Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

17 de novembro de 2020

Terça-feira, 17 de novembro de 2020

Bem: isto hoje parece um panfleto direitista. Keep calm, nem tudo o que parece é. Vais ver.

Não sei se já pensaste nisto. Dentro de mês e meio a presidência portuguesa da União Europeia tem um belo petisco para deglutir: debater o primado do Estado de Direito na União, com a Hungria e a Polónia. Ui.

Frase para os próximos tempos: Quem quiser defender a democracia precisa é de preparar-se para as consequências que esta pode ter no contexto social mais depressivo dos últimos 75 anos, feito de nova pobreza, medo, ansiedade e securitarismo”. Manuel Loff.

CDS, CDS... Ensanduichada entre a Iniciativa Liberal e o Chega, a direita “tradicional” sofre. O sofrimento do CDS é mais visível e uma vez mais há quem aguarde o seu desaparecimento. Francisco Rodrigues dos Santos foi a pior surpresa possível: subitamente percebeu-se que as figuras pesadas do CDS tinham desertado ou passado à reforma. Os famosos “quadros médios”, a ala tecnocrata, acontecia de cima para baixo — eram zelosos executantes. Sem cima, o partido crashou. As bases votaram no reboot juvenil. Correu mal.

O partido está esfrangalhado. As facções perdedoras contam espingardas. Problema: não há espingardas para Adolfo Mesquita Nunes (eu, se fosse ele, mudava-me imediatamente para a IL, correção, já me tinha mudado para a IL). FRS faz alegremente rir quem o vê, Nuno Melo faz tristemente rir quem o ouve.

Vai-se a ver e a liderança é o menor dos problemas do CDS. As presidenciais serão uma imensa tristeza, não tem o CDS nadinha de nada para regatear apoios a Ventura ou a Marcelo. E com Rio a dar o braço a Ventura qualquer estratégia de alianças surge como jotas a brincar aos crescidos.

Piscadela de olho às presidenciais, que se aproximam pé ante pé: perante este CDS, Marcelo coça a cabeça, perplexo. O centro-esquerda vai reelegê-lo contra uma parte significativa da sua família natural. Quem diria. Atrás de tempos, tempos vêm. E essas coisas.

Especial Ventura

Depois dos Açores não há opinion-maker que não afiambre o dedinho em André Ventura. Tem vantagens e desvantagens. Uma desvantagem: ajuda a normalizar a besta. Uma vantagem: ajuda a normalizar a besta.

Não é só um floreado linguístico. Sem normalizarmos a besta não a podemos lidar. Sem percebermos bem a sua silhueta desferiremos golpes no ar. Para golpes no ar basta um desastre jornalístico chamado Miguel Sousa Tavares. Uma pessoa que tem um passado e o desbarata assim, exibindo-se impreparado, prepotente, egocêntrico, cobarde, incapaz.

Ventura navega ao largo, com o vento a soprar de feição. Vai ser preciso mais que ficar especado a assistir. O PS, acima de toda a esquerda, terá de ter uma conversa consigo mesmo para delinear uma estratégia de esvaziamento do Chega. O PSD e a IL terão de refletir nas soluções adotadas pela direita europeia.

O vento sopra a favor mas não por muito mais tempo, a julgar pelo que já se verifica no resto da Europa. As extremas-direitas pararam de crescer e entraram num processo de regressão. A sereia do nacionalismo envelheceu e o espantalho dos imigrantes ficou invisível por cansaço. Ventura explora o efeito novidade. E o apoio, velado quando não explícito, de metade da imprensa e da totalidade da televisão. Todavia, mesmo o combustível adicional da pandemia não durará muito mais semanas: quando a vacina chegar, trará uma tal onda de alívio que o mundo mergulhará numa segunda versão revista e aumentada dos loucos anos 20 do século passado.

É preciso posicionar as peças no tabuleiro. E estudar a estratégia do oponente. Para isso serve a seguinte ronda de opinião publicada.

“Pensei que o que esta espécie de jornalistas está a pedir são políticos do tipo Bolsonaro, Trump ou André Ventura, ou seja, basófias, aldrabões, malcriados e fala-baratos.Penélope em AspirinaB 👉

Rui Rio autodesferiu, pois, um golpe profundo na imagem que dele tinham e na avaliação que dele faziam muitos, entre os quais me incluo, ao aprovar um acordo com o Chega tendo como objetivo viabilizar um governo do PSD nos Açores.José Carlos de Vasconcelos na Visão 👉

Procura a bomba propagandística e lança-a à procura dos incautos ou dos parecidos com ele e o Chega. Representa o pior que há no sistema, vive do seu esgoto. Suja quem o acompanha.” Domingos Lopes no Público 👉

Quando foi criada a AD, em 1979, recusaram a adesão de partidos como o MIRN, o PDC ou a FN. Rui Rio pode citar Sá Carneiro o dia todo, mas colocou na gaveta um dos pilares fundamentais da sua doutrina — a direita constitucional rejeitava o legado salazarista, Rio estendeu-lhe o tapete para a normalização.Pedro Filipe Soares em Esquerda 👉

A regra, portanto, passou a ser a da cooptação das extremas-direitas pelas direitas liberal-conservadoras. Estas continuavam a dirigir os governos, assegurando que esta era a melhor forma de domar a extrema-direita. O resultado foi, isso sim, a radicalização das direitas clássicas: convergência estratégica (construindo maiorias políticas) e convergência em muitas das batalhas culturais” Manuel Loff no Público💲

É a nossa Constituição que continua, afortunadamente, a configurar a plataforma de entendimento entre portugueses democratas com diferentes visões do mundo. Por isso, não é possível confundir os acordos que se fazem, tendo como fundamento e base a sua defesa e a do seu programa, e aqueles que têm, precisamente, como objetivo ir degradando tal plataforma política de entendimento e ação comuns.” António Cluny no ionline 👉

Com esta liderança do PSD, o Chega irá onde quer num instante. Não é a esquerda que pode travar o Chega. É a direita, que por agora lhe disputa a maior parte do eleitorado. Se continuarem assim, tudo seguirá o caminho previsto. PSD e CDS serão as principais vítimas deste erro.Daniel Oliveira no Expresso 👉

Rio e o PSD deviam, ao menos, olhar para a clareza de Merkel ao recusar apoiar a eleição do governador da Turíngia porque tal tinha recebido o apoio da AfD, ou para o discurso de Casado quando votou contra a moção de censura do Vox: gente da qual discordo mas que, com este tipo de posição, me merece, realmente, respeito.Pedro Guedes de Oliveira no Público 👉

É deveras preocupante encontramos o PSD enredado na estratégia de um partido da família da extrema-direita europeia: a que tem como bandeira a expulsão dos refugiados e imigrantes, a mesma que vetou o Orçamento europeu por se sentir melindrada pela forma como Bruxelas faz questão de monitorizar a aplicação do Estado de Direito.Paula Ferreira no Jornal de Notícias 👉

A pobreza da legitimidade formal tem um lado muito pouco corajoso, esse de fingir que é tudo a mesma coisa, como se Rui Rio não soubesse da História, como se o PSD não soubesse da gente fascista do século XX, cheia de legitimidade formal, como se o líder do PSD não soubesse de onde vem, atualmente, o perigo para as democracias liberais.Isabel Moreira na Visão 👉

O que o PPD/PSD fez foi validar uma aliança que tem sido repudiada em diferentes países europeus por partidos que, sendo do centro-direita e da direita, rejeitam o extremismo e a xenofobiaJosé Luís Carneiro no Público 👉

Canseira: 4chan. Excitação: Parler.