Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

5 de dezembro de 2020

Sábado, 5 de dezembro de 2020

Cardápio: efeitos da pandemia na economia; há três tipos de restauração afetados diferentemente pela pandemia; os milhares de novos negócios surgidos na pandemia; sinais de otimismo; Vital Moreira sobre a proposta “grega” de Sousa Tavares para curto-circuitar o método de Hondt.

O efeito da pandemia é assimétrico. Bah, dirás tu, já todos sabemos isso. Pois sim. Mas aposto que estás a pensar linearmente. Algo do género “os ricos ficaram mais ricos e os desgraçados mais desgraçados”, ou “os trabalhadores braçais sofrem mais que a rapaziada do teclado em tele-trabalho”, ou ainda “os salários e o desemprego desgraçam setores como a restauração”. Pois: sim e não O desenho das assimetrias é muito mais complexo.

Há empresas e setores com aumento de procura. A empresa que me paga o salário é um exemplo. No balanço do 3º trimestre tinha 80% da previsão de encaixe cumprida. E digo-te: era uma expetativa otimista e elevada. E não é única. Não vou citar dados mas dar uma ideia: por cada 5 salários cortados, há outros 14 salários garantidos pelas medidas de apoio e 1 salário aumentado numas das empresas que ganharam com a pandemia.

Agora vou citar um dado: o peso dos salários no PIB subiu. A sério? Maravilha, dirás tu. Bem: não. Os números são tramados. Na realidade não traduz um aumento da massa salarial (no meu exemplo acima há 1 aumento em cada 19 salários, não tem impacto significativo na massa salarial.). Traduz, sim, que os salários perderam menos na pandemia que os lucros.

Ah, mas isso é bom!, dirás tu que és de esquerda. Bem: sim e não. A recuperação dos salários em percentagem do PIB já vinha de trás, de 2017, depois de anos de queda e esmagamento e levar na tromba (Passos & Portas, remember?). Mas esse vetor de recuperação resultava (como o anterior, de esmagamento) de orientações políticas; o vetor de 2020 resulta do facto de a pandemia ter erodido — e vou usar uma palavra desagradável em regra reservada para o Estado — as gorduras privadas, isto é, foi comer aos lucros.

Segundo alguns cálculos, entre 75% e 90% do sacrifício imputável à pandemia em 2020 e 2021 recai sobre os ombros das empresas. E isso está certo dentro das lógicas empresarial e capitalista: manter o rendimento aos trabalhadores é a única garantia de sobrevivência das empresas e do sistema económico em que operam.

Substitui a palavra “trabalhador” pela palavra “consumidor” e o parágrafo anterior fica iluminado.

Tomo o exemplo da restauração. Está na hora de deixar de olhar para o setor como uma unidade. A assimetria não se nota apenas verticalmente: faz-se sentir horizontalmente as well. Basta uma espreitadela rápida pelo retrovisor para ver a divisória larga: de um lado os restaurantes nascidos para responder ao boom turístico da última década, do outro lado todos os restantes. O impacto da pandemia nos primeiros foi brutal e em muitos casos mortal. Mas nos restantes fez-se sentir de forma muito diferente. Sofreram, mas tiveram condições de adaptabilidade. Isto é, de sobrevivência com danos mais ou menos ligeiros.

Se paramos o carro da análise e olharmos para a estrada percorrida pela restauração na pandemia, podemos ver outras divisórias. Desde logo, os que puderam passar sem os predadores das entregas e os que não tiveram outra alternativa senão verem o seu trabalho sugado por elas. Outra divisória: os restaurantes ainda alavancados financeiramente sentiram muito mais pressão e dificuldades que os mais antigos, com os investimentos pagos. Isto apesar das moratórias e demais benefícios.

E para finalizar o tema: também houve restaurantes a abrir. No meu bairro o saldo é este: em março de 2020 era cliente de três restaurantes, em dezembro compro em quatro. Isso mesmo: abriu um novo. E outro espaço cujo patrão não aguentou ou não quis esforçar-se mais (e, conhecendo-o, espero que seja a segunda razão), fechou para reabrir no dia seguinte com outra gerência e outra cozinha.

Finalizei o tema anterior com uma nota otimista de propósito. Vermos uma vacina no fundo do túnel deu-nos um alento para entrar noutra fase da pandemia. Não é pelos números desta, que aliviaram pouco e continuam altos. É pela esperança de dias melhores dentro de um prazo realista.

[ Sabes aquele momento em que um raio de sol faz abrir o primeiro botão numa amendoeira ainda a escorrer água, e sorris porque se aproxima, inexorável, o ciclo de renovação de vida a que chamamos Primavera? Creio ter visto o equivalente na pandemia esta semana: o primeiro sinal do ciclo seguinte. ]

Esse otimismo fará surgir na comunicação social uma onda de notícias pela positiva. Como este exemplo de ontem da Euronews: Milhares de negócios de empreendedores surgem durante a pandemia. Segundo uma associação que apoia os trabalhadores independentes e as pequenas e médias empresas, quase dois mil novos negócios abriram durante o segundo trimestre deste ano em Bruxelas.

Espera por notícias do género em Portugal muito em breve.

“A” reflexão: “Em todo o caso, depois do fracasso da grande reforma eleitoral de 1998, abortada pelo PSD, não tem havido disponibilidade para qualquer revisão da lei eleitoral — que precisa de uma maioria de 2/3, ou seja, de um acordo entre o PS e o PSD.

Ora, ambos os partidos parecem menos interessados em reformar o sistema eleitoral e travar a perigosa fragmentação política do parlamento, do que em manter o statu quo e impedir o adversário de ter boas condições de governo, se ganhar as eleições

Vital Moreira comentando o artigo de Miguel Sousa Tavares sobre a (in)governabilidade do país, que é o novo cavalo de batalha do jornal que representa e defende as classes privilegiadas.

Canseira: notícias. Excitação: análises.

Opiniões

Eduardo Pitta escreve sobre restauração e Governo: O Que Terá Sido? DaLiteratura 👉

João Camargo escreve sobre Estratégia Nacional para o Hidrogénio: Hidrogénio: com esta estratégia não se faz descarbonização. Expresso 👉

Carvalho da Silva escreve sobre saldo demográfico: Demografia e rendimento JornalDeNotícias 👉

Augusto Santos Silva escreve sobre países e Parceria Estratégica UE-ASEAN: A parceria estratégica entre a Europa e o Sudeste Asiático. DiárioDeNotícias 👉

Ana Cristina Leonardo escreve sobre cretinices várias: Ao cretino fundamental, nem água! Público 🔒