Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

1 de dezembro de 2020

Terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Provocação de um iberista: Ah, hoje é um daqueles dias em que se comemora um dos grandes erros históricos consumados na Península Ibérica!

Augusto Santos Silva faz a defesa do Governo e do Estado português no caso das alegadas críticas ao Estado de direito na União Europeia (Público). Reafirma: “Portugal entende que a adesão aos valores da UE, tal como estabelecidos no artigo 2.º do Tratado de Lisboa, e entre eles o respeito pelo Estado de direito, são a condição sine qua non para ser dela membro”.

O esclarecimento do ministro é devido e está aceite mas não faz desaparecer o assunto da agenda. Estamos a 31 dias de Portugal assumir a presidência rotativa da UE. E, como te lembrei no diário de 17 de novembro, a presidência portuguesa terá um belo petisco para deglutir: debater o primado do Estado de Direito na União, com a Hungria e a Polónia.

Vale que os ares andam toldados para aqueles lados. O governo da Polónia, em particular, está cada vez mais fraco. A situação política atual “deve-se exclusivamente a uma total desorganização e fragmentação da oposição, que continua a não ser capaz de encontrar um líder carismático que a una. Mesmo assim, o PiS está em retrocesso. Já perdeu a maioria no Senado e, nas últimas presidenciais, o seu candidato ganhou à tangente na segunda volta contra o presidente da câmara de Varsóvia, Rafał Trzaskowski. TODAS as grandes cidades têm governos locais da oposição. O apoio do PiS é maioritariamente rural”, roubo a António Campos, um português que conhece bem o país tendo nele vivido.

Se as legislativas fossem hoje, o PS reforçava o seu grupo parlamentar com 4 deputados, o PSD perdia 12, o BE perdia 3, a CDU perdia 3, o PAN ganhava 5, o CDS perdia 3, o Chega tinha mais 11, a IL tinha mais 3 e o Livre tinha mais 1 (números arredondados, ver quadro).

Contas feitas a blocos: a direita mantinha exatamente a mesma força na Assembleia da República com os seus 86 deputados, o PS sozinho ficava quatro deputados mais forte que toda a direita unida. Aquilo que cresce pelo centro do sistema partidário passaria de cinco para 13 deputados: IL no centro-direita e PAN no centro-esquerda.

Claro que as sondagens valem o que valem e ptá ptá ptá, já sabemos. O que vale mais do que as sondagens são as tendências que delas possamos extrair. Daí a falta de valor das notícias e análises sobre cada sondagem, que raramente vão além da espuma da semana, daí o valor do quadro abaixo, que as perspetiva numa escala temporal.

Duas leituras que ainda por cima são essenciais para percebermos o nevoeiro em que tacteiam Rui Rio e os desesperados das diversas seitas em que se decompõe o PSD.

O envolvimento do PSD com o Chega não funciona, do ponto de vista da aritmética eleitoral, como uma soma mas sim uma divisão. Com o seu abraço a André Ventura Rui Rio não ficou um voto sequer mais perto de se tornar PM. O bolo da direita não cresceu, é rigorosamente o mesmo, está é fatiado de forma diferente — e muito desfavorável aos partidos tradicionais, PSD e CDS.

Está toda a gente a olhar para os extremos mas já não é possível continuar a fazer de conta que não há uma mudança em curso no centro político português. Repito-me: se as eleições fossem hoje, aquilo que cresce pelo centro do sistema partidário passaria de cinco para 13 deputados. A IL no centro-direita e PAN no centro-esquerda valeriam na AR quase tanto como o BE. (Só não junto aqui o LIVRE porque ele parece estar do lado esquerdo do PS; e resta ver até que ponto o novo partido que ainda não está nas sondagens, o Volt, engrossará esse centro emergente. Pois que é aí que ele se posiciona, provavelmente mais perto da IL que do PAN.)

Se o PSD quer realmente voltar a ser Governo, terá de arquitetar uma ou mais pontes com o centro emergente. Não é apenas oportunismo de matemática eleitoral: é também uma atualização de narrativas e de papéis. Ao centro cresce a lucidez de colocar as questões da atualidade e propor respostas, que é o que os partidos fazem for a living. As questões suscitadas pelos eventos climáticos em especial, para as quais o PSD, para não dizer a direita, nem sequer dirige o olhar, zombando-as.

Aliás, volto a bater nesta tecla: é incompreensível que Rio, um germanófilo, não se inspire na Alemanha, onde vem ganhando consistência um governo de coligação entre a CDU/CSU (da família política europeia do PSD) e os Verdes.

Sem esse aggiornamento, o PSD não voltará a ser governo tão cedo — está escrito no quadro. A estratégia de Rio, que é esperar que António Costa caia de exaustão, não tem futuro: o PS voltará a vencer as eleições mas mesmo em três anos se inverta esta tendência de duas décadas e ele, Rio, vença, não conseguirá fazer passar um governo na AR só com o apoio do Chega.

Quadro publicado aqui por Nuno Garoupa. É a projeção dos deputados segundo resultados das sondagens através dos meses desde as eleições de outubro de 2019.

O tema da complexidade fascina-me. Desde jovem que penso em coisas como encontrar — ou mais corretamente estabelecer — o momento a partir do qual deixa de ser possível a um indivíduo ter uma visão, por alto que seja, de todo o conhecimento, dado o seu crescimento exponencial e a nossa limitação. Há três ou quatro séculos que vivemos, mesmo que informalmente, num quadro de conhecimento distribuído: cada especialista depende dos outros especialistas e ninguém sabe — ou controla — tudo.

Mas há outro aspeto da complexidade menos filosófico e mais, digamos, prático. Com The Modern World Has Finally Become Too Complex for Any of Us to Understand Tim Maughan abre uma série de artigos para procurar a luz possível sobre um “mundo governado por tecnologias e sistemas que entraram numa espiral fora do controlo”.

Estou aqui”, escreve, “para vos dizer que a razão pela qual tanto do mundo parece incompreensível é porque é incompreensível”.

Como é de esperar, fala do sistema financeiro, hoje controlado por algoritmos que extraem valor da negociação a velocidades incríveis e em quantidades colossais, fora da nossa compreensão. Mas também dos meios de comunicação social à economia global e às cadeias de abastecimento, as nossas vidas repousam precariamente em sistemas que se tornaram tão complexos, e cedemos tanto a tecnologias e actores autónomos que ninguém compreende totalmente tudo isto.

Por outras palavras: ninguém está a conduzir.

A mais impressionante história do artigo, contudo, é a do navio porta-contentores. Vale a pena ler só por causa dela. É a demonstração de que cedemos à complexidade e mais: ainda bem.

Canseira: Alemanha. Excitação: Portugal.

Opiniões

Paulo Dentinho escreve sobre valores e Tribunal de Justiça da União Europeia: O Estado de direito por um punhado de euros. Público 👉

Madalena Sá Fernandes escreve sobre viagem e Nadar: Viajar é preciso. Público 👉

Rita Gorgulho escreve sobre estudo em casa: Os danos colaterais da Covid.Esquerda 👉