Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

30 de novembro de 2020

Segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Hoje: Trump e os media, PCP e a simpatia popular, Pacheco Pereira e o PCP. E Opiniões e um linklog recheado que nem um perú para o próximo Natal.

[ Amanhã: Westworld descamba completótotalmente na terceira temporada. E ainda: achas que ainda conseguimos compreender o mundo? Ná. O grau de complexidade tornou-o impossível para ti, para mim e mesmo para as melhores cabeças. Nem com a calçadeira da inteligência artificial lá vamos. ]

O fim da presidência Trump tem uma consequência negativa para os media estado-unidenses: acaba-se um dos principais focos de controvérsia e falsidades para desmentir. É previsível que o tráfego diminua. E sobretudo a simpatia das audiências: o que acontecerá às dezenas de milhar de assinaturas de jornais que foram feitas como forma de apoio contra Trump?

Não me lembro de ter visto um congresso do PCP tratado de forma profissional pela generalidade da imprensa. E até com macieza por uma televisão. Sempre que olhei, a cobertura da RTP 3 estava digna: o reporting do essencial, os comentários de um jornalista que tratou o assunto como qualquer outro — isto é, SEM as talas caricatas com que os jornalistas sempre tratam tudo o que tenha a ver com o PCP, sempre de dedo afiado, sempre de pé atrás, sempre a denegrir, sempre a minimizar, sempre a dramatizar. António José Teixeira não fez nada disso. Ficámos todos a ganhar com uma visão desapaixonada do congresso e do futuro do PCP e do que há a esperar do contributo do partido para a vida política.

(Claro que quando espreitei a SIC me vim embora em poucos segundos, tal o grau de achincalho. Mas a SIC, valha dizer isto, achincalha qualquer congresso, incluindo os congressos do “seu” PSD. É uma interpretação peculiar da missão de cobrir eventos daquela natureza: focar o acessório e exigir novidade em cada segundo, para alimentar o monstro. Sendo o monstro não o meu interesse, não o interesse público, mas a necessidade da estação de manter audiências que, segundo as estações privadas portuguesas, em congressos só se conseguem reter através de um caudal constante de novidade e na ausência desta inventam-se fait-divers e conjeturas sobre possíveis e impossíveis alianças e hipóteses disto e daquilo e daqueloutro, incessantemente.)

Compreende-se o interesse. Colheram frutos a prazo o calculismo do PCP, o compromisso do PCP e a determinação do seu secretário-geral (que tem lastro nas estruturas do partido, um partido que está longe dos partidos de facções como o Bloco e o PS e nos antípodas dos partidos de barões como o PSD e o CDS, que vivem demasiado dependentes da personalidade do chefe).

O PCP surge como um vencedor do Orçamento de Estado. Porque garantiu medidas importantes para uma fatia importante dos trabalhadores e dos cidadãos. Podem ser pequenos ajustes, mas sem o PCP não havia sequer esses pequenos ajustes. E a forma como manteve a decisão de realizar o congresso, e em especial a forma exemplar como o organizou, ajudaram a capitalizar uma simpatia generalizada entre as pessoas sem anti-corpos ideológicos — que, recordo-te, são milhões.

António Filipe, deputado do PCP, resumiu aqui alguns pontos essenciais para percebermos melhor os fundamentos dessa simpatia. Destaco: “Se o PCP não tivesse aberto a possibilidade de discussão na especialidade e tivesse votado contra, nada disso teria sido possível” e o “PCP não desiste de lutar pelo que não conseguiu obter”.

Não faço grandes leituras. Este capital de simpatia terá algum efeito na erosão do PCP? Será suficiente para devolver ao partido alguma da importância perdida lentamente ao longo de 40 anos? Terá um impacto imediato na votação de João Ferreira para as presidenciais? O PCP conseguirá converter alguma desta simpatia a favor dos seus autarcas — quem sabe, ao ponto de sonhar recuperar câmaras como Almada, em que a vereação substituta não fez nada de especial tornando-se eleitoralmente vulnerável?

Não ouso respostas. Posso falar por mim, though. Mantenho João Ferreira como um dos três candidatos ao meu voto em 24 de Janeiro — as outras são Ana Gomes e Marisa Matias. Admito que houve uma troca de posições na hierarquia: Matias desceu um lugar, Ferreira subiu um lugar (sou sensível ao argumento dos 5% que garantem financiamento público). Mas ainda nem começou a campanha.

Em certa medida o desfecho do XXI Congresso do PCP anulou algumas das ideias apresentadas por José Pacheco Pereira nas suas tribunas TVI e Público. Em A dúplice fúria com o PCP, que faz tudo para a merecer (🔒), JPP considera um erro político grave a realização do evento. É um dos argumentos estilhaçados pelos acontecimentos. Mas a prosa continua a ser recomendada, e volto a recomendá-la — aliás, JPP é uma das raras autoridades mediáticas a escutar quando os comunistas são o assunto. Aproveitando para daqui enviar a minha saudação pelo doutoramento honoris causa atribuído pelo Instituto Universitário de Lisboa.

Ah: a imagem acima foi tirada de uma aplicação, a OP, que ando a escrever e que rastreia a opinião pública que vale a pena. Já reúne mais de uma centena de articulistas, que poderás classificar do nível galinha ao nível águia de forma a configurares a opção de push, que te permitirá sem esforço nenhum, sem tracking nenhum, sem cedência de dados pessoais, não perderes um texto dos teus articulistas favoritos. Quando sentir que está pronta para ser tornada pública, descansa, serás o primeiro a ter acesso.

(A secção abaixo, de Opiniões, é grandemente facilitada pela OP.)

Opiniões

Maria João Marques escreve sobre violência e George Orwell: Aprender para sairmos da cultura da violência sobre mulheres. CapitalMagazine 👉

Carlos Dinis da Gama escreve sobre a ligação ferroviária: Lisboa-Porto: uma alternativa ao projeto de alta velocidade. Expresso 👉

Henrique Burnay escreve sobre concorrência e Europa: Abertos ao mundo ou fechados na Europa. DiárioDeNotícias 👉

José Eduardo Martins escreve sobre poder e PSD: Se calhar já Chega. Visão 👉

José Soeiro escreve sobre Novo Banco: Menos dramatização e mais soluções. Esquerda 👉

Ana Sá Lopes escreve sobre Estado e Governo português: Mon ami Órban. Público 👉