Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

1 de maio de 2005

Pá, isto um gajo, pá, já nem um charro pode fumar e apanhar fruta nem se fala!

As notícias condoem-se do “realizador” português Ivo Ferreira porque, coitadinho, foi apanhado a fumar uma ganza num país bem conhecido pela sua atitude fechada, e de resto passada a legislação, quanto ao consumo de estupefacientes e demais substâncias. Ferreira, que teve a peregrina ideia de ir fumar charros para o Dubai, tem conseguido envolver a diplomacia portuguesa e, pior, o jornalismo português na sua causa. Está no seu direito de cidadão e tanto melhor para ele.

A mim faz-me espécie o comportamento dos seus concidadãos. Na Imprensa e nos blogues a “opinião pública” faz críticas ferozes e demandas impossíveis à diplomacia portuguesa que, segundo essa “opinião”, terá de ter como prioridade absoluta defender os cidadãos portugueses quando estes violam as leis dos países que frequentam. Na mesma altura é revelado o drama, com anos, de portugueses vilipendiados por redes espanholas de escravatura agrícola. As reacções da “opinião pública” são quase nulas, ou tímidas. A mim faz-me espécie. Se fossem “realizadores” em vez de apanhadores de fruta, se tivessem sido presos por fumar ganzas em vez de explorados selvaticamente por privados, teriam melhor sorte.

Faz-me espécie uma sociedade que trata com enlevado carinho e comiseração um puto parvo que foi fumar ganzas para o Dubai e ignora, assobiando para o ar, o drama de dezenas de jovens e chefes de família que, sem trabalho em Portugal, são obrigados a aceitar trabalho em condições infra-humanas aqui ao lado, em Espanha.