Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

27 de novembro de 2020

Sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Cardápio: Maradona, jornalismo, esquerda

Frase do dia: “a polémica é um conteúdo barato porque os atores trabalham de borla e muito motivados” — Luís Paixão Martins

Maradona. Regresso a um assunto da semana, ontem ofuscado pelas sequelas e mazelas da aprovação do Orçamento de Estado. Diego Armando Maradona é do meu ano. Teve uma vida intensa. Navegou dos píncaros da luz às profundezas da sombra. É um dos ícones da cultura pop global do século XX. Foi um enorme futebolista, mas isso… vi jogar outros do mesmo calibre técnico. Ele é Deus porque a nossa é uma cultura monoteísta.

Tantas leituras tem esta capa. Uma curiosa leitura é esta: um jornal chamado “A Equipa” destaca como divindade um jogador que se distinguiu no mais popular desporto de equipa por ser um filho da mãe de um individualista que ainda por cima fica na História do futebol por ter ganho um campeonato do Mundo sozinho e com uma falcatrua monumental. Estás zonzo/a? Também eu.

João Marcelino relembra muito justamente que o deus dos relvados foi um péssimo exemplo como pessoa: “foi maravilhoso como artista e terrível como homem. Não foi o primeiro. Não será o último. Mas digam isto aos jovens: o futebol, felizmente, tem exemplos incomparavelmente melhores.” Jornal Económico

Nos antípodas do João (e recordo que ambos foram diretores do Record), o António Tadeia tem um texto maravilhoso, inspirado. Roubo-lhe um parágrafo para te encantar e obrigar a ler tudo: “Digam o que disserem, jogar futebol é enganar. É enganar com desplante. Com desfaçatez e descaramento. O que é driblar? É fingir que se vai por um lado e depois sair com a bola pelo outro. Mais: é sentar o adversário antes de passar com a bola — e essa é a parte do desplante. O que mais valorizamos num penalti? O jogador que tem uma taxa de acerto mais elevada? Ou aquele que faz um “Panenka”, que engana o guarda-redes, que espera que ele caia para um dos lados e depois não se limita a meter-lhe a bola pelo outro — fá-la entrar, picada, pelo sítio onde ele estava, assim como quem diz, “quem é que te mandou, sequer, tentar?” Ser grande, depois, não é enganar com coisas singelas, como uma faltinha aqui, um penalti acolá. E, assim sendo, o maior enganador de todos os tempos foi Diego Maradona. Enganava como ninguém e mostrou-o naquele célebre jogo contra a Inglaterra, no Mundial de 1986. Enganou o árbitro no lance do primeiro golo, o da “Mão de Deus”, mas depois, para que não ficassem dúvidas acerca da sua grandiosidade, enganou toda a equipa adversária, avançando em dribles sucessivos desde o seu próprio meio-campo até às redes de Shilton, para marcar o segundo.António Tadeia.

Jornalismo. Uma fatia considerável dos leitores deste diário é composta por jornalistas. Muitos destes lêem-me porque eu por vezes escrevo criticamente sobre a função, que exerci por mais de 3 décadas. Este bloco é para eles.

Uma ressalva para que não permaneçam equívocos, até porque nos últimos dias a partilha de um post meu num grupo de jornalistas que se caracteriza precisamente por ser amigo do equívoco trouxe alguns leitores ao diário. Eu não reivindico o estatuto de jornalista ou ex-jornalista nem associo a etiqueta “jornalismo” a este diário. E embora use como suportes a web e o correio eletrónico, que são suportes do jornalismo (e de várias outras atividades relacionadas ou não com informação), classifico tal como uma coincidência. Repara por exemplo nas newsletters, de que vou falar mais adiante. Este diário é distribuído por email e isso não faz dele uma newsletter. Não tem uma estrutura rígida. A correspondência é toda tratada por mim, desde o momento da inscrição até ao momento da desistência (até agora uma única, já que perguntas). Não usa nenhuma das habituais plataformas, nem Substack, nem Mailchimp, nem sequer a Medium, que uso apenas como editor de texto.

