Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

23 de abril de 2007

Segundo take: a fase da vitimização do PSD e de Marques Mendes

Terá Marcelo Rebelo de Sousa razão quando diz que Paulo Portas vai beneficiar da conjuntura e voltar a ter uma imprensa aos seus pés, veneranda?

Talvez sim, talvez não. Como Marcelo, não tenho ilusões sobre as capacidades histriónicas de Portas. Mas resta saber se os agentes da imprensa terão lugar para Portas nesta altura. Os media não costumam servir pratos requentados. A irreverência de Portas era fresca ao almoço, mas só um cliente incauto pegará nela ao jantar. Pelo que lhe vi, mudou alguma coisa, tentando apresentar-se mais sóbrio e humilde (duas coisas que nele soam a falso, o que é perigoso e já lhe custou em eleições uns bons cinco pontos percentuais).

Fica a dúvida.

Rebelo de Sousa — em excelente forma este domingo! — frisou, bem, que Portas vai ser uma dor de cabeça para o líder da oposição, Marques Mendes. Vai fazer de conta que o líder da oposição é ele, e Portas é bom a pretender ser mais importante do que é. Mas sobretudo vai ter em José Sócrates um cúmplice dessa farsa; dar protagonismo ao inimigo de ocasião do meu inimigo é sempre bom para mim.

Contudo, o aparelho socialista não será tão ingénuo que não perceba os limites dessa acção. Com dois ou três comentadores a baterem repetidamente na tecla da vitimização (e já começaram, com o próprio Marcelo Rebelo de Sousa a traçar o caminho), expondo o “conluio” entre Sócrates e o “perigoso” Portas (visto como a eterna ameaça por uma parte do PSD), de um instante para o outro a opinião pública muda. Muda a opinião exterior ao partido, o que é crucial para pensar na retoma dos votos ao centro-esquerda, mas muda sobretudo a opinião interna, que está resignada e murcha por o aparelho rosa ocupar os bastiões do aparelho de Estado. É preciso mexer com ela. Basta um pouco de sorte com a emotiva cena da vitimização.

A história da “privatização” da RTP e as mudanças na TVI são outros dois sinais dessa campanha de vitimização do PSD e de Marques Mendes. Coitadinhos, os únicos que não têm uma televisão só para eles… Marcelo disse, e disse bem, sobre os alinhamentos dos noticiários das televisões — plural, não falou apenas da TVI.

A privatização da RTP não passa de uma invenção, sem cobertura sequer dentro do partido. É como o “Grândola, Vila Morena”, um sinal para as tropas. A privatização da RTP não interessa a nenhum partido de poder. Nem aos outros, vistas bem as coisas.

Expirou o prazo de governação desta legislatura

Passado o episódio do canudo, com que os peões deliraram, entrámos na segunda fase do jogo, com os cavalos e bispos a alinharem-se para tomarem conta dos acontecimentos. Vamos agora esperar para ver se no PS a cavalaria ainda está com o status quo, ou já sonha com um golpe palaciano, explorando a ala aberta pelos peões.

Ou seja: em termos de governação, expirou o prazo desta legislatura para as politicas executivas e decisórias. Daqui em diante é só política-espectáculo. Até o presidente Cavaco Silva assinalou o momento da segunda fase, avisando — como lhe competia — que vai fazer uma arbitragem isenta (isto é, acabou a protecção ao “criativo” ponta de lança e se se portar mal leva amarelo como os outros, mas os outros escusam de fazer fitas que o árbitro conhece-as todas, e a eles de gingeira).

[ E o problema Marques Mendes?, pergunta o grilo. Bem, Marques Mendes logo se vê. Não se compra um líder político. É à justa, nas consegue fabricar-se em dois anos. Se não for um Santana repescado (o que, com Portas também no poder, podia bem levar ao split dos dois partidos e a uma grande convulsão à direita), resta enfiar rapidamente Rui Rio no avião para Lisboa para uma campanha intensiva de imagem, talvez como comentador televisivo. Ninguém leva Borges a sério. Espero. Não é uma incerteza: são três. O PSD dormiu na forma tempo demais. Pode até nem ser com Sócrates, mas não estou a ver o PS perder em 2009. Só com um grande berbicacho, um assim do tamanho da Ota... e mesmo aí depende do grau de envolvimento com o respectivo lóbi das figuras que o PSD então apresentar. ]