Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

22 de fevereiro de 2021

Segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

O desemprego está a aumentar e há ideias mas não há soluções para o resolver nos anos mais próximos. Mas hoje o grande tema é o hacking que a News Corp. fez ao regulador australiano para abocanhar um quinhão (minúsculo embora) das receitas da Google. Sofre a democracia e sofre o jornalismo. Logo, sofres tu.

As medidas de alívio do emprego são, sabemos, uma bomba ao retardador. Os dados do desemprego hoje divulgados pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional mostram que nos aproximamos da explosão. O número de desempregados inscritos nos centros de emprego subiu 32,4% face a janeiro do ano passado (taxa homóloga) e 5,5% face a dezembro.

A restauração é o principal fornecedor de desemprego, consequência direta e inescapável do confinamento. Permite acalentar a esperança de retoma rápida dentro de um prazo curto — três meses eu diria. Mas não será de certeza uma retoma total. Assumindo que essa virá, creio que devemos esperar dois anos pelo menos. Em parte associada à restauração estão as atividades imobiliárias, segundo fornecedor de desempregados.

A bazucada não virá resolver nada disto. Ou seja: o sofrimento do desemprego vai estar presente na sociedade portuguesa por algum tempo, mesmo depois da pandemia. Vamos precisar de outra aproximação — e não vejo nem no PS, nem no PSD, uma ideia que seja capaz de inflingir uma dose de esperança.

Murdevil contra Googbook com a democracia, o jornalismo e as audiências a pagarem o bilhete, as pipocas, o ringue e os salários bilionários dos contendores.

Calma, não enlouqueci (ainda). Apenas fui capaz de sintetizar na frase que acabaste de ler com pasmo a deveras complexa situação a decorrer na Austrália, onde o governo elaborou um código de conduta obrigatório para pretensamente “resolver os desequilíbrios de poder de negociação entre as empresas australianas de comunicação social e as plataformas digitais, especificamente o Google e o Facebook” (cito o documento oficial, ver links abaixo).

Na realidade, o governo australiano mais não está a ser do que o testa de ferro de Rupert Murdoch, cabeça do império de media News Corp, que manda em vários governos e parlamentos em dois continentes. O Murdevil está a usar a sua imensa alavancagem para evitar a morte engolindo uma fração das receitas da Google e da Facebook, a Googbook que na transição da Galáxia Gutenberg para a Galáxia Reticular ficou com tudo o que interessa (no sentido em que se pode converter em lucro) no negócio do jornalismo e do entretenimento mediático: os olhos e as ações dos consumidores.

Ou, como escreveu Jeff Jarvis, “assim como quebrou a democracia, Rupert Murdoch tenta quebrar a Internet com a sua legislação proteccionista na Austrália para forçar as plataformas a “negociar” e pagar aos editores de notícias pelo privilégio de se ligarem a eles, dando-lhes marketing e audiência gratuitos”.

O passado desta história é uma lista de abusos pelos media, que não tiveram outra resposta para enfrentar um novo ciclo económico caracterizado pela inovação que não a chantagem sobre governos, parlamentos, leitores e empresas alheias, usando a força ainda considerável do seu monopólio de facto e em fim de vida nos setores da comunicação de massas e da interferência na vida política. Recapitulo o passado em poucos parágrafos com uma intenção: desmascarar o nível de mentiras acumuladas que se tornaram na fundamentação dos grupos de media responsáveis por este assalto legal.

Os serviços de apontadores primeiro (Altavista, Sapo), e depois os motores de pesquisa (Google) chegaram para resolver os problemas da comunicação em rede, construindo os seus negócios em torno do serviço prestado: filtrar o colossal caos das imensas quantidades de informação produzidas. Imprensa, rádio e televisão, como outros agregadores de informação em vias de obsolescência, não souberam ou não puderam adaptar os seus modelos de operação e negócio.

Quando as primeiras fricções surgiram, as empresas novas apontaram a solução universal: bastava (e ainda basta) uma simples linha com meia dúzia de caracteres para os sites de media não serem indexados. Ninguém é obrigado a estar pesquisável na Google nem em qualquer outro motor de pesquisa ou agregador. A tecnologia está bem concebida no sentido da total liberdade.

Os grupos de media não quiseram fazê-lo. Nenhum optou por não alimentar o negócio da Google. Todos quiseram aproveitar a oportunidade de terem leitores com zero custo de aquisição.

[ Em países como Portugal a preguiça e comodismo, para não lhes chamar outra coisa, atingiram proporções épicas: praticamente todos os títulos de imprensa e rádio estiveram ou ainda estão subalternizados ao negócio da marca Sapo, à qual cederam o seu prestígio, conteúdos, experiência e ligações comerciais a troco de infraestruturas cujo preço cai para metade de dois em dois anos. Não consigo levar a sério, por muito que queira, os decisores que tomaram esta medida quando agora reclamam um quinhão nas receitas dos outros. ]

Mais tarde vieram o Twitter e o Facebook, que facilitaram o lado social das dezenas de milhões de utilizadores da Internet, que antes desses serviços eram nós passivos: buscavam a informação. Com eles pudemos passar a nós ativos, publicando e divulgando num espaço comum que é do tamanho do quintal e do mundo ao mesmo tempo e com o mesmo esforço.