É provável que venha a experimentar cenas no diário. Conto, por exemplo, dividi-lo de forma a poder enviar-te uma versão feita a pensar em ti, uma versão para cada leitor. Algumas experiências poderão coincidir com formatos também testados ou — o mais certo… — a testar dentro de um par de anos por jornalistas ou órgãos de comunicação social, mas reafirmo que é uma coincidência. Eu estou num trajeto de pura liberdade individual e pura diversão. Não estou a seguir tendências do setor, com as quais aliás deixei de me preocupar há dois anos, quando cancelei a assinatura de algumas fontes reputadas nesta matéria. Fica feita a ressalva.

Há cada vez mais jornalistas a experimentarem carreiras a solo com newsletters. Uma das razões desta moda é a existência de serviços que enquadram all in one as newsletters combinando a gestão dos assinantes, o envio das edições e os pagamentos de assinaturas.

Há mais razões. “In search of trust, flexibility and relationships with readers”, é o subtítulo de um artigo explicativo que recomendo. Why journalists are flocking to newsletters aponta a confiança, a intimidade (no sentido de proximidade), a alternativa a um espaço social tornado irrespirável, controlo sobre a distribuição e flexibilidade.

Continua a baralhar-me a falta de adesão dos jornalistas portugueses às newsletters. Percebo o apelo dos podcasts, mas faço notar que a palavra escrita e o pacote fechado (uma newsletter é a coisa mais parecida com um jornal, é aquilo, não se pode reeditar, emendar, alterar, melhorar) não perderam nem a magia, nem a competência — nem a procura.

Mas o espaço mediático português sempre foi sui generis e desde o início da Internet agravou alguns non-senses. Por exemplo: jornalistas e decisores odeiam e perseguem os agregadores, que acusam injustamente de lhes ficarem com as receitas, mas entregaram-se nos braços do Sapo. Este ficou-lhes com grande parte da reputação e do poder da marca, a troco de poder computacional — um bem de fácil aquisição e cujo valor se reduz a metade em cada 18 meses, agora faz as contas a 20 anos. Hoje concorre contra eles, claro. Diluiu-os e retirou-lhes poder, personalidade — e receitas. Aleijou-os, talvez para sempre. Achas que é por acaso que o Público é o jornal que melhor uso faz da tecnologia e da Internet? Achas que ser o único jornal (ou perto disso) que nunca se entregou ao Sapo não tem importância?

Em mais lado nenhum a imprensa deixou a sua marca diluir-se num “serviço de apontadores”. Em mais lado nenhum nasceu um Nónio senão em Portugal.

Adiante? Adiante. Olha: como é que o bom jornalismo pode correr com o mau? O Project Director da Reporters Without Borders, Olaf Steenfadt, tem um artigo útil. “Como podemos resolver as ameaças existenciais que a humanidade enfrenta, se o nosso espaço de informação é disfuncional, se não podemos ter um debate adequado, se já nem sequer conseguimos chegar a acordo sobre verdades básicas? Como podemos avançar na nossa luta contra as alterações climáticas, gerir a migração, proteger a biodiversidade e ultrapassar uma pandemia mais-recessão, se as emoções e as crenças são superiores aos factos?” A ler na Social Europe.

Excelente, excelente é a resenha elaborada pelo Pedro Fonseca. Não te fiques pelo título Quando o jornalismo é “mordido” pela IA, isso é notícia? Está lá o essencial do que já sucedeu e do que está a suceder, que é o software a comer o jornalismo (o software acabará por devorar o mundo inteiro, disse o inventor do browser moderno). Um vislumbre do papel que restará ao jornalista num mundo em que “as máquinas” (enfim…) recolhem os dados, filtram-nos com critério e geram as notícias.

