Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

1 de dezembro de 2011

Não se iludam: tudo o que colocamos nas redes sociais é público ou vai sê-lo de uma maneira ou de outra

A Katia Delimbeuf colocou-me uma série de perguntas quando preparava um artigo para a revista do Expresso. Como o artigo já foi publicado, naturalmente com a seleção editorial das minhas respostas, deixo aqui a versão integral.

Pergunta: A figura do gestor de redes sociais (“community manager”) já é comum em Portugal?

Resposta: Não diria que é comum. Penso que ainda há poucos exemplos.

P. Entre figuras públicas e políticos, quem os usa? Compensa ter alguém que pensa uma estratégia de comunicação? Achas que é uma figura que veio para ficar?

R. Conheço alguns casos de músicos, sobretudo, cujas contas são geridas por profissionais. Nos políticos, sei que as contas de Presidência da República, de Passos Coelho e de António José Seguro são, ou foram, geridas por terceiros. O primeiro, julgo tratar-se de alguém da Casa Civil. O segundo, não faço ideia quem seja. No terceiro, durante algum tempo foi gerido por uma pessoa que não atua como profissional nem assume esse estatuto.

A verdade é que a grande maioria dos políticos com os quais me relaciono nas redes sociais dispensa esses gestores. Quanto aos que não sigo, que são muito mais, não sei se usam ou não os gestores profissionais.

Compensará nos casos em que a pessoa tenha pouca propensão, ou falta de tempo. Admito que figuras dos espetáculos prefiram gestores profissionais. Já no caso de políticos, é mais complicado decidir se vale a pena recorrer a esses intermediários, dados os contras da decisão e a escassez de prós.

Sim — julgo tratar-se se mais uma função que veio para ficar. Já nasceram algumas empresas novas, especializadas, mas no geral as agências de relações públicas e/ou de comunicação incluem a função na sua oferta e recrutam as pessoas indicadas.

P. Quantos utilizadores de Twitter e de Facebook há em Portugal?

R. Essa é uma pergunta sem resposta, ou com demasiadas respostas. Calculo que o número absoluto de contas criadas andará respetivamente pelos 600.000 a 700.000 no Twitter e 3.500.000 a 4.000.000 no Facebook. Mas esse número é completamente irrelevante. O número de contas ativas numa base mensal é menos irrelevante e andará, segundo as minhas estimativas, pelos 260.000 no Twitter e pelos 2.400.000 no Facebook. Repito, é apenas a minha estimativa.

P. Até que ponto esta estratégia de aproximação directamente com o público é conseguida?

R. Depende de muitos fatores — a começar pelos objetivos da presença e pelos recursos dedicados. Há pessoas, e lembro-me do Nuno Markl e, mais recentemente, da eurodeputada Edite Estrela, que tiram muito partido das redes sociais, tanto no campo profissional como pessoal. Mas calculo que para a maioria das pessoas a presença nas redes sociais seja pouco ou nada importante em termos de projeção pública e que para algumas seja uma desilusão.

P. Como se controla a diferença entre esfera privada da esfera íntima (cf: atores que publicam fotos ousadas, anúncios de paternidade…)?

R. Não se controla: tudo o que se coloca nas redes sociais é público ou vai ser de uma maneira ou de outra, hoje ou para a semana, ponto final parágrafo. Quem disser o contrário mente — por alguma razão que só à pessoa dirá respeito.

P. Que polémicas mais conhecidas te lembras, em Portugal e no estrangeiro, relacionadas com o Facebook e o Twitter?

R. Diariamente há polémicas. Quer com pessoas públicas do mundo real — o jet set e as personalidades reconhecidas pelos media –, que com pessoas públicas do mundo digital — as personalidades ignoradas pelos media. Não as acompanho. Quanto às polémicas com as plataformas, nada de novo do lado do Facebook, que continua a demolir o significado da palavra privacidade, e novidades recentes sobre a (absoluta falta de) eficácia das ferramentas que anunciam medir a relevância e a influência das pessoas nas redes sociais, do Twitter ao Facebook aos LinkedIn ao Google Plus.

P. Quais os perigos? Clones, ‘hackers’…?

R. Os principais perigos são a auto-cretinice e a ignorância, responsáveis tanto pela publicação indevida de informação privada, como pelas quebras de segurança que facilitam os outros dois grandes perigos: a usurpação de identidade e o roubo do perfil. Tudo o mais está, digamos, um tanto romanceado.