Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

26 de outubro de 2005

O sôr Patrocínio (isto não é uma alegoria para os anos "fartos" do cavaquismo)

O SÔR PATROCÍNIO (ISTO NÃO É UMA ALEGORIA PARA OS ANOS “FARTOS” DO CAVAQUISMO). O sôr Patrocínio era o nosso merceeiro. Lembro-me tão bem! Eu era um mariola e quando passava pelo lugar do sôr Patrocínio costumava roubar-lhe guloseimas. Hoje desconfio que ele virava as costas de propósito: gostava dos miúdos, sobretudo dos mariolas como eu. (E gostava, aqui, não tem nada a ver com pedofilia: ele era mais dar uns pontapé na bola connosco do que apalpar rabos, como a esmagadora maioria dos adultos. Outros tempos, seguramente).

O meu pai, que tinha uma casa de pasto e pensão duas estrelas, águas correntes quentes & frias, criticava o sôr Patrocínio por não ter um frigorífico. Por isso preferia comprar noutros sítios e eu só ia à do Patrocínio fazer recados de “secos”, como um litro de feijão e assim. O meu pai tinha razão: havia merceearias todas brilhantes, com frigoríficos reluzentes, e o senhor do talho, que tinha duas amantes, ambas loiras (o que ainda hoje não compreendo) tinha uma arca que era um regalo, toda branquinha por fora e alumínio por dentro, era o bruá do bairro!

Até que um dia, ao sôr Patrocínio saiu-lhe uma mão-cheia de dozes no Totobola (o Euromilhões da altura, tão a ver? É como ganhar o segundo prémio, mas era percentualmente melhor que agora). Fora o treze e ele tinha pegado na mulher (que tinha uma peruca roxa que usava só para ir à missa) e voltado para São Bartolomeu de Messines. Mas assim… uns dozes… Os senhores do Totobola deram-lhe o cheque e um conselho: que comprasse um frigorífico, que já todos os vizinhos tinham, e o frigorífico era a modernidade da mercearia. O sôr Patrocínio, que era um bom homem, temente a Deus e respeitador de Salazar, assim fez: afinal, o dinheiro nem lhe custara a ganhar, caíra dos céus de Deus! Vieram dois frigoríficos e as donas de casa do bairro passaram a comprar as miudezas no lugar do sôr Patrocínio, todas contentes da vida.

O meu pai, por seu turno, passou a comprar os frangos e o sangue para a cabidela no Aviário C.Olhanense, em Olhão, em plena E.N. 125 — infelizmente já desaparecido. Os frangos de aviário tinham mais procura, estavam na moda, imaginem. E a cabidela do meu pai era conhecida de Norte a Sul do país.

Dez anos depois o empregado do sôr Patrocínio deu-lhe o golpe e ficou com a mercearia — frigoríficos incluídos. O sôr Patrocínio não se atrapalhou: regressou a São Bartolomeu de Messines, onde a filha entretanto casara com o rapaz da rádio local. E reformou-se.

Ironias do destino, o ladrão do empregado foi apertado pela novas modernices dos bares que chegaram a Faro com a Universidade e acabou por vender por tuta e meia a mercearia do sôr Patrocínio… ao sôr Patrocínio, que não se reformou nada, passou o tempo a roer as unhas porque queria era ser outro Belmiro! O problema é que, apesar do tempo para pôr a escrita em da, o sôr Patrocínio não percebia nada da gestão de supermercados. De modos que estão a ver o triste final desta história.

[ Notas curiosas: o sôr Patrocínio não é ficção (só a história) e tinha efectivamente uma mercearia; mas a mercearia que me orientou para esta ficção era outra, cujo nome não recordo já, mas onde Aníbal Cavaco Silva terá provavelmente comprado, ou não ;) , rebuçados de alteia quando frequentou o Colégio Farense, frente a cuja porta ficava o estendal de legumes. Na Rua Filipe Alistão. O aviário C.Olhanense não é ficção e vendia sangue de animais mesmo depois desse negócio ter sido proibido; mas só se consegue fazer cabidela com sangue... e isto não é outra alegoria, juro! ]