Sociedade

Carlos Santos Pereira (1950-2021). O jornalista da Europa de Leste e das duas máquinas de escrever

24 maio 2021 17:48

José Cardoso

José Cardoso

Editor Adjunto

cortesia jornal de leiria

Morreu o jornalista Carlos Santos Pereira, que trabalhou no Expresso, Público, Diário de Notícias e RTP, foi colaborador noutras publicações, professor e autor de vários livros

24 maio 2021 17:48

José Cardoso

José Cardoso

Editor Adjunto

Era um apaixonado pelo jornalismo, sobretudo pela reportagem. Sempre intelectualmente inquieto, sanguíneo, interessado e empenhado, se se tratasse de ir a qualquer parte do mundo reportar o que por lá estava a passar-se podia partir no minuto seguinte, mesmo com bagagem improvisada e mínima. Fê-lo várias vezes, essencialmente para a antiga Europa de Leste (comunista), de que era especialista.

Licenciado em História e especializado em estudos eslavos, o Leste e as então chamadas “relações Leste-Oeste” (o Ocidente e os países comunistas, em geral, com os Estados Unidos e a União Soviética em particular) eram a sua praia. Foi sobretudo sobre estes temas que escreveu nos anos 80 para o Expresso, fosse com reportagens e análises sobre as transformações que começavam a desenhar-se nos países comunistas do leste europeu fosse cobrindo acontecimentos como a célebre cimeira de Helsínquia entre os Presidentes Reagan e Gorbatchov.

Motard entusiasta (“só estou bem em cima da mula, levo a mula comigo para todo o lado”, dizia-me), chegou a ir em reportagem para a antiga Jugoslávia na sua BMW, circulando ainda entre camaradas e amigos algumas das peripécias que protagonizou nessa viagem.

Na redação era igualmente um homem ativo e inquieto, tanto a falar para uma qualquer fonte numa qualquer capital do leste europeu - falava servo-croata (não sei quão bem…) e “arranhava” um pouco de russo) - como a organizar a secção internacional na ausência do editor ou a montar algum dos suplementos que eram feitos semanalmente nessa altura. Foi o responsável por várias, fosse o suplemento especial publicado na altura da cimeira de Helsínquia fosse um caderno sobre… caça. Nunca dizia que não, e propunha amiúde trabalhos fora da sua área especializada.

Era o que acontecia, por exemplo, com temas de desporto - como remo, que praticava -, com os quais colaborava para a respetiva secção, para grande inquietação do editor do internacional: as duas secções fechavam no mesmo horário e o editor do internacional queria que os seus temas fossem concluídos primeiro.

Como Santos Pereira trabalhava sempre sob pressão, escrevia para as duas secções – sempre em cima do deadline - em simultâneo. Numa máquina de escrever estava a folha com a prosa sobre remo ou ciclismo, na outra o artigo sobre a Roménia ou a RDA. Quando o editor do internacional se ausentava da sala, tirava para cima da secretária a máquina que estava no chão com a folha do artigo de desporto e escrevia mais um pouco; quando o editor estava a voltar (“avisa aí quando ele vier aí”, pedia a quem estava perto da porta e pressentia os passos no corredor), voltava a coloca-la no chão, por trás da secretária, e punha em cima a que tinha o artigo internacional.

No fim dos anos 80 saiu do Expresso, para ir fundar o Público, do qual foi o primeiro editor de internacional. Aí continuou a acompanhar as transformações na Europa de Leste, sempre com o mesmo entusiasmo. Saído do Público no fim dos anos 90, trabalhou depois no Diário de Notícias e na RTP.

Enquanto esteve nuns e noutros jornais publicou três livros, "Da Jugoslávia à Jugoslávia - Os Balcãs e a Nova Ordem Europeia", "Os Novos Muros Da Europa" e "Guerras da Informação - Militares e Media em Cenários de Crise".

Já neste milénio, deixou o jornalismo ativo e diário. Foi professor na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes e colaborava esporadicamente com vários jornais, tv e rádios, escrevendo artigos de opinião ou comentando política internacional.

Foi encontrado morto, por familiares e amigos, na casa onde vivia, em Ourém.

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