Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

18 de dezembro de 2006

A música, as licenças Creative Commons, a indústria, Lessig, a cultura livre e a minha posição sobre a pirataria

Comecemos pelo princípio: sexta-feira passada estive no debate integrado numa conferência sobre as licenças Creative Commons, agora em Portugal, que decorreu na Católica. Não assisti à conferência de Lawrence Lessig — que deixou toda a gente impressionada pela eficácia da sua apresentação. Ainda bem.

Mas estive com Lessig na demorada conferência de Imprensa. Cumpriu-se um velho ritual: depois de eu entrar e abrir a boca, alguém saiu e disse cá fora, isto estava a correr tão bem até chegar o Paulo Querido. Enfim, reputações. Adiante, que a conversa durou mais 20 minutos do que deveria, para azar da apressadinha supra-referida, mas foi óptima quer para mim quer para Lessig e quero crer que quem lá ficou dentro aproveitou. Coloquei as dúvidas inquietantes sobre os eventuais efeitos da cultura livre na nossa percepção da realidade — e coloquei-as ao guru certo, como se comprova pelas respostas tranquilizadoras que me deu. Efectivamente, mais vale o risco de um aluno acreditar durante instantes na patranha que leu num website malévolo ou ignorante, 2+2=5, do que permitirmos a continuidade evolutiva das sociedades acríticas do século XX, para mais vivendo uma revolução económica sem precedentes que reduziu a pó — o pó humano — o custo da sabedoria.

Lamento que a regra dos 98% – 2% continue a manifestar-se, mas olhem, azar temos pena. Nem sequer espanta notar gente que acha que o mundo está perdido: cada geração diz isso mesmo quando começa a não perceber em que mundo vive. Faz parte.

Ora, o Hugo Neves da Silva, do lisbonlab, esteve lá e reportou ter sido para ele uma «novidade» o que considerou a minha «posição liberal» sobre a pirataria (post Conferência Creative Commons).

Na realidade, mesmo não me conhecendo foi simpático comigo. Eu não tenho uma posição propriamente liberal sobre a pirataria: tenho uma posição radical e nada simpática nem para quem a pratica, nem para quem a persegue. O que fiz na minha obrigatoriamente curta intervenção (os oradores anteriores não tiveram um moderador que os pusesse na ordem em termos de cumprimento dos horários e além do nosso painel ressentiu-se também o secretário de Estado que fez a intervenção mais curta a que jamais assisti por parte de um governante, obrigado eng. Manuel Heitor) foi olhar para a frente em vez e olhar para trás. Quem quiser perder tempo a lutar contra fantasmas faça favor, mas saia da frente. Desvalorizei (e desvalorizo) a pirataria nestes termos: num ambiente em que toda a música está em todo o lado para toda a gente, o que vale a palavra pirataria? Sem ir mais longe: concentrar esforços na contrafacção parece-me medida muito mais sensata e viável. Tomem à laia de conselho piedoso.

Na verdade, e como muito em ilustrou John Gonçalves dos The Gift, o que se passa de interessante na música, dos pontos de vista tanto dos músicos como do público, passa-se fora do espartilho jurídico-económico em que o século XX, o vinil e os CDs enclausuraram a criatividade musical. É clicar e reflectir. Como consegue uma banda portuguesa com um nome que é uma das mais comuns palavras inglesas ser o segundo resultado numa pesquisa do Google?

A música, as licenças Creative Commons, a indústria, Lessig, a cultura livre e a minha posição sobre a pirataria — tudo isso se pode resumir na resposta a essa pergunta.

O resto? O resto fica lá atrás. A distância de um clique de rato, como tudo o mais, mas lá atrás na fotografia, desfocado.

Decidi fechar aqui os comentários, quem quiser participar nesta conversa vá antes ao debate ao texto Músicos portugueses querem cobrar a quem passa a sua música, do Miguel Afonso Caetano, no Remixtures. Um post desassombrado e uma thread combativa.