Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

11 de novembro de 2020

Quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Shots: dieta, obituário, bookmarks e queijo suíço — e o melhor está no fim, vai por mim.

Hoje tive uma dieta noticiosa pobre. Fasting noticioso. Não foi de propósito, resulta de um dia particularmente cheio de trabalho. Mas oxalá tenha o mesmo efeito de ajudar a manter não o peso mas o sentido de equilíbrio: dietas noticiosas ricas, sobretudo televisivas, significam hoje ficar com os nervos em franja e o coração amargurado. Os noticiários parecem a Craig’s list das agências funerárias e fica-se com a impressão, errada, de que não há mais nada a acontecer senão pessoas a morrer de covid e disto e daquilo e daqueloutro.

E por falar em óbitos: faleceram mais duas pessoas importantes para a democracia portuguesa. Mais um bocadinho do século XX que se esvanece. Artur Portela morreu (com COVID-19) aos 83 anos e Gonçalo Ribeiro Telles morreu aos 98 anos.

Artur Portela Filho, como assinava para se distinguir do homónimo pai, lançou o Jornal Novo em 1975, um contributo marcante para a pluralidade da imprensa. “Ficou a dever-nos um livro de memórias”, escreveu o Gonçalo Pereira Rosa no seu Facebook.

O arquiteto paisagista fica ligado à direita política por, como líder de um partido monárquico, ter formado uma aliança que governou Portugal algum tempo. O que é quase uma traição ao seu legado: Ribeiro Telles fundou o ambientalismo português e serviu o país de muito mais e nobres maneiras que essa calçadeira partidária. Vidas longas e preenchidas. Espero que felizes também.

Bookmarks. Entre as ideias que me ocorrem está também uma secção de links da semana. A prática largamente dominante nos diários online, como nas newsletters, é que não as lemos todos os dias: há dias em que não temos disponibilidade, outros em que escapam enterradas no fluxo da mailbox. Eu agradeceria aos editores das newsletters que recebo um serviço desse género. É altamente provável que tu sintas o mesmo ou semelhante.

Já penso nisto há muito tempo. Algumas fazem uma resenha semanal, por exemplo, com os mais populares. Mas é um email adicional, mais um. Ora, um dos valores da filtragem (humana ou algorítmica) está na redução. Por outro lado, mais um email é apenas mais uma oportunidade: as hipóteses de eu ver os links imperdíveis das edições da semana, por exemplo, aumentam pouquíssimo.

Na newsletter sobre COVID que editei durante os primeiros meses da pandemia experimentei ter no rodapé uma zona com links fixos, utilidades sobretudo. Foi um sucesso. Mas se tivesse continuado por muito mais tempo, a zona de links fixos teria acabado um mono, inútil.

Antes de experimentar uma variante, uma consulta: o que sugeres para resolver o problema dos links imperdíveis que acabam por se perder porque não lemos todas as edições todos os dias? É só responder a esta mensagem.

A estratégia do queijo suíço. Tomas Pueyo volta a atacar. Mais um artigo sobre a pandemia. Ou melhor será dizer: mais um tratado sobre a pandemia. Está lá tudo explicadinho com uns gráficos simples para qualquer pessoa perceber. Porque é que medidas que parecem parvas e desgarradas são essenciais enquanto peças de uma linha de defesa, mesmo que em si tenham baixa efetividade ou custo elevado. E onde é que os países da UE, e assinalo Espanha e Portugal porque me interessam especialmente, falharam (spoiler: meteram as fichas todas na segunda linha defensiva, a mais cara e menos eficaz, sobretudo se não estiver junta com as outras).

É absolutamente a não perder: Coronavirus: The Swiss Cheese Strategy. How Any Country Can Learn to Dance and Stop the Coronavirus.

Assunto da semana: vacina da Pfizer/BioNTech para a COVID-19

Segunda: Pfizer e BioNTech emitem press-release dizendo que a sua vacina foi fortemente eficaz nas fases de testes, excedendo as expectativas com resultados que provavelmente serão alcançados com entusiasmo cauteloso e grande alívio. Guardian, statnews.com. Sublinhando o cauteloso: Nature.

Terça: Comissão Europeia quer seis vacinas para distribuir na União e vai assinar um contrato de aquisição com BioNTech e Pfizer. O preço de cada conjunto de dois shots estará abaixo do “preço típico do mercado” e será diferente para regiões e/ou países. euronews.pt, Reuters.

Quarta: Comissão aprovou aquisição de 200 milhões de doses, com opção de mais 100 milhões. Os Estados-Membros podem decidir doar a vacina a países com rendimentos baixos e médios ou redirecioná-la para outros países europeus, Comissão Europeia. Vacinação deverá iniciar-se no 1º trimestre de 2021, Euronews.

Opiniões

Pedro Tadeu sobre o acordo: O PSD e o Chega não são partidos irmãos? dn.pt

Rui Tavares sobre preparar o futuro: A semana do nosso “fim do princípio”. publico.pt

Syed Munir Khasru sobre geopolítica: After four years of Trump’s ‘America first’, Biden must pivot back. scmp.com

Narciso Machado sobre a federação europeia: O Volt e o federalismo europeu. publico.pt