Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

30 de outubro de 2020

Sábado, 30 de outubro de 2020

Um filme para sábado: Os 7 de Chicago. Ver no Netflix, ler ficha IMDB.

Sábado e domingo não há diário. Em parte por isso, temos mais leituras no linklog de hoje, no fim desta edição. Mas sábado há Plural — a newsletter semanal que edito sobre a Europa.

Os efeitos BONS da pandemia na atividade económica. O PIB da União Europeia disparou no terceiro trimestre. Números preliminares do Eurostat: o salto em cadeia é de 12,1% para a União e ligeiramente mais elevado, 12,6%, para a zona Euro (relatório). Portugal superou a média europeia com 13,2% de crescimento no trimestre. Surpresa? Só para os desatentos.

Há duas semanas que venho acumulando impressões sobre a atividade económica de resposta à pandemia. A suspeita de que ela não está tão má como parece, ou como esteve entre fevereiro e junho, vem-se avolumando. Não pretendo de forma alguma negar seja de que maneira for o efeito violento da pandemia nas nossas estruturas económicas: nacionais, europeias e globais.

Não sendo epidemiologista nem economista nem governante nem deputado nem militante partidário nem empresário, tenho uma liberdade completa para olhar. E não foi para aí que olhei. Não foi atrás de lógicas de culpa nem de lógicas de aproveitamento.

Olhei para a frente. Para o que saiu primeiro da paralisia inicial. Já vou concretizar em pontos desordenados, enquadráveis em 2 grupos: o grupo das medidas políticas e o grupo das (re)ações dos agentes económicos.

União Europeia. Foi dificílimo de negociar, as conversas arrastaram-se semanas, mas o Fundo de Recuperação e Resiliência ficou decidido em Julho; pode estar num impasse técnico mas o compromisso é que conta. O bolo virá, em fatias pequenas ou grandes, mais cedo ou mais tarde, e isso é quanto basta para os governos nacionais agirem.

Os efeitos políticos do FRR foram tremendos. O sinal de união dado pelos membros da UE foi fundamental para manter e até incentivar a confiança dos agentes económicos — empresas e consumidores.

Layoff. O Governo tomou mais medidas mas a redução temporária dos períodos de trabalho foi a que mais serenidade introduziu no ambiente social. Evitou que muita gente perdesse a cabeça. É melhor enfiá-la por um tempo no congelador.

Construção civil. Um setor pouco afetado pela crise pandémica. As obras em geral continuaram. Algumas obras municipais até foram intensificadas para tirar partido do aumento de horas diárias sem trânsito.

Distribuição alimentar. Teve de se ajustar a horários e experiências; certamente perdeu lucros de outra forma certos. Alguns despedimentos, alguma renovação de pessoal. Mas manteve-se a funcionar. Admito que até tenha vendido mais, ou pelo menos em sub-setores, como os vinhos e outros produtos supérfluos que tipicamente eram consumidos na restauração e não em casa.

Economia paralela. Não verte para o PIB. Mas é economia: algumas centenas de milhar de pessoas têm nela os seus proventos. A limpeza doméstica sobretudo: muitas famílias não chegaram a dispensar as suas empregadas à hora ou a dias, outras suspenderam no período pior do confinamento por 2 a 4 semanas.

Economia de proximidade. Em parte misturada com a paralela, em parte não, mas com um calendário semelhante. Cabeleireiras/os que tenham aguentado um mês a mês e meio fechados, reabriram portas para retomar o ritmo normal ou muito perto disso.

Reparações, melhoramentos e bricolage. Tentaste arranjar um autoclismo ultimamente? Substituir o esquentador? Precisaste de ir comprar pregos ao Leroy Merlin/AKI/Mestre Maco/etc? Então sabes do que vou falar. Até parece que toda a gente aproveitou o tempo em casa para os pequenos consertos, fechar a marquise, comprar uma mesa para a miúda colocar o computador para as aulas à distância.

Nos ambientes urbanos ao redor de Lisboa (e suspeito que do Porto, Braga, Coimbra, Leiria e Aveiro, em graus menores) notou-se e nota-se um frenesim de mudança. Pequenos prédios e apartamentos com 50 anos a serem remodelados com o olho no arrendamento alternativo a Lisboa, proprietários da pequena burguesia que aproveitam o tempo livre e as poupanças (em confinamento gastou-se menos) para pintar a fachada que não via tinta há 20 anos, e uma lista infindável de pequenas obras do género.

Resultado: no setor o trabalho disparou, quer as empresas — de vão de escada a médias — quer os informais sem recibo subitamente passaram a ter de gerir agendas e marcações. Reparações que antes se podiam marcar de um dia para o outro passaram a esperar uma ou duas semanas, tal a procura.

Há aqui um efeito imediato: estas pessoas não pararam. E um efeito a prazo: os proventos acumulados acabarão em investimento.

Algarve. O turismo foi o setor mais brutalizado pela pandemia. É claro que a região mais dependente do setor teria de ser brutalmente afetada. Sim: o desemprego aumento no Algarve. Mas não se concretizaram os piores pesadelos: não há falências em massa e em efeito dominó.

Um empresário do não-turismo adiantou-me uma explicação. A crise financeira acabou por ensinar uma lição às empresas que se tornou valiosa agora. As PMEs estão em geral mais resistentes, menos alavancadas financeiramente. Estremeceram, mas não caíram. E as pequenas obras dos pequenos proprietários foram ajudando a compor o dia a dia da maioria dos trabalhadores das empresas de serviços.

Quanto ao turismo em si: a época acabou por ser salva pelos portugueses, que foram muito mais para o Algarve por diversas razões. É uma época magra, sem dúvida. Mas não foi o descalabro temido e anunciado.

Digital. O tele-trabalho foi um maná para muitas tecnológicas. Tipicamente mais ágeis, adaptaram-se mais rapidamente à mudança de paradigma de trabalho. E esta por sua vez aumentou a procura dos serviços digitais — e da automação em particular. Falando por mim: tenho tido mais trabalho e mais projetos. Não tenho a certeza que encaixe no perfil maioritário do setor, mas estou em crer que sim.