Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

9 de novembro de 2020

Segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Kámala, diz-se Kámala Harris. Não aportugueses para Kamála, OK?

Mulheres ao (quarto) poder. E por falar em Kamala Harris (que motivou algum correio simpático de amigos que recebem este diário). Corria o ano louco que antecedeu a Expo-98 e eu e um amigo meu (se és antig@ talvez te recordes do dr bakali que escrevia no Blitz) dávamos grandes secas a quem nos escutava, referindo-nos ao século que estava para vir, este o XXI, como o século das mulheres. Desejávamos que assim fosse, que a tendência se confirmasse e acentuasse. Tínhamos uma certeza: não poderiam fazer pior no poder do que os homens. E uma convicção: fariam melhor (por uma série de razões, da preparação superior à sensibilidade à capacidade organizativa).

Hoje escrevo estes nomes. Inês Cardoso. Rosália Amorim. Joana Petiz. Mafalda Anjos. Graça Franco. Cinco mulheres cinco. Dirigem órgãos de comunicação. Jornais, revistas, rádios. Cinco jornalistas que hoje ocupam cargos dirigentes num quarto dos OCS ditos nacionais. E isto é uma mudança grande: há 23 anos não havia nenhuma mulher nos cargos de direção dos jornais e eu tinha poucas camaradas mulheres.

Boa sorte Inês Cardoso, Rosália Amorim e Joana (a única com quem trabalhei, ainda que pouco, creio que dois artigos para o Dinheiro Vivo). As que foram ontem indicadas para, respetivamente, Jornal de Notícias, Diário de Notícias e Dinheiro Vivo.

É um pedaço de História que se escreve. JN e DN nunca tinham sido dirigidos por mulheres ao longo das suas vidas centenárias.

É a notícia GLOBAL do dia. A vacina a vacina, vem aí a vacina! Bem, calma. Para já é um press-release. É significativo, é obra, mas é um press-release. A informação científica é escassa, para não dizer zero. Temos os tópicos que a Pfizer (diz-se faizer, não aportugueses para pefaizer) e a Biontech quiseram divulgar.

Eu diria que o press-release tem um intuito posicionador no mercado, um aviso à concorrência e um sinal aos governos. E que o conteúdo informativo a extrair neste momento é:

  1. é quase certo que teremos de facto a vacina mais rápida de sempre
  2. fora dos testes, a vacinação seletiva poderá começar em janeiro
  3. a vacinação em massa talvez em março-abril
  4. a pressão sobre os governos vai aumentar, tornando a manobra ainda mais difícil (a ver se escrevo sobre isso esta semana)
  5. a comunidade científica ou se cala numa de wait and see, ou convidada para as televisões debita uma banalidade para disfarçar não ter resistido ao convite. A informação é escassa e não permite mais.

Entretanto, o Guardian tem uma boa peça sobre este assunto. Aqui.

O tema único — a pandemia — é irresistível, arrasta-nos a todos, até os que sabem que há tanta coisa significativa a passar-se, como o jogo de póquer entre Rio e Ventura, como a erosão da imagem das instituições, devorada pelo matraquear tonitruante da máquina do lucro. Este é uma força descomunal, que se recolocou em movimento depois do Grande Choque de fevereiro/março que tudo paralisou. Mas o capitalismo só é feio para quem o sofre. E quem o sofre não conta. A História anonimiza as vítimas mas nomeia quem controla a narrativa.

Opiniões

Eduardo Pitta breve sobre o surrealista: Cruzeiro Seixas 1920–2020. daliteratura.blogspot.com

Beatriz Meneses Moutinho sobre mulheres: Geração Kamala: as mulheres que vão mudar o mundo. publico.pt

Rui Bebiano sobre os caminhos da esquerda: Dilemas da esquerda política em tempo de crise. sinalaberto.pt

Rui Tavares sobre a extrema-direita: Rui Rio fala alemão, mas não é Angela Merkel. publico.pt (paywalled)

João Ramos de Almeida também sobre a extrema-direita: Maldita máscara. ladroesdebicicletas.blogspot.com