Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

29 de março de 2005

Ainda as estradas e o código e os disparates e as bestas e isso

Respostas a comentários, que achei dignas de promoção a post editado.

Caro Fernando: como escreveu KC, o problema da alta sinistralidade reside no comportamento incivilizado (para não dizer troglodítico) do condutor português. Este novo código nada poderá alterar nos comportamentos porque, como refere, sem fiscalização continuará o típico condutor “tuga” a transgredir com a brutalidade do costume.

A minha peça (aqui) não está contra o agravamento da legislação, que considero bem vindo. Limito-me a predizer o óbvio: sozinha, a medida de nada serve excepto às autoridades, que vêm uma das suas acções – a colecta – facilitada. Mesmo a estas, as autoridades, o novo código não traz outros meios necessários para controlar a sinistralidade. Apenas e só a parte da colecta.

A falta de respeito dos condutores não se resolve indo-lhes ao bolso. Isso não os muda: num caso ou outro (os infelizes 1% que são apanhados) possivelmente, que não provavelmente, arrepiarão caminho. Mas por cada besta que é açaimada sairão das “escolas” de “condução” 30 encartadas bestas prontas a tomar-lhe o lugar na linha da frente da guerra que em cada minuto se trava nas estradas, ruas e becos de Portugal.

Não mencionei, por achar menor, as fraquezas evidentes do novo código: para quê, justos céus, agravar as multas em cima das passadeiras? No que toca ao estacionamento nas cidades (e não só em Lisboa; tive muito piores experiências em Faro, por exemplo), a multa é um exercício fútil e arbitrário por parte dos agentes da autoridade, que NADA resolve e pelo contrário agrava os problemas. Ao condutor, azarado porque foi multado e o carrito ao lado, que até estava a lixar a circulação muito mais que o dele, que só tinha a roda em cima do passeio mas toda a gente passava bem na via, esse não foi multado, só o dele, um abrorecimento além do dinheirito – isto se for trouxa ao ponto de pagar a multa; e à polícia, que acumula mais processos de quarta importância a atravancar as secretárias, impedindo o avanço dos processos de terceira, segunda e primeira importância.

Se você nunca assistiu ao triste espectáculo que é ver um carro ser colocado em cima do reboque e, atrás deste, formar-se uma fila porque está um sujeito na mira do lugarzito que vai vagar… olhe, eu já. Os polícias encolhem os ombros no cumprimento do seu cívico dever (remover o infractor) e esperam poder lá voltar para remover o segundo, entretanto passado à condição de infractor, isto se no caminho não tropeçarem num carro que seja mais fácil de remover, claro está.

Acha que os reboquistas, que trabalham à unidade, se dão ao trabalho de remover carros que estão a lixar o trânsito, mas em situação difícil para meter o reboque, quando ao lado está um condutor consciente que deixa a viatura o mais enfiada possível para que o trânsito flua mas, coitado, tem o carro mesmo à mão de semear…?

O caos citadino não se resolverá com medidas punitivas. Estas apenas aumentarão os problemas noutros lados. O ordenamento territorial foi e é gato-sapato dos lobis dos pedreiros. Enquanto subsistir esse estado de coisas o caos citadino é insolúvel.

(…)

Por mim falo: sou hoje um condutor não direi exemplar mas pelo menos preocupado e consciente. Ando mais devagar (embora possa dar 150 na autoestrada se for o caso e houver condições, mas sempre atento para levantar o pé da tábua ao menor sinal de trânsito). Ando sempre ultra-atento aos parceiros de estrada – um treino que me veio de ser motociclista, os motociclistas apanham com os erros todos dos automobilistas, todos, e aprende-se, pois é claro que se aprende.

Sobretudo tenho consciência que a minha vida, e as dos que forem comigo e vão nos outros automóveis, é demasiado preciosa para ser colocada desnecessariamente em risco com manobras arriscadas que, na maior parte dos casos, reflectem exclusivamente o excesso de testosterona. É o que mais vejo por aí: testosterona aos pulos, indomada.

Não fui sempre assim. Também fui vítima da guerra de nervos, e de sexos, que é conduzir nas estradas portuguesas. Aos poucos fui percebendo (muito graças a andar de moto). E modificando o meu comportamento. Deixei de buzinar aos ca(ra)melos que se desenfiam. Dou-lhes prontamente passagem: todos ganhamos, porque assim se contribui para a fluidez do trânsito e se baixam os níveis de irritação. Deixei de fazer tanta burrice, quando percebi que só as fazia porque ou estava a provocar, ou estava a ser provocado… Que disparate!

Mas é esse disparate que marca o minuto-a-minuto do trânsito urbano, e do trânsito não-urbano nos fins-de-semama. É um disparate colectivo que resulta de maus exemplos cívicos, da falta de escolas de condução dignas do nome, dos exemplos “de cima” (vidé a arrogância dos condutores “de excepção”, trate-se do político com escolta ou da própria polícia em situações que ELES querem classificar de emergência), do mau estado das vias de “circulação” e do péssimo urbanismo que me geral caracteriza as cidades portuguesas.

Este é um tema inesgotável. E desinteressante: ninguém gosta de ser tratado por besta. Logo… Tudo como dantes – excepto que a polícia pode facturar melhor. Parabéns: pois que haja alguem contente.