Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

5 de novembro de 2020

Quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Canseira: geopolitics. Excitação: spacepolitics

Contar histórias com números. Circula por aí a ideia de que Trump é o presidente mais votado de sempre, com os seus 70 milhões de votos. E comparam-se os números com a outra grande referência da direita mundial, Nixon, que em 1972 só teve 47 milhões. Bem. Sem querer desmentir ninguém ;) apresento mais uns números, que reputo de, digamos, mais realistas para qualquer avaliação.

Os 47 milhões de Nixon foram 60% dos votos, os 70 milhões de Trump são 48% dos votos.

Os 70 milhões de Trump são 21% da população estado-unidense, os 47 milhões de Nixon são 34% da população.

Em suma: No segundo mandato Nixon foi votado por 1/3 dos estado-unidenses, no segundo mandato Trump foi votado por 1/5 dos estado-unidenses.

Moral da história: escolhe os números que melhor sirvam a TUA narrativa. Afinal de contas, se a verdade fosse importante, Trump estava preso.

Na Terra como nos céus. Nos últimos 25 anos a Estação Espacial Internacional ajudou a manter fluídas as relações entre a Rússia e os Estados Unidos, com astronautas e cientistas dos dois países a coabitarem-na. Mas a EEI tem os dias contados. E a NASA lançou (com Trump) um novo programa de exploração lunar sem consultar os amigos russos (nem mesmo Canadá, Japão e União Europeia: os co-fundadores da EEI foram convidados mais tarde mas como ‘parceiros’).

O projeto Gateway foi anunciado como parte de um plano estado-unidense de regressar à Lua em 2024 — 52 anos depois da última alunagem. Os americanos insistem tratar-se de um projeto internacional e a Agência Espacial Europeia de facto assinou há dias um acordo de parceria. Mas de Moscovo veio um sonoro nyet!

Testemunhamos o fim de uma era na geopolítica e na política do espaço. O fim da EEI e o lançamento do Gateway forçam os blocos a um realinhamento. A Rússia deixa de alinhar com os EUA. E a China está a construir a sua própria estação orbital, cujo primeiro módulo, o Tianhe, estará no espaço em 2021. Uma aproximação da Rússia à China — e para os próximos 50 anos teremos o século XX versão 2.0, na Terra como nos céus.

Esta nova versão do alinhamento tem uma novidade principal: o papel do investimento privado, que é muito maior e aposta nos dois cavalos.

Estados Desunidos da América. A eleição presidencial não é a causa da divisão profunda dos americanos, mas a sua consequência. E a divisão, ou divisões, vai continuar a acentuar-se. Não há Biden nem Harris que contrariem. Teme-se que a corda acabe por quebrar. Mas por onde?

Presente na cultura americana desde sempre, a secessão é a principal hipótese (digo eu). É abordada em “Break It Up: Secession, Division, and the Secret History of America’s Imperfect Union”. A ler mal tenha tempo.

Opiniões

Manuel Carvalho sobre Donald Trump: As eleições numa democracia doente. publico.pt

Carlos Esperança sobre direitos: A Liberdade De Expressão E A Democracia. ponteeuropa.blogspot.com

Cristina Azevedo sobre o sucesso da Nova Zelândia: Nos antípodas. jn.pt

Rute Agulhas sobre crianças: A que sabe a lua? dn.pt

Luis Suárez Mariño sobre os velhos: La era de los mayores: sobre el envejecimiento activo y Cicerón. Ethic