Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

8 de novembro de 2020

Domingo, 8 de novembro de 2020

Se eu tivesse de escolher deuses, se fosse obrigatório mesmo mesmo, os meus deuses eram as nuvens, as árvores e as ondas do mar.

Kamala Harris. Não sigo a política americana de forma a ter uma ideia concreta sobre a vice-presidente dos EUA eleita. Mas estou ciente do seu valor político. Da importância do sinal que ela contém. Por muitas e variadas razões. Pode acontecer que Harris venha a ser presidente tendo de substituir Joe Biden. Pode acontecer que Harris venha a ser presidente daqui por 4 anos.

Chama-lhe um pressentimento, é o que tenho nesta altura. Tenho o pressentimento de que nada disso sucederá. E converso com os meus fechos velcro dizendo-lhes que espero com todas as forças tratar-se de um terror e não de um pressentimento. Um wishful thinking ao contrário. Porque tenho a convicção que a existir uma pessoa, uma só pessoa, que por aquilo que simboliza e por aquilo que vale, capaz de através da presidência dos EUA inverter o caminho daquela nação e restituir um rumo digno para os 330 milhões de estado-unidenses, é ela.

E sim: tem tudo a ver com tratar-se de uma mulher.

As medidas. Vamoláver:

1. São boazinhas — o que é o melhor que se consegue. Não há condições para conseguir medidas nem ótimas, nem melhores.

2. Vêm tarde. Este e os outros governos facilitaram demais — eis uma crítica que se fez e que se pode fazer.

3. São curtas, o que felizmente tem correção. Dentro de 15 dias terão de ser mantidas ou aumentadas, pois só veremos os seus efeitos em 3 a 4 semanas.

4. Só por milagre o SNS não rebentará.

5. Eu repito: só por MILAGRE o SNS não rebentará.

6. E com ele o sistema de saúde completo. Colocando completamente de lado qualquer consideração ideológica, coisa que francamente recomendo a toda a gente, chamar os privados, a pagar-lhes ou a requisitá-los é indiferente, não vai resolver grande coisa. A capacidade deles é reduzida. Mais vale tê-los, evidentemente, são vidas salvas e são doentes tratados, mas se esperas um milagre — ou mesmo um grande alívio — desses lados, esquece.

7. Nas 4 últimas semanas as mortes dispararam e desviaram-se bastante das médias dos últimos 10 anos. É um recorde: estamos a passar o mais prolongado período de tempo em que o número de mortes por dia é consistentemente o mais elevado desses 10 anos.

8. A diferenciação COVID / não COVID? Esquece. Já não interessa. A COVID impacta tanto o sistema de saúde (e ainda mais fora dele) que deforma tudo.

9. A percentagem de mortos COVID por dia da última semana anda pelos 12% a 15% do total de mortos. A subir como tem vindo a subir, se não conseguirmos estancar a progressão do vírus, dentro de 1 mês a patologia COVID estará a representar mais de um terço das mortes e em vez das 400–450 da estação da gripe andaremos acima do meio milhar, na faixa 500–600.

10. Nada aguenta isso. Não estou a falar do sistema de saúde. Estou a falar da economia. Ou abrandamos, ou não a salvamos.

Portanto, façamos o que pudermos, dentro das regras e limites. Mandar vir comida de fora, procurar trabalho à distância, passear o cão de manhãzinha, tenta ser solidário, ser compreensivo para com os milhares que vão ter um período muito mais difícil que o nosso. Consoante o teu perfil político, podes criticar ou defender o Governo, sendo certo que seja qual for o caso NÃO QUERES ESTAR na pele da Ministra da Saúde e do Primeiro Ministro, nem na pele do Presidente da República.

Canseira: televisão hertziana e cabo. Excitação: Netflix + HBO + Amazon Prime.

Pedro Filipe Soares marca aqui um ponto: “A derrotada da noite eleitoral foi a democracia estadunidense. Não pelos ataques de Trump, desesperado ao ver o tapete fugir-lhe debaixo dos pés, mas pela quase completa conivência do Partido Republicano à política de terror eleitoral de Trump. Começa a ser difícil perceber onde terminam as malfeitorias do trumpismo e onde começam as do Partido Republicano. A teoria dos pesos e contrapesos já teve melhores dias.”

Opiniões

Bárbara Wong sobre ghosting: Amar sem fantasmas. publico.pt

Vítor Belanciano sobre cansaço e ressentimento: Os ignorantes da covid e os idiotas de Trump. publico.pt

Vital Moreira imperdível sobre o Chega: Praça Da República (40): Há Coisas Que Não Mudam. causa-nossa.blogspot.com

Miguel Vale de Almeida sobre o Chega: Escorpiões e rãs. miguelvaledealmeida.medium.com