Hoje é o dia internacional do combate à homofobia e eu quero associar-me à sua celebração fazendo uma pergunta: quem são os mariquinhas com medo dos gays? Não, não leu mal. Disse: mariquinhas. Considerem, para o efeito, a 5.ª entrada do dicionário Priberam: "Que ou quem tem medo". Eu sei, dito assim é uma redundância. Mas quero mesmo frisar a ideia de medo. De fobia. De homofobia. Quem é que tem medo dos gays?
Neste dia, primeiro, vale a pena defender o essencial e derrogar o ilusório: os homossexuais não têm direitos, nem é suposto que tenham. Se isto vos causa estranheza é porque se têm esquecido do artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Vale a pena lê-lo de novo: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos." Diz todos, e a menos que haja quem entenda que os homossexuais não são seres humanos, isto também se lhes aplica. E quem diz homossexuais, diz heterossexuais, bissexuais, celibatários, negros, brancos, amarelos, ciganos, católicos, ateus, gente que bebe café com açúcar, socialistas, e até pais de família em calções de licra e de bicicleta aos Domingos na marginal e na estrada do Guincho. Todos.
É, portanto, claro que têm direitos, sim, mas não porque a sua condição de homossexuais lhos confira, mas precisamente porque a sua condição humana lhos garante; ou, pelo menos, deveria garantir. E é aqui que, como diz o povo, a porca torce o rabo.
Se invocar o artigo 1.º da DUDH é defender para todos, todos os direitos, sem excepção, isso é o mesmo que dizer que não podem ser sujeitos a discriminação negativa, como quando os homofóbicos insistem em querer subtrair-lhes direitos, e desde logo a sua dignidade; nem discriminação positiva, como os que clamam qualquer espécie de direito específico, como boa parte da tribo entrincheirada nos movimentos LGBTQ+nãoseioquê.
Eu sei, eu sei. Muitos de vós dirão que isso, hoje, já não é questão, e que não vos interessa nada o que cada um faz com a sua vida, e que este dia não faz sentido nenhum. Quem me dera poder concordar com isso, porque, na verdade, em termos gerais até concordo. O problema é que, em termos específicos, isso ainda não é verdade. Abramos um pouco o mundo a quem obsessivamente insiste em fixar-se no buraco da fechadura.
O que é que a Mauritânia, os Emirados Árabes Unidos, o Qatar, o Paquistão, o Afeganistão e o Brunei têm em comum? São todos países islâmicos ou de forte influência islâmica, certo. E são todos membros da Organização das Nações Unidas também. Mas, desde Abril de 2019, com a entrada do Brunei no “clube”, são os países que têm pena de morte para gays e adúlteras. (Leu bem: adúlteras. Os homens heterossexuais podem prevaricar à vontade.) E isto só para falar da pena capital, já que, com legislação e práticas homofóbicas (e machistas, já agora), então, há um sem número de outros países.
A quantidade de seres humanos que morreram e que morrem, por homicídio ou por suicídio, em resultado de violências motivadas pela sua orientação sexual (e sexo) é tal que um memorial do tamanho de uma passadeira arco-íris não chegaria para os citar a todos; nem que a passadeira fosse do tamanho da Avenida da Liberdade ou, até, da dos Aliados. Acham mesmo que não vale a pena celebrar este dia?
Ah, mas isso é nos países islâmicos e nós estamos na Europa e nada disso aqui se passa, e os gays agora até parece que têm mais direitos que “nós”, dirão insistentemente alguns indignados. Lamento, mas isso também não é verdade. Primeiro, porque não é a distância física que, em matéria civilizacional, alguma vez nos impediu de fazer a defesa dos nossos valores. Os cristãos perseguidos em muitos desses países, por exemplo, nunca deixaram, e bem, de merecer a nossa solidariedade. São os gays filhos de um Deus menor? Segundo, porque não é verdade que a distância seja absoluta. Até há menos de um ano, um homem homossexual que quisesse dar sangue em Portugal ainda se sujeitava ao vexame de não o poder fazer porquanto tivesse tido contacto sexual no último ano. Mais: e de lho perguntarem!
Aliás, como se de propósito para o dia de hoje, na passada semana tivemos mais um episódio desta saga na Covilhã, perpetrado por cobardes homofóbicos, que trouxe de novo o assunto para o espaço político nacional. Mas sobre isto leiam a nota no fim do artigo, porque contém linguagem que pode ofender leitores mais sensíveis. Estou a gozar, vou dizer e confrontar-vos com isso agora mesmo; se há estômago para a homofobia, também há estômago para a excrescência. Néscios, com tempo e dinheiro na inversa proporção de neurónios, imprimiram flyers com a fotografia de Adolfo Mesquita Nunes e Pedro Farromba onde se lê “Covilhã - Juntos, f*demos melhor. Qual deles é a gaja?”. Cheira-me a australopitecos a brincarem com as próprias fezes, mas pergunto: acham mesmo que não vale a pena celebrar este dia?
Finalmente, uma nota política sobre esquerda e direita. Manifestar-se contra a homofobia não é coisa de esquerda nem de direita, é coisa de gente decente e civilizada. Em Portugal, porém, talvez por ainda não terem conseguido ir além do capítulo 19 do Génesis na leitura da Biblia, há muita gente de direita que, nesta matéria, continua cheia de adversativas e tibiezas. Pior: perdidos nas adversativas, mergulhados nas tibiezas, deixaram mesmo que o país se convencesse - e sobretudo o eleitorado mais jovem - que era a esquerda a legítima defensora de justiça para com os homossexuais. Têm dúvidas? Enquanto neste dia, os Conservadores britânicos e os Populares espanhóis pintam os seus símbolos com as cores que ficaram associadas à luta contra a homofobia, as do arco-íris, a direita portuguesa tergiversa com a questão da ideologia de género. E nisso, Gramsci, enterrado em Roma, sorri de satisfação; Júlio Fogaça fica um pouco mais esquecido; e isto, enquanto a maior parte do eleitorado, enfadado, desviou já a atenção para outro interlocutor qualquer.
Insisto: se se tratam de direitos humanos, lembro que a defesa da dignidade da pessoa humana e da liberdade individual sempre foram as pedras angulares da maior parte das correntes da direita democrática. A defesa da pessoa humana, na sua dignidade própria, na sua condição singular, aquém e muito para além dos grupos, das classes, e de todos os colectivismos a que a esquerda gosta de amarrar o indivíduo. Mas também a defesa intransigente da liberdade individual, da privacidade do indivíduo e do seu direito inalienável à vida e à felicidade. Nesta matéria, a direita não deveria ter dúvidas sobre de qual lado estar.
Pergunto: quem são os mariquinhas com medo dos gays? Vá, já é tempo de saírem do armário.