A parte melhor é que o artigo nomeia também as empresas do “jornalismo robô”, pelo que poderás ver com os teus próprios olhos se podes, e como podes, reservar o teu lugar nesse futuro.

Estás a ver a discussão sobre se a “qualidade” dos textos produzidos “pelo computador” convencerá alguma vez os leitores? Esquece. É um passado remoto e enterrado. A resposta é “sim, convence, é mesmo muito melhor”. Por muito que te doa.

Teremos de um lado o jornalismo industrial e por outro o jornalismo artesanal. O primeiro assenta toda a sua lógica nas economias de escala e na massificação de conteúdos de menor valor individual. É viável e lucrativo graças as grandes doses de automação que o software (agora diz-se “IA”) facilita. O segundo baseia-se na confiança, na relação próxima, na informação de maior valor, não apenas filtrada mas avaliada e acrescentada do valor contextual e do valor da experiência.

Esquerda. Como evitamos o apelo dos autoritaristas? Uma parte estatisticamente relevante das classes trabalhadoras ainda acredita que André Ventura defende os seus interesses. É imprescindível reconquistá-la.E, para isso, os democratas devem ter a coragem de assumir os poderosos interesses especiais que têm estado em guerra com a classe trabalhadora deste país durante décadas. Estou a falar de Wall Street, da indústria farmacêutica, da indústria de seguros de saúde, da indústria de combustíveis fósseis, do complexo industrial militar, do complexo industrial prisional privado e de muitas corporações lucrativas que continuam a explorar os seus empregados”, escreve Bernie Sanders no Guardian.

[ Eu troquei os nomes de Donald Trump e André Ventura, caso não tenhas reparado em nada estranho ;) ]

Está lá uma lista das coisas que a esquerda tem de fazer. Tem de arranjar coragem para fazer.

Outro artigo do Guardian é particularmente relevante para o regresso de algumas noções perdidas pela esquerda. George Monbiot parte do Brexit para explicar que a atual fase do capitalismo navega maravilhosamente pelo caos e desordem — e devemos fazer algo para não acabarmos em farinha para as rações da ultra-classe.

Monbiot crê que o Brexit é o “resultado de uma guerra civil dentro do capitalismo. O capitalismo domesticado, que quer um Estado que arbitre o jogo com regras claras, compatível com a democracia, contra o capitalismo do senhor da guerra (warlord), que considera ilegítimas todas as restrições à acumulação, dos impostos à regulação, da propriedade coletiva de serviços essenciais aos recursos naturais (públicos por definição).

Opiniões

Rui Tavares escreve sobre o Bloco de Esquerda: A reorientação estratégica do BE e o escangalhar da “geringonça”. Público 🔒

Pedro Santos Guerreiro escreve sobre vitórias e PSD: Os deuses devem estar roucos. Expresso 🔒

Luís Miguel Henrique escreve sobre Lone Star: Travão aos fundos para Novo Banco — Retaliação ou negociação?. DiárioDeNotícias 👉

Vital Moreira escreve sobre Constituição e Presidente da República: O Que O Presidente Da República Não Deve Fazer (22): Tutoria Do Governo. CausaNossa 👉

Clara Ferreira Alves escreve sobre a Tóquio Metropolitana: E nem isto conseguimos fazer. Expresso 🔒

Carlos Esperança escreve sobre Orçamento de Estado: Oe-2021 — As Lideranças Imaturas Do Psd E Be. PonteEuropa 👉

António Rodrigues escreve sobre extrema-direita: A extrema-direita doutrina criancinhas ao pequeno-almoço. Público 👉

Paulo Pedroso escreve sobre rendimento e União Europeia: As ciganas do rendimento mínimo. DiárioDeNotícias 👉

Diogo Martins escreve sobre dívida e BCE: Morre um gatinho sempre que alguém fala da reedição de 2011. Ladroes 👉

Lídia de Sousa escreve sobre saúde e SARS-CoV-2: Salvar os mais velhos da covid e da doença cardíaca. DiárioDeNotícias 👉