Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

8 de setembro de 2007

Open XML vetado pelo Organismo de Normalização: Microsoft em estado de negação

A proposta da Microsoft para a adopção do seu formato de documentos proprietário como uma norma aberta foi derrotada na primeira votação no âmbito do ISO, o Organismo Internacional de Normalização (ISO). O Open XML, ou OOXML, falhou a tentativa de alcançar a maioria de dois terços necessária à aprovação do formato nesta altura, tendo agora o proponete um prazo para apreciar as declarações anexas por cada país ao respectivo voto e voltar a apresentá-la com as mudanças que entender necessárias.

A meia surpresa do veto foi no entanto largamente superada pela reacção da empresa, com os analistas a manifestarem-se surpreendidos pelo que classificam de “estado de negação”. Com efeito, o press-release da Microsoft sobre o resultado da votação do intitula-se “Forte suporte global ao Open XML quando este entra na fase final do processo de normalização da ISO” (“Strong Global Support for Open XML as It Enters Final Phase of ISO Standards Process”, link).

“Oh oh, perder afinal é vencer. Ha!”, escreve Egan Orion no Inquirer, entre outras vozes que se manifestaram surpreendidas com o volte-face da Microsoft.

A história da aprovação de uma norma para os documentos electrónicos seria pouco mais que uma rotina e dificilmente teria despertado o interesse dos media, não fosse a entrada da empresa dominante na indústria da informática. Que, aliás, é membro do forum Oasis – um organismo que reúne várias entidades da indústria e que produziu uma norma certificada para este tipo de documento.

Ao apresentar uma nova norma, a Microsoft gerou uma onda de reacções que tiveram eco internacional. Apesar da má publicidade que estava a atrair, a empresa empenhou-se a fundo no Open XML – que é atacado pelo críticos por na realidade ser um formato já existente e na prática proprietário, que terá sido propositadamente mal documentado para a apresentação à ISO.

Tudo começou logo nas reuniões regionais. Em vários países, da Colômbia à Suécia passando pela Alemanha, a Microsoft viu-se acusada de corrupção e favorecimento em troca de votos favoráveis.

Em Portugal a constituição da comissão técnica no âmbito do Instituto de Informática (II) cobriu-se de ridículo com pessoas afastadas do processo por “falta de cadeiras”; a mesma comissão elegeu para presidente um funcionário da Microsoft; com emprsa como a IBM e a Sun de fora, a comissão técnica acolheu como membros autarquias cuja única relação com a informática é serem clientes da Microsoft (conferir as notícias e opiniões recolhidas pelo Tek Sapo, que fez uma cobertura exaustiva dos acontecimentos).

Depois das tentativas de comprar votos, algumas das quais assumidas (consulte noticiário internacional sobre o assunto), a Microsoft ainda fez um derradeiro esforço para que países que pertenciam a um segundo grupo no âmbito da ISO fossem promovidos a tempo da votação. Não foi suficiente, porém, para evitar a derrota.

Mário Valente: Portugal não sai dignificado

Este assunto deixa alguma mancha sobre Portugal. Mário Valente, presidente do Instituto das Tecnologias da Informação na Justiça (ITIJ) que integrou a comissão técnica, disse ao EXPRESSO: “a forma como o Instituto de Informática conduziu todo o processo não dignifica nem o II nem Portugal”. Valente sintetizou que “a primeira convocatória e a primeira reunião não tinham, claramente, nível de representatividade”, o que na altura o levou a “sentir necessidade de, pessoalmente, chamar mais entidades para o processo”.

Uma das pessoas que seguiu o assunto desde a primeira reunião, e com um grande capital de experiência no meio informático, o fundador do primeiro ISP português hoje ao serviço do Ministério da Justiça mostra-se contudo positivista: “estou convicto que o II terá futuramente uma especial atenção a este tipo de processos, agora que está claro que eles interessam ao geral dos utilizadores e não apenas a uma faixa restrita de tecnologistas conhecedores”.

Quanto ao formato e à votação, Mário Valente é da opinião de que a ISO “teria bloqueado o processo mesmo que a votação tivesse passado”, isto porque o assunto tem dado “polémica demais” para um organismo low profile.

“Já a aceitação” para votação no limite “foi controversa, fora toda a polémica subsequente. Achei sempre que a ISO teria de vetar aquela proposta e seguir o processo normal da normalização”. Contudo, até lá chegar “levaremos um par de anos… que era o que a Microsoft estava a tentar evitar” com a sua proposta isolada. “São dois anos que perde, em que determinadas organizações, como as administrações públicas, poderão decidir usar” uma norma para troca de documentos (o ISO26300, OpenDocument) que não é controlado pela empresa.