Da traição

Quem traiu quem?

Na sequência do despacho instrutório do juiz Ivo Rosa e das tomadas de posição de algumas figuras do PS quanto ao silêncio do partido em relação ao seu caso, José Sócrates declarou que o PS o traiu.

Numa das emissões do “360” da RTP3, em abril de 2021, comentei esta afirmação dizendo que foi Sócrates quem traiu — e traiu não só o PS como quem acreditou nas suas versões iniciais dos factos.

Em 2009 fui incluído nas listas do PS — e eleito deputado (independente) — pela quota do secretário-geral, à época José Sócrates. Não hesito em louvar a sua iniciativa, liderante no PS, de promoção da igualdade de direitos para lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros. Graças a isso, foi possível conquistar o que se conquistou. E continuo a louvar esse facto histórico.

Revoltei-me com a sua prisão televisionada, com as óbvias intenções também políticas do massacre que sobre ele recaiu, com a suspensão da presunção da inocência, com as fugas de informação do processo judicial, com a fulanização da magistratura, com o jornalismo tablóide. Continuo a achar o mesmo, e a revoltar-me com tudo isso. Aconteceu com ele e, dramaticamente, nada indica que não possa vir a acontecer com outros.

Apesar de não existir uma relação de proximidade, mas sim uma relação política — e por isso mesmo — visitei-o na prisão de Évora, para ouvir de viva voz a sua versão. Na altura, seguindo os seus argumentos e face ao clima da época acima referido, fiquei convencido de que ele estava a ser vítima do que o próprio chamaria de “cabala”. Casos mediáticos em que esteve anteriormente envolvido tinham-me parecido especulativos e, conhecendo as relações muitas vezes perversas entre política, comunicação social, interesses económicos e justiça, tinham-me deixado apenas expectante face ao seu desfecho, mas não convencido por nenhuma das versões. Obviamente, a minha posição política à época propiciava isso.

Mas, à medida que o processo “Operação Marquês” foi avançando, Sócrates foi alterando a sua versão, as suas explicações. Importou-me muito mais, e mesmo sobretudo, o que ele foi dizendo do que o que ia transparecendo do processo. Tornou-se totalmente injustificável a origem do dinheiro, antes mesmo de qualquer apuração dos factos. Foi então que o juízo ético e político se impôs, sem alterar a presunção de inocência nem o desfecho autónomo do processo judicial.

A desilusão foi imensa. O engano, a manipulação, a mentira. A traição, portanto. Uma questão gravíssima para a democracia e que não será alterada pelo desfecho que o atual processo possa vir a ter.

E não há muito mais a dizer, dada a terrível e triste simplicidade da coisa.

Tentando desempacotar coisas desde 1960

Love podcasts or audiobooks? Learn on the go with our new app.

MVA

MVA

Tentando desempacotar coisas desde 1960

More from Medium

How to Share a File/Folder/Drive on Windows 11?

Another bite at the cherry!

clone script, readymade clone script, offer

Thinking about consumerism and how we forget the real meaning of Christmas and New Year’s Day

Persona Reflection