A pandemia expôs as condições desumanas com que recebemos muitos imigrantes que vêm para as colheitas no Alentejo.
A realidade degradante em que vivem e as condições precárias em que trabalham são o lado lunar do "sucesso económico" que preenche as páginas dos jornais e os discursos públicos enquanto se ignoram, consciente ou inconscientemente, estes anacronismos de um mundo globalizado.
Mesmo perante uma tragédia humana destas dimensões, foi a requisição civil de um empreendimento turístico que ganhou força mediática e foram as vozes dos proprietários indignados que ocuparam os títulos das notícias. "Não quero infetados ao meu lado", foram palavras que se ouviram para comentar a necessidade de ocupar casas de férias em benefício da saúde pública e em defesa da dignidade de alguns.
Compreende-se o transtorno de quem vê as suas casas de férias requisitadas neste momento de emergência e é justo indemnizar estes proprietários pelas suas perdas. Mas convém não esquecer que o maior drama desta situação é invisível e praticamente não tem voz nem na sociedade nem na comunicação social, tendo sido ignorado pelas autoridades ao longo de anos de precariedade.
Se a pandemia não nos ensinar mais nada, que, pelo menos, nos ajude a restaurar a capacidade de olhar o Mundo pelos olhos dos outros. E que saibamos, enquanto sociedade, dar mais voz e mais atenção às maiores vítimas desta pandemia. Ninguém estranha que as legítimas queixas daqueles proprietários tenham mais voz que os imigrantes precários e infetados? Quem os ouve a eles, afinal?
*Psiquiatra e professor da Univ. do Minho

