Modus vivendi

"Werde der du bist."   Goethe

blogue de Ana Roque

18 de Abril de 2022

Joaquin Sorolla



18 de Abril de 2022

dizer o que é amor

saber o que és, dizer o teu corpo,
ouvir-te num breve instante,
dizer o que é amor sem o dizer,
tirar de mim um poema que te cante;
e ver passar-te por entre os dedos
o fio de luz que prende os teus olhos,
e vê-lo enrolar-se em segredos
quando a tua voz o apaga e acende;
tocar-te os lábios num fim de verso,
ver-te hesitar entre sorriso e mágoa,
perguntar se o teu rosto tem reverso,
e ter nele uma transparência de água:
é o que vejo em ti no cair de véu
em que me dás a terra que vale o céu.

Nuno Júdice


17 de Abril de 2022

Sergius Pauser

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17 de Abril de 2022

Uma pergunta numa cabeça

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não acabarem).
Esta certeza tive-a hoje ao entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar ao balcão;
eu perguntei: «Que fez algum poeta por este senhor?»
E a pergunta afligiu-me tanto
por dentro e por fora da cabeça
que tive que voltar a ler toda a poesia
desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça. -- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? --

Manuel António Pina


16 de Abril de 2022

Quint Buchholz

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16 de Abril de 2022

Pouco não me serve

Sou composta por urgências:
minhas alegrias são intensas;
minhas tristezas, absolutas.
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos.
Eu não caibo no estreito,
eu só vivo nos extremos
Pouco não me serve,
médio não me satisfaz,
metades nunca foram meu forte!
Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente...
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir, de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca.

Clarice Lispector


15 de Abril de 2022

Carl Vilhelm Holsøe

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15 de Abril de 2022

a única espécie de amor

Ao longo da minha vida não amei nenhum povo e nenhuma colectividade: nem o povo alemão, nem o povo americano, nem o povo francês, nem a classe operária (...). Amo unicamente os meus amigos e a única espécie de amor que conheço é o amor pelas pessoas.

Hannah Arendt


14 de Abril de 2022

Os primeiros encontros

cada momento passado juntos
era uma celebração, uma Epifania,
nós os dois sozinhos no mundo.
tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
descias numa vertigem a escada
a dois e dois, arrastando-me
através de húmidos lilases, aos teus domínios
do outro lado, passando o espelho.

Arsenii Tarkovskii


13 de Abril de 2022

anónimo

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13 de Abril de 2022

a mesma canção

A sensação que tens
é de que tudo
quanto dizes já o leste
noutros livros. Mas
depois consideras: também
o sol e os pássaros
repetem todos os dias
a mesma canção.

Albano Martins


13 de Abril de 2022

A memória

A memória é uma costureira e, não bastasse isso, das cheias de capricho. A memória conduz a sua agulha para fora e para dentro, para cima e para baixo, para cá e para lá. Não sabemos o que vem em seguida nem o que virá depois. Assim, o ato mais corriqueiro do mundo pode agitar milhares de fragmentos discrepantes, desconectados, ora acesos, ora apagados, subindo e flutuando e descendo e oscilando...

Virginia Woolf


12 de Abril de 2022

Quint Buchholz

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12 de Abril de 2022

Do brilho

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Herberto Helder