Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

28 de novembro de 2020

Sábado, 28 de novembro de 2020

Nesta edição do diário:
☭ porque Maradona é da esquerda
👌 provando que a extrema direita parou de crescer
📨 como não ficar soterrado em newsletters (e demais e-mail)

Tweet do dia:

À medida que os dias passam sobre a morte de Maradona, leio na opinião publicada e na opinião pública uma espécie de apropriação política da sua vida. O alinhamento ideológico é distinguível a olho nu e em certa medida é isso que me surpreende.

À direita tende-se a desvalorizar. Os argumentos andam pela violência contra as mulheres, o não reconhecimento de filhos, as drogas.

À esquerda tende-se a valorizar. Os argumentos andam pela origem pobre nunca renegada, a associação a líderes como Fidel Castro, a intervenção social.

Ou seja, e se quiseres: a figura de Maradona está a ser reescrita como um ícone da esquerda e desvalorizada como um excelso artista da bola. É uma perversão. Aliás, ultimamente tornou-se comum assistirmos a estas reescritas perversas, o que há-de ter uma explicação. Fica para depois.

Esta reflexão é afluente de uma outra tendência que vejo acentuada pela pandemia, ou talvez seja mais correto dizer que foi por ela iniciada: a diminuição do peso mediático e social do setor do futebol. Que para já não tem nenhum reflexo visível no curso económico da atividade — o que é um grito sobre a evolução financeira, crescentemente desligada da venda de bilhetes, de direitos de transmissão e de camisolas.

Se as eleições europeias fossem hoje, a extrema-direita teria os mesmos 73 deputados ou quando muito mais um. Ou seja, e esta é a boa notícia, parou de crescer. Tanto mais significativo quanto já levamos quase um ano de um clima político, económico e social favorável às narrativas simplórias com que as figuras destacadas da extrema-direita captam o descontentamento.

Fragmento copiado da Europe Elects.

A esta boa notícia soma-se outra. Nos últimos nove meses o Chega não cresceu. Fazendo a média das sondagens, tem oscilado um ponto percentual na casa dos 6%. Com uma particularidade: o pico foi atingido em agosto e desde aí tem sido a descer. Migalhas percentuais, mas em três meses constituem uma tendência. Com a mesma particularidade notada acima: estes três meses foram os piores em termos de desgaste para o Governo do PS e para um dos partidos que o apoia, o Bloco. A narrativa de Ventura deixou de colar. It’s about time!

Agora a má notícia. A direita clássica — extrema, conservadora e central — somaria no Parlamento Europeu mais 23 deputados que nas eleições de 2019. Atenua pensar que 15 deles seriam perdidos pelos Liberais (grupo a que pertence a Iniciativa Liberal).

Um dia da próxima semana quero traduzir isto em termos da coesão do projeto europeu — ou seja, se avançámos ou recuámos no caminho para o federalismo.

Como Lidar Com O Excesso De Newsletters E Outras Missivas Eletrónicas? No Diário Popular tive um sub-chefe de Redação que era uma figura singular — no big deal: nessa época, falo-te da década de 1980, a profissão de jornalista caracterizava-se por ter figuras peculiares. O chefe era o lendário Acácio Barradas (outro figurão grado do jornalismo português). O Paulo Wiborg de Carvalho era um dos sub-chefes.

Todos os princípios de tarde, a edição a sair da rotativa para a Rua dos Caetanos onde aguardavam ardinas e as carrinhas Peugeot que a levariam À Baixa, às camionetas, aos barcos e aos comboios, o bom do Paulo de Carvalho chegava do almoço num tasco do Bairro Alto, almoços dos quais o Baptista-Bastos era entusiasta e conviva frequente, sobretudo se fosse um tasco de comida portuguesa autêntica, como era o Tagarro, e varria a sua secretária. Tudo para o lixo. Arrancava os telexes e laudas dos espetos, deixando-os vazios e prontos para um novo ciclo. Tudo o que não fossem os raros dossiers de temas em aberto, laudas em branco, canetas, tesouras e frascos de cola (estou a falar-te do tempo em que escortinhávamos e colávamos os telexes das agência para montar os textos das notícias), era impiedosamente varrido da secretária. Que era depois metodicamente arrumada, em esquadrias.

De início aquilo chocava-me. Tanta coisa boa que podia ser aproveitada, tanta coisa que eu ainda queria ler. Bullshit. Perda de tempo. Nada daquilo interessava para a próxima edição, a do dia seguinte. Os eventos sucedem-se e com eles as notícias. O rio não pára de correr. Limpa as redes. Há um mês comecei a aplicar às minhas mailboxes o tratamento que o Paulo aplicava à sua secretária. Elimina sem dó nem piedade as newsletters de ontem. Se as não leste, não vais ler porque vêm mais hoje. Torna isso numa rotina e verás como ganhaste tempo e economizaste esforço.

Frase para domingo: “Compreendia melhor as críticas à realização da Festa do Avante que ao Congresso do PCP. E creio que se o PCP tivesse inviabilizado o orçamento de Estado não haveria críticas nenhumas.Filipe Moura

Opiniões

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Joana Mortágua escreve sobre Acordo de Paris: Teremos sempre Paris.Esquerda 👉

Francisco Louçã escreve sobre crise e Herbert Hoover: Poucochinhologia. Esquerda👉

Miguel Poiares Maduro escreve sobre contrato e Governo: A obrigação cívica de desconfiar. JornalDeNotícias 👉

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