Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

4 de dezembro de 2020

Sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Hoje: Marcelo, a pandemia e eu, a Lidl e as marcas, Polónia e Hungria estão quase a dar o berro.

Eu compreendo os discursos do Presidente da República e também do Primeiro Ministro. Falam invariavelmente para os queixosos, tentando meter algum bom senso naquela serradura. Nestes tempos de pandemia, a atenção dos poderes, que têm a responsabilidade de manter o barco com rumo, vai para os perigosos e os ameaçadores.

É um esforço que eu agradeço.

Mas acabo a sentir-me marginalizado. OK, os “heróis” do SNS ainda têm direito de vez em quando a um parágrafo elogioso. Mas e eu? Eu e tu? A maioria, grande, dos cidadãos que se esforça em silêncio, que cumpre em silêncio, que sofre perdas salariais, familiares, pessoais sem um queixume? Que percebe muito bem o que está em jogo e leva muito a sério a emergência da ameaça global?

Quando é que temos um parágrafo de jeito nos discursos, senhor Presidente? Algo que vá além do óbvio, insípido e curto “temos todos cumprido e estamos de parabéns”?

Nalguma medida senti-me revoltado com a atenção dedicada não pelos PR e PM, é certo, felizmente, mas pela comunicação social aos “críticos” “empresários” que fizeram uma “greve da fome” porque queriam “ser ouvidos”. Parece que só aqueles empresários é que se sacrificam, parece que só os seus “colaboradores” é que trabalham, parece que só o setor da hotelaria é que é afetado. E os milhões como eu que trabalham todos os dias? Com sacrifício familiar em muitos casos? Como é que podem achar que o trabalho em casa é uma facilidade, não são capazes de estender a porra do microfone a dois ou três casais com filhos, que dividem 3 assoalhadas em tele-trabalho, as discussões de trabalho de um a entrarem nos microfones do outro, com os miúdos na algazarra?

Apetece ir para a frente das televisões montar umas tendas e inventar uma hashtag. Só para ver o que elas faziam. Seria uma insana parvoíce, em qualquer caso. Mas sinto alguma revolta. São muitos meses com os holofotes nos interesseiros e ignorância total dos interessados.

Merecemos melhor, nós, os que nos sacrificamos e cumprimos sem um queixume.

A cena da Lidl (se não estás a par, pergunta-me) lembrou-me da minha relação com as marcas. Não sou dado à exibição de marcas e não me encanto com elas se não estiveram associadas a um produto ou serviço cuja qualidade me interesse. Posso usar uma camiseta com um logotipo, não sou louco para andar a descosê-los, mas não posso usar uma camiseta decorada com a marca.

Depois dei comigo a pensar nas marcas da minha vida. Podemos contar histórias com as marcas, conforme as ordenemos ou juntemos. Por exemplo, uma timeline dos meus 60 anos começa com a Gulbenkian, depois a Sanjo, a Lacoste, Futura, SG Ventil, Dunlop, Le Coq Sportif, Olivetti, Windows, CompuServe, Netpac, TV Cabo, Opel, Apple, Twitter. É fácil adivinhar algumas etapas, outras nem tanto. Adivinhas antes do próximo parágrafo?

Com 7 anos devorava os livros da biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian, aos 10 queria ter uns ténis Sanjo cuja sola se fazia ouvir no pavilhão novinho em folha, as camisetas Lacoste eram senha de identidade de uma pequena burguesia na minha infância e adolescência e claro que tive prendas de anos com elas. As canetas de feltro Futura foram das minhas primeiras escolhas autónomas: ponta grossa no início da adolescência, ponta fina lá para o fim dela e à entrada da vida profissional nas Redações.

Já não fumo há uns 15 anos, mas comecei cedo, pelos 12 ou 13, e estabilizei no SG Ventil, marca que predominou o resto da vida de fumador. A Dunlop é rara com duas entradas: as minhas primeiras barbatanas e a raquete de madeira com que comecei a jogar ténis. Não me recordo com exatidão do momento, foi na primeira ou na segunda vinda para os jornais em Lisboa, mas os ténis azuis Le Coq Sportif trouxeram uma inovação: uma almofada de espuma para um andar fabuloso (superado anos mais tarde pelos Nike Air).