O que fizeram os decisores das empresas de media? Preguiçosos e comodistas, a pensar nos bónus da maximização dos resultados trimestrais, continua(ra)m a poupar-se ao esforço de pensar em soluções para a diminuição das receitas de publicidade com que lidavam já há décadas sem nenhum sucesso; todos quiseram aproveitar a oportunidade de terem ainda mais leitores, numa escala nunca antes pensada ou sequer ao seu alcance, e com zero custo de aquisição.

Chegados aqui: não há nenhum ataque ao jornalismo, na Austrália como no resto do mundo, por parte da Googlebook. Com ou sem pesquisa e redes sociais, as marcas da News Corp e as notícias e conteúdos produzidos por elas existem, estão na Internet. As marcas de media têm os seus websites, apps e newsletters. As pessoas podem visitá-los — e visitam-nos e usam as aplicações e recebem as newsletters.

O que mais há na imprensa é um conjunto de falsidades e distorções com o claro objetivo de iludir os leitores. Um exemplo de distorção: os jornalistas escreverem que a Facebook “proibiu as notícias de meios de comunicação legítimos na plataforma”, deixando implícito no sub-texto que os meios têm o direito de publicar as suas notícias no Facebook. Ora, não se trata de um direito: trata-se de um privilégio concedido de forma graciosa por uma empresa privada a outras empresas e indivíduos. Os meios de comunicação não possuem nenhum direito sobre as páginas e espaços no domínio facebook.com. A Facebook não tem nenhum contrato de serviço público.

O que realmente sucedeu foi que a empresa acabou com a partilha gratuita de links para os meios de comunicação australianos. Os meios continuaram a podem partilhar links para as notícias nos seus websites comprando espaço ao Facebook.

Ou seja: a medida tomada pelo Facebook é correta por todos os ângulos, a começar nas práticas comuns à atividade económica e incluindo o cumprimento do código em questão! Não aceitamos pagar, portanto retiramos-te dos nossos espaços. As simple and legit as that.

Reforço a ideia de que tudo isto não passa de uma utilização abusiva do poder legislativo por parte dos grupos de media liderados pela News Corp, que cometem o sacrilégio de levar a exploração do jornalismo para lá da aceitável exploração comercial: como arma de infantaria na guerra da Big Media contra a Big Tech. Usando as palavras de Casey Newton, “falta qualquer coisa em quase todos os artigos que li sobre o código de negociação, que é explicar como é que irá beneficiar o jornalismo. Na verdade, com base na minha leitura do código, não há qualquer exigência de que qualquer subsídio dado pelas plataformas aos editores seja gasto na recolha de notícias” (ver link abaixo).

Tu, não sei, mas eu, neste combate entre Murdevil e Googbook, meto as minhas fichas no pugilista da Big Tech. Já sabemos quem perde: o jornalismo, os leitores e a democracia. Quem ganha?

Em primeiro lugar, a Google é a grande vencedora. Pelo equivalente a uma gorjeta miserável ao almoço, a empresa que em 2020 faturou 181.690 milhões de dólares (lê-se: cento e oitenta e um mil seiscentos e noventa milhões e por extenso escreve-se 181 690 000 000) resolveu a comichão de Relações Públicas provocada pela autoridade australiana da concorrência. Os acordos assinados com os três grupos de media estão incluídos num plano de parcerias mundial e de longo prazo dotado com mil milhões de dólares, escreve-se 1 000 000 000 e equivale a ligeiramente mais de meio por cento da faturação num ano.

Tirando os dólares, as marcas de jornalismo ficam de mãos a abanar: o controlo da publicidade é da Google, os dados dos leitores são da Google, a audiência é a que a Google quiser, a tecnologia é da Google, com um controlo perfeito, muito mais perfeito do que os links nos resultados das pesquisas — uma torneira.

Ou seja: as publicações assumem a sua posição secundária e de dependência, passando na prática a vender conteúdos que a Google incluirá numa moldura HTML com o pomposo nome de “Google News Showcase”.

Nota: acho este um acordo menos mau para esses grupos e as suas marcas, dentro da lógica de curto prazo que comanda as suas decisões. Mas a prazo é bastante mauzito.

O grande perdedor é o Estado, a começar pelo australiano. A Google fica ainda maior e mais poderosa, com controlo adicional sobre mais um setor da comunicação — o que é precisamente o oposto do que diz a narrativa dos políticos envolvidos neste hacking do interesse público.

Incógnita é, por enquanto, a Facebook. A primeira reação foi ótima. Mas Mark Zuckerberg é suscetível. Ao contrário da Google, que faz parte de uma empresa dirigida em função do lucro e impermeável a devaneios pessoais, a Facebook vai para onde o accionista de referência disser que vai. E Zuckerberg adora os corredores do poder político. É provável que venha a abrir os links para ganhar alavancagem geo-política, e não apenas os conteúdos e os favores da imprensa.

Nos próximos dias abordarei outras duas perspectivas: o problema que os governos criam para si próprios ao irem nesta cantiga do bandido da Murdevil, junto com o efeito nefasto que o jornalismo passou a ter sobre a democracia; e onde estão a surgir as oportunidades para os jornalistas voltarem a fazer As Coisas Bem Feitas fora do círculo viciado em que as empresas tornaram o setor.

Para aprofundar: