje temos no cardápio as candidaturas independentes. São fixes. Se não contarmos a perda de escrutínio, a diluição de responsabilidade e o populismo, claro está.

As candidaturas independentes às autarquias estão entre aqueles assuntos que à primeira vista são um no-brainer. E neste caso a pitada de adoçante certo, como “ai os maraus dos partidos grandes que legislaram a seu favor”, passa o assunto a apetitoso rebuçado. Eu que o diga: engoli mesmo antes do açúcar.

Engoli e engulo: a minha opinião mantém-se a favor da facilitação das candidaturas não partidárias. Mas não tenho ilusões sobre o que ganhamos e o que arriscamos com o que também pode ser visto como a diminuição do controlo sobre a lisura do processo eleitoral.

Uso as palavras da diretora do Jornal de Notícias, Inês Cardoso, para reportar o que ganhamos com o desaparecimento de entraves. “Num sistema político em que o peso dos partidos é tremendo, e em que tanto nos queixamos do défice de participação cívica e de interesse da comunidade pela vida pública, é imoral (e o Tribunal Constitucional dirá se antidemocrático) que se criem entraves a candidaturas independentes. Nas últimas autárquicas, subiu de 13 para 17 o número de câmaras conquistadas por estes movimentos e nas freguesias representam já a terceira força eleitoral. O que prova que há política a acontecer fora dos partidos”.

O remate do artigo é sacarina jornalística e começa a fazer tocar a campainha do risco: “quer estes gostem ou não, pensar fora da formatação que tentam impor é possível. E, espera-se, um movimento imparável”.

‘amoláver: lá porque estamos cansados do nosso sistema partidário e agastados com o corropio de tropelias nos partidos que governam (e nunca nos outros, curioso), não é caso para jogar fora os partidos. Na verdade, a democracia vive dessas organizações, que são tanto agregadores de vontades e propostas como filtros de egos desvairados. Acredito mais na renovação do sistema, seja pelo curso normal dentro de cada partido, seja pelo surgimento de novos partidos com visões, perguntas e propostas que acompanhem a evolução, do que no enfraquecimento do sistema partidário.

É com melhores, e não com menos partidos, que se enriquece a democracia.

Vou agora recorrer às palavras de Carlos Esperança no seu blogue Ponte Europa para vincar os riscos que os independentes importam para dentro dos processos democráticos. A perda de escrutínio (que devia aliás ser um argumento para os jornalistas, que mais depressa o trocam por açúcar sintático): “O escrutínio do poder autárquico, exceto nas grandes cidades, praticamente não existe. Os jornais e emissoras de rádio locais raramente subsistem sem os apoios da autarquia e são, quase sempre, o eco dos interesses de quem as ocupa. Aliás, é difícil saber o que é isso de independentes. De quê e de quem? Habitualmente, são os preteridos pelos partidos onde militam e cuja ânsia de poder é mais forte do que a fidelidade e as convicções ideológicas.

A diluição de responsabilidade (um artifício muito comum no empreendedorismo e visível na complexidade estrutural das empresas com operações nos bens de consumo): “Quando são eleitos sob sigla partidária, ainda que designados independentes, podem os eleitores julgar o partido que os integrou, pela gestão ou eventuais desmandos do elenco municipal, o que não sucede com os autodesignados independentes. No Porto, a provarem-se os benefícios com uma bolsa valiosa de terrenos adquirida por usucapião, e nebulosamente caída na família do autarca e dele próprio, que partido pode o eleitorado punir nas próximas eleições?

E o remate do artigo é uma vacina contra o populismo: “os independentes políticos querem parecer filhos de pais incógnitos. Ignora-se a superioridade ética que os recomende”.

Murdevil contra Googbook com a democracia, o jornalismo e as audiências a pagarem o bilhete, as pipocas, o ringue e os salários bilionários dos contendores. Calma, não enlouqueci (ainda). Este é o início do texto a publicar amanhã, ou terça, dependendo do tempo, sobre o complexo de equívocos que se esconde atrás da lei que a Austrália quer aprovar para beneficiar o império de Murdoch. É o primeiro de três textos em que espreito o futuro do jornalismo (oh não, outra vez! 🤮 ). O segundo abordará o excitante tema “como o jornalismo se tornou numa ameaça para a democracia, que tem um índice de negacionismo fabuloso entre jornalistas. O terceiro mostra as oportunidades que se abrirão aos jornalistas quando a Austrália fizer o frete a Murdoch e abrir o caminho que tornará os grupos de media em satélites dependentes da Google.