Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

15 de novembro de 2020

Domingo, 15 de novembro de 2020

Shots: 75º negativos, Chega, revolução

Temperatura: a chatice é essa. Estamos tão contentes com a perspetiva da vacina para dentro de 2–3 meses que não queremos saber das dificuldades. E a bácina [eu adoro sotaques, isto não é gozar com os portuenses, é um cumprimento] do consórcio Pfizer/BioNTech tem uma grande dificuldade e algumas incertezas. A dificuldade: a temperatura de armazenamento. E TRANSPORTE.

Temos congeladores até aos 25º negativos para as vacinas que precisam de frio. A futura primeira vacina da COVID-19 precisa de estar guardada (e SER TRANSPORTADA) a 75º negativos. Explora o assunto no linklog na parte final da mensagem.

Frase do dia.Há países europeus onde o centro-direita resiste (há décadas!) a alianças com uma extrema-direita que vale quase 20%. Em Portugal, para o PSD de Rui Rio, bastou um deputado, uns meses e umas sondagens”. Miguel Guedes no JN e esquerda.net

Não, não, não, não: esta é que é a frase do dia!Os eleitores do Chega não são inocentes, sabem muito bem em que votam e o que votam”. José Pacheco Pereira no Público (assinantes)

O artigo de Pacheco Pereira é muito bom, é daquela lucidez que rareia em Portugal. Faz a desmontagem dos programas e das naturezas dos partidos para sublinhar que não há equivalência alguma entre o Chega e o BE e PCP.

Desde logo (não é Pacheco que o diz, sou eu) porque o PCP é hoje uma agremiação desistente. Desistiu da revolução. Trocou-a pela sobrevivência. Ao contrário dos outros partidos comunistas por essa Europa fora, que antes a morte que tal sorte.

Os comunistas portugueses — que eu de resto muito prezo, et pour cause — têm feito um trabalho notável na defesa de direitos e de condições de vida, um trabalho de sapa que lhes granjeia muito menos aplauso do que merece. “Renderam-se” à democracia e têm-na honrado.

Nenhuma outra entidade lutou tanto contra o anterior sistema — o Estado Novo de Salazar e Marcelo Caetano, uma ditadura relativamente branda que comprometeu o potencial do país, deixando-o como um aleijado na sarjeta da História — como o PCP. Um partido revolucionário que, sozinho, foi o maior contribuinte líquido para a Revolução de 1974, que nos deu a democracia e a sociedade de consumo moderna.

Ora, o partido revolucionário hoje é o Chega. É ele que quer mudar o regime — e não estamos a falar das mudanças evolutivas, das melhorias sempre possíveis. Quer mudar o próprio regime. Quer substituir a democracia e o estado de direito por um regime ditatorial.

Os eleitores do Chega é isso que vêem mais à frente. Querem uma revolução. Querem outro sistema. Não adianta ficarmos a invectivá-los e a apelidá-los de fascistas. E por falar nisso: o Chega brande as políticas identitárias como a extrema-direita americana ergue as AK-47.

E não adianta dizer-lhes que não vai acontecer. Os sonhos sonham-se e motivam-nos, não deixando de ser sonhos. Este é o sonho deles.

E não adianta dizer-lhes que André Ventura e os outros têm precisamente a mesma sede de poder e vontade de ser e fazer aquilo que criticam: as críticas inflamadas servem o propósito do agit-prop e unem-nos na identidade chegana.

Voltarei ao tema, claro.

Canseira: passwords. Excitação: códigos de 6 dígitos

Opiniões

David Pontes sobre a inevitabilidade do confinamento: Covid-19: a guerra é a guerra. publico.pt

Domingos Andrade sobre Marcelo: O homem só. jn.pt

Joana Mortágua sobre Rui Rio: E Rui ri. esquerda.net

António Barreto sobre o fenómeno do momento: Basta de Chega! publico.pt (assinantes)