Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

10 de setembro de 2007

Porque é impossível conciliar a razão e os Macs (mesmo que nos esforcemos)

Tornei-me utilizador de um MacBook por uma série de razões, mas assim que as enunciei fui cilindrado: quando se fala de um Apple perde-se a razão, é tudo emoção.

Em sete dias um post no meu blogue pessoal chegou aos 52 comentários. O texto, intitulado “Mac: primeiras impressões”, relatava brevemente as minhas impressões dos primeiros dias com o meu novo computador, um portátil da Apple chamado MacBook Pro. Uma boa máquina, que veio substituir um Acer com dois anos e muitos quilómetros em cima.

Essas primeiras impressões andavam em torno de pormenores de uso. Por exemplo, da migração de um arquivo de uma década que já andou por três ou quatro sistemas operativos antes, desde o Windows 98 ao Linux Ubuntu, depois de ter passado pelo Linux Red Hat e pelo Windows XP. Uma confusão. Que não assustou o Mac OS X: excepto um programa de facturação, tinha tudo a funcionar e acessível mal acabei de copiar o disco de transporte. E das maravilhas multimedia de que já tinha ouvido falar e que são ainda melhores. Ou a compatibilidade das ferramentas que já usava nas anteriores plataformas.

(Ou o que não tive tempo de escrever no meu blogue mas adiciono aqui: a espantosa pesquisa interna, que me permite ir buscar qualquer texto, entre os mais de 10.000 ficheiros, através de uma palavra, com um grau de eficácia notável, uma velocidade estonteante e um interface de utilização transparente. Até o Google Desktop cora de vergonha ao lado desta funcionalidade embutida no Mac OS X, para não falar da pesquisa do XP, que é um anedota. Para quem, como eu, tem alguma dificuldade em encontrar os textos num arquivo mal organizado, esta função de pesquisa vale ouro. É eventualmente o ganho mais significativo da mudança para Mac e valeria o investimento, na ausência das outras vantagens. )

Pensava vir a escrever mais um ou dois textos sobre o Mac e as razões para ter um – mas as reacções dos leitores deitaram esse plano por terra. Em breve um leitor de longa data comentava: “realmente o céu deve ter caído. Efectivamente parece que alguém vai ter de engolir muita coisa que disse. Mas nunca é tarde para uma pessoa se redimir”. E pronto, a partir daí a conversa derivou para o campo das emoções e nunca mais saiu de lá.

A “comunidade” Mac não apreciou particularmente as minhas reportagens e críticas ao longo dos últimos dez anos e não perdoa, nem esquece, as duas fífias que muito abnegadamente não consegui evitar ao longo desse período. Essas pessoas presumem, erradamente, que pelo facto de eu ter comprado um Mac “mudei de campo”. Algumas parecem mesmo esperar que eu passe a dizer bem só porque sim. De tudo e de olhos fechados.

É o efeito Mac. Não é único ou exclusivo, bem sei, mas é dele que tratamos agora. O efeito Mac torna muitos dos seus utilizadores numa espécie de idólatras de Steve Jobs, esse Kim Il-sung da indústria da informática (fazendo empalidecer os membros da “seita Bill Gates”, que são em muito maior número mas muitíssimo menos aguerridos).

Para eles, um pouco à semelhança no que vemos aos adeptos de Pinto da Costa, não há defeito possível na maquinaria perfeita reconhecível de imediato porque vem com o logotipo da maçã. Mesmo que na intimidade das mailing-lists debatam entre si os problemas, procurando auxílio para as avarias, nada passa para o exterior: ninguém pode dizer mal, e acima de todos os jornalistas.

Bem, na verdade eu estou a exagerar um pouco. Este cenário era assim há dois ou três anos, mas actualmente há uma maior abertura. Talvez pela melhoria geral da imagem da Apple graças ao iPod, talvez devido ao alargamento da base de clientes, a verdade é que notei aqui e ali alguma abertura à crítica. Alguns leitores chegaram ao ponto, inaceitável há algum tempo, de admitir que a placa de rede sem fios tem dado problemas nalgumas configurações – e quando digo “admitir” refiro-me a não atirarem as culpas para cima do equipamento externo. Embora, claro, os fabricantes de padrões levem por tabela com metade da culpa, porque emitem os padrões cedo demais, ou tarde demais, não percebi bem.

Nem interessa. O que importa a um proprietário de um Mac é que a sua máquina é a melhor e mais rápida e mais bonita e pronto acabou a conversa.

Eu concordo que é bonita e estou agradado com a velocidade, mas qualquer máquina actual que custe o preço do meu MacBook Pro virá também com dois GB de memória e não ficará atrás na corrida. A velocidade é uma questão de preço.

Mas há razões para ter um Mac que não são uma questão de preço, pois não aparecem facilmente nos outros portáteis caros. A ergonomia sem rival. O teclado, que é o melhor em que já assentei os dedos, em 20 anos de teclados de computador (e retro-ilumina-se automaticamente quando a luz ambiente diminui de intensidade). O sistema operativo. O conector da ligação à corrente eléctrica que salta ao menor puxão, algo que devia ser obrigatório em qualquer portátil. A facilidade de uso.

Não que estas razões interessem muito; quem já tem um Mac esboçará um sorriso ou ficará indignado, conforme a idade e o que pensa dos jornalistas; quem não tem mas pensa comprar um, o mais provável é querer pertencer ao clube, à “elite”, sentir-se distinto da multidão, e isso do sistema operativo só importa na medida em que acende a luzinha da maçã. Mesmo eu começo a desinteressar-me das razões porque adquiri o MacBook à medida que o utilizo. Mas descansem: não corro o risco de perder o juízo e o sentido crítico só porque tenho, finalmente, um computador que quase não me dá trabalho nem irritações.