O meu primeiro computador foi um Olivetti PC1. Corria o Windows 2.03 a partir de disquetes. Não demoraria muito a ligar-me à Internet: a CompuServe foi o meu primeiro provider, tinha um endereço de e-mail composto por um número.que.já.não.recordo@compuserve.com. A NetPac e a TV Cabo trouxeram-me a banda larga. Já este século comprei o meu segundo automóvel novo e fiquei fidelizado à Opel. A mesma coisa: fiquei cliente da Apple quando aí por 2005 o grupo Impresa me pagou um trabalho de consultoria relacionado com os blogues com, a meu pedido, um MacBook Pro. E entrei para o Twitter em 2007.

Ah, sim, já agora: a Lidl é uma das minhas marcas atuais ;) Ainda hoje lá fui às compras da semana.

© Presidência Portuguesa do Conselho da UE 2021 / Pedro Sá da Bandeira

Lisboa, temos um problema. Há mais uma divisão dentro da União Europeia e os representantes de 450 milhões de pessoas viram-se para a presidência portuguesa do Conselho Europeu. Lisboa deu à UE um tratado importante na sua última presidência (2007): repetirá a gracinha?

Talvez.

O problema atual parece mais difícil de resolver do que a clivagem do pensamento económico entre Norte e Sul. Desde a fundação que a conceção de regime que deve vigorar dentro dos estados é clara: democracia humanista com separação de poderes executivo e judicial. A adesão de países que não morrem de amores por essas ideias peregrinas podia ter sido melhor avaliada mas não foi. Agora temos a Hungria e a Polónia a esticar a corda e há mais dois países, República Checa e Eslováquia, a olhar para a questão.

Como se resolve este imbróglio? Ora, a receita é fácil, está nos livros. Converter a União Europeia numa Federação Europeia. Um poder central e leis que obriguem todos os estados federados.

O problema está na sua aplicação. As tradições, bramam os pessimistas, são um obstáculo inultrapassável. Eu, como sabes, sou um federalista convicto mas nem preciso de recorrer ao meu otimismo, basta socorrer-me da história. Quando olhas diacronicamente para a Europa desde o fim da Segunda Guerra, o que vês é uma corrente unificadora em que aos poucos, lentamente, toda a matéria ligada às divisões de fronteiras — as tradições, portanto — tem sido secundarizada primeiro, e desmantelada depois. já desmantelámos as moedas. E até a política financeira é hoje uma única — podes usar a expressão “ditada por Bruxelas” a ver se me importo :P

Temos-lhe chamado nomes de ocasião. Começou como um Tratado do Carvão e Aço, passou a Comunidade Económica Europeia (designação que tinha quando os dois países ibéricos se tornaram membros no alargamento de 1986), passou a União Europeia na década de 1990. Na reação à crise das instituições financeiras na década passada, criámos a União Bancária. Há cada vez mais políticas e traços comuns e cada vez menos traços nacionalistas.

Quando se olha e comenta dos lados extremos, à direita e à esquerda, enfatizam-se os problemas do percurso. Mas quando olhamos sem essa má vontade — e a maioria é assim que olha — o que vemos é uma corrida em que os obstáculos são superados ou espatifados por uma concentração de poder numa elite política comum europeia.

Assim, estou relativamente certo que a questão da natureza do regime cairá em breve. Em Lisboa ou não, mas em breve. Até porque há um fator nunca mencionado pelo coro dos pessimistas, conservadores e outros extremistas: a erosão dos atuais governos polaco e húngaro.

A esmagadora maioria dos polacos QUER fazer parte da União. E o PM Mateusz Morawiecki está a ficar isolado: cresce dentro do seu próprio governo a ideia de mudar de posição, deixando cair a intransigência face ao Estado de direito e ao orçamento. E o seu partido perdeu terreno nas últimas eleições regionais.

A Polónia está por um fio e a Hungria do rei do bullying Viktor Órban não está melhor. Cada vez menos húngaros acreditam na tese que mantém o poder de Órban, que tem a ver com a crise dos refugiados. E 85% deles QUER fazer parte da UE.

Sem Morawiecki na jogada Órban fica sozinho. Polónia e Hungria vão ceder. O Estado de direito vai prosseguir. Mais um passo na direção do federalismo.

Opiniões

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