Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

27 de outubro de 2020

Terça-feira, 27 de outubro de 2020

A entrada de hoje é mais extensa do que é habitual. Há dias em que saem mais palavras que noutros.

Frase do dia: Cala-te ó facho(pesquisa no Twitter)

 

O Facebook tem sido denunciado como a besta que destrói o jornalismo e há nisso uma ponta de verdade — sucede que é a parte que os jornalistas não vêem. Só olham para a publicidade a desaparecer. O adversário que os jornalistas têm de vencer é este: o Facebook permite-me acesso a sábios, experts e fontes especializadas e às suas conversas, enquanto eles não conseguem dar-me mais do que uma dieta pobre em conhecimento.

Um caso de estudo é a pandemia. Desde março que sigo uma dúzia de pessoas e as discussões que travam entre si. Registo o último exemplo: um post de hoje do antigo presidente do Instituto Superior Técnico, Arlindo Oliveira, com uma sequência de comentários absolutamente fascinante, disponível no link seguinte, sobre o excesso de mortalidade e o impacto do alarmismo na evolução do combate à COVID-19.

É apenas o mais recente exemplo da vantagem que existe em seguir a elite esclarecida nos diversos componentes de um assunto (Arlindo Oliveira é um engenheiro de formação e o seu principal aporte ao tema da pandemia reside na sua bagagem matemática aprofundada na inteligência artificial — ou seja, é um excelso triturador de dados; no debate entram outros cientistas, matemáticos e também epidemiologistas). A informação com que fundamentam os seus argumentos e os diálogos travados com eles ensinaram-me o que jamais os jornais poderiam fazer. Porque não é a sua natureza, nem a sua função, nem têm capacidade ou espaço. Certo. Mas onde caibo eu, leitor com o mínimo de bagagem e de interesse por mais que a espuma das notícias, mas sem o nível científico das publicações especializadas? O que há para mim nos jornais de papel, bits ou televisivos?

Nos televisivos não há nada para a minha faixa de consumidores — cidadãos muito interessados, com atenção e disponibilidade, e com bagagem cultural acima do nível programas da manhã/programas da tarde, mas abaixo do nível de investigador universitário ou industrial. Nos de papel há quase nada: uma entrevista aqui e ali, geralmente mal enquadrada. Nos eletrónicos há um pouco mais que quase nada: um gráfico por outro e um par de links.

.o0(E estou a ser simpático com a generalização. Na realidade, à exceção do Público, no qual se nota um imenso esforço por fazer bem, o panorama é francamente devastador de pobre: estão entregues à serendipidade, hoje cai um assunto giro, amanhã quem sabe. Saindo de Portugal porque eu consumo em inglês, castelhano e francês, há um ou dois públicos por língua e o resto é deserto)0o.

A imprensa generalista não cobre a minha faixa e a imprensa especializada está acima da minha faixa. Quando não existia Internet a solução era ficar-me pela imprensa generalista — que por sua vez era melhor do que hoje, reduzida que está ao maiores denominadores comuns, à lógica do negócio e às fracas receitas.

Mas hoje há Internet. Tenho especialistas — dos verdadeiros — que conversam/debatem entre eles de forma aberta, derramando informação e conhecimento para cima de mim. Esse meio é extremamente rico e dinâmico, em tempo real ou diferido, com gráficos e links e tudo, em pequenos pacotes ou long read, é como eu quiser e puder, com o bónus de poder interagir, perguntar, tirar dúvidas, adicionar um comentário.

Hoje na COVID-19, amanhã no Orçamento de Estado, depois de amanhã na questão emergente do hidrogénio — sigo de perto os cientistas e os especialistas e os amadores apaixonados e bebo das suas conversas e quando vem o noticiário dois dias depois para mim é um tremendo bocejo e quando bato numa paywall penso duas vezes e o racional é sempre favorável a quem me dá a dieta mais rica.

Esse é o adversário a superar. Não são os anúncios nem o algoritmo. É a conversação inteligente.

O gatekeeping é passado.

 

Como vencer o populismo de direita? Com o discurso contrário à xenofobia, ao medo, ao nacionalismo como reduto: narrativas europeístas e inclusivas, que enfrentem os problemas atuais — clima, ambiente, concentração de recursos numa ultra-minoria a.k.a. redistribuição, economia deflacionária e preparada para o decrescimento — e que apelem às pessoas esclarecidas, que andam sem referências.

Em resumo: doses de esclarecimento para combater as doses de ignorância, doses de tranquilidade para combater as doses de medo.

Mas isto não vai sair dos partidos do centro nem dos tradicionais (nenhum deles tem um discurso claro sobre os problemas supracitados). Estamos na fase da cidadania ativa, da qual saem alguns novos partidos e pessoas e ideias para recentrar, para redireccionar os partidos do sistema. Nasceram já alguns movimentos em países mais avançados da Europa (sem confusões: avançados no tempo). Em Portugal temos 3 partidos novos — PAN, Livre e Volt — nessa rota. E grupos de cidadania têm conquistado projeção pública como nunca tiveram.

Falta algum caminho. Ou muito caminho. A boa notícia é: nos últimos meses, em eleições e em sondagens em vários pontos da União, é notório o recuo do populismo de direita e o avanço dos Verdes & similares.