Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

26 de novembro de 2020

Quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Hoje: um diário muito mais político do que é habitual. Não te habitues: tenho dias.

Orçamento de Estado para 2021 aprovado por 3 votos
😂 Rui Rio
😕 Catarina Martins
😰 António Costa
😐 Inês Sousa Real
😞 Telmo Correia
🤥 André Ventura

Pontos breves:

O Bloco fez um arriscado investimento no chumbo do OE com a proposta do corte do Novo Banco. Vai pagar juros altíssimos, a começar já em Janeiro com o eleitorado a fugir de Marisa Matias para Ana Gomes e João Ferreira.

Rui Rio foi o espertalhufo da semana: não arriscou um cêntimo seu e palmou quase todo o lucro que a proposta do Bloco possa vir a render.

O PCP, o PEV e o PAN estiveram imperiais. Não apenas os seus eleitores mas os portugueses de uma forma geral devem-lhes uma palavra de agradecimento pela seriedade, pelo empenho e pelo esforço que colocaram neste Orçamento. Se o documento não ficou pior, muito se deve aos deputados destes três partidos. E se não temos o agravamento desnecessário da tensão política a semanas das presidenciais e da chefia portuguesa da União Europeia, a eles o devemos.

João Leão revelou-se frouxo e inábil. Ou vice-versa. Não me parece que António Costa e João Leão, ou vice-versa, possam invocar a COVID-19 para justificar o gelo fino em cima do qual o Governo vai entrar em 2021. Ou Costa está farto de ser PM, ou este é um desastre político difícil de explicar. E não é limpando as mãos ao Bloco nem dramatizando o golpe de mestre de Rio que o PS se safa.

Catarina Martins e Mariana Mortágua estão a lamber as feridas e a tirar os estilhaços da bomba explodida por Rui Rio. O Bloco perdeu espaço de manobra a troco de nada. Eu creio que foi premeditado o timing da jogada: dar um rebuçado à ala dura do Bloco enquanto se surge como oposição destemida a “este” PS e fazê-lo JÁ, a dois orçamentos de distância das próximas legislativas. Quer dizer: eu QUERO ter esta fé. Chama-me ingénuo se quiseres.

E por falar em Rui Rio. Antecipando um mês os habituais, e ridículos, balanços do ano (é 2020, vale tudo, ninguém leva a mal), o presidente do PSD é o político do ano. A manobra de ventriloquismo com o boneco Ventura manteve toda a direita dentro dos rituais de obediência ao PSD. E o assalto ao BE por interposto Novo Banco mostrou ao PS que ele está ali, atento, a jogar peões e cavalos e bispos, a entreter o tabuleiro e à espera que o desgaste lhe entregue o Governo antes da data normal.

E por falar em PCP: se a vida democrática fosse uma guerra de ideologias, eu estava entre os adversários do PCP. No âmago sou anarquista, logo estou contra a propriedade do Estado e a ditadura de uma classe. Fora do âmago sou europeísta — por esta ordem, pretendo uma única República Europeia, ou uma Federação Europeia, ou uma União Europeia. Logo, estou contra o PCP, que é um partido nacionalista. (Há mais umas coisinhas mas estas chegam para perceberes a ideia.)

Só que não, a vida democrática não é uma guerra de ideologias na qual o vencedor ganha o direito a mandar nos vencidos durante um período. A vida democrática é uma negociação. É chegarmos a do mal o menos — ou ao melhor que pudermos hoje, que são os dois lados da mesma moeda. E por isso eu ocasionalmente (talvez mesmo amiúde) discordo do PCP e voto, ou manifesto-me, contra. E por isso eu respeito o PCP e os seus contributos para a melhoria da vida dos cidadãos neste recanto da Europa.

Democracia é responsabilidade. Se tivéssemos na política portuguesa um índice de responsabilidade, o vencedor crónico nos últimos 30 anos era o PCP.

E por falar em PAN e PEV: tenho pena que a política evolua tão devagar e tenho pena que o PEV não solte o lastro do PCP. Temos dois partidos ecológicos, mais o LIVRE, mais o Volt, mais a metade boa do Bloco, a colocar as questões do tempo em que vivemos e a elaborar respostas para elas. Estamos um pouco atrasados face ao resto da Europa, mas essa é a sina das culturas periféricas.

E por falar em evolução na política, um dos principais, um dos grandes problemas do PSD em particular e da direita em geral é a sua recusa em considerar as questões do tempo em que vivemos, como o clima e a concentração cada vez mais pornográfica e desmesurada da riqueza no topo do topo (que aliás estão umbilicalmente ligadas). O PSD devia aproximar-se de um partido como o PAN. Devia ver que pontes podiam erguer-se entre os dois. Tem muito mais a ganhar com essa ponte, que para todos os efeitos é uma ponte ao centro da responsabilidade, do que com a conversão em votos do descontentamento populista extremista à direita.

Opiniões

Vital Moreira escreve sobre Estado e Novo Banco: Não Dá Para Entender (23): O Que Se Passa Com O PSD? CausaNossa 👉

Manuel Carvalho escreve sobre sistema e Novo Banco: Novo Banco, a atracção pelo abismo. Público 👉

Pedro Adão e Silva escreve sobre Estado e BES: O não tão estranho caso do Novo Banco. Expresso 👉

Ricardo Moreira escreve sobre euros e Fernando Medina: Web Summit: cimeira virtual com 11 milhões de euros públicos bem reais. Esquerda 👉

Mafalda Anjos escreve sobre democracia e Donald Trump: A democracia vai autodestruir-se em 3, 2…. Visão 👉

Manuela Niza Ribeiro escreve sobre índios Warao: Este vírus não é para velhos (e este País também não). Visão 👉

Teixeira dos Santos terá comprado os títulos Sol e I. O antigo director do extinto Semanário pretenderá relançar os dois jornais como projectos assumidos de centro-direita. |Vem aí uma guerra com Mário Ramires|.2020 ended with a flurry of announcements reporting promising results in COVID-19 vaccine trials, |there is little reason to expect a robust economic recovery anytime soon|. Defeating the virus remains a monumental task, and the wounds inflicted by the pandemic will not heal easily. (Nouriel Roubini)