Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

7 de dezembro de 2020

Segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Hoje decidi melhorar a apresentação do diário. Vamos ver se consegui. É também uma edição mais auto-biográfica do que o habitual. Mas a visualização de The Queen’s Gambit despertou-me um conjunto de memórias boas e doses de ternura. Passo ainda por Alfredo Cunha no Público e pelo Presidente da República sobre Camarate. Deixo para amanhã o hidrogénio.


1
A mais conhecida área do Café Aliança distingue-se pela série de fotografias da cidade de Faro e instantâneos da vida algarvia no século XX. Não faço ideia se na atualidade continua aberta um das outras três áreas: um corredor paralelo a essa área principal, com a sua própria porta para a rua Dom Francisco Gomes, que conforme o período funcionou como armazém e como ala secundária do café. Nas décadas de 1960 e 1970 era a ala pobre. Cauteleiros, engraxadores, ardinas e empregados de mesa paravam ali, discretamente fora das vistas da clientela melhor.

Também por ali parava outra tribo especial: a dos jogadores de xadrez. Havia uns tabuleiros e as três mesas perto da porta estavam invariavelmente ocupadas pelos xadrezistas. Joguei aí muitas partidas depois do Campeonato Mundial de 1972, que aumentou o interesse pela modalidade. Mas eu tornei-me frequentador por outra razão: depois de anos a ficar de pé a assistir, aos 12 ou 13 passei a ter idade para me sentar à mesa com os craques e o direito ao privilégio de levar enormes coças, mesmo com um cavalo dado de vantagem.

Esse é um dos três momentos-xadrez da minha vida, recordados agora ao assistir a The Queen’s Gambit, a mini-série que está muito justamente a encantar o mundo. É fabulosa e recomendo-te desde já que, se ainda não viste, não a percas. O guião, os personagens, os atores — em especial a argentina-britânica Anya Taylor-Joy — , o guarda-roupa, a fidelidade ao ambiente do xadrez, o raio da série saiu perfeita como poucas. Passo aos outros dois momentos.

Não recordo com exatidão quando comecei a jogar xadrez, mas foi antes de Bobby Fisher marcar a modalidade e eu ainda não era adolescente. Mas recordo-me bem do meu primeiro conjunto de peças e do tabuleiro em que fui aprendendo. As peças, fi-las eu a partir de rolhas de cortiça — matéria prima abundante no restaurante da família, no qual praticamente nasci. Entalhadas grosseiramente com a ajuda de um primo que tinha ido à tropa na Guiné (salvo erro). O tabuleiro era um papel que pintei, depois colei numa cartolina surripiada aos trabalhos escolares e cobri com um plástico aderente que se comprava ao metro. Um primor. Deve ter sido no Natal seguinte que alguém, que não recordo, me ofereceu um set de peças de plástico de boa qualidade.

O terceiro momento aconteceu em Dnipropetrovsk em Março de 1990. Não te espantes pelo detalhe: não é a minha memória nem as minhas anotações, mas a Google ;) Fui a Dnipropetrovsk, quando esta cidade da Ucrânia integrava a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, fazer para o Expresso a reportagem do jogo dos quartos de final da então Taça dos Campeões no qual o Benfica de Sven-Goran Eriksson venceu o Dnip por 3–0.

Aterrar em Lviv tinha sido toda uma excitação, mas a cidade de Dnipropetrovsk ultrapassou tudo. Fascinante. Bem, vou abreviar ou nunca mais saímos daqui. À noite saí do hotel, contra as indicações e o olhar indiferente do agente da KGB encarregue de vigiar a comitiva, a URSS estava em decomposição e desintegrar-se-ia no ano seguinte. Havia um parque ao ar livre, magnífico, defronte do hotel. Foi por aí que entrei, um pouco a medo do desconhecido. Subitamente, dou com uma boa meia dúzia de mesas com tabuleiros de xadrez embutidos. Homens de várias idades, sobretudo velhos, debruçados a mexer nas peças. Outros a ver. Fiquei sem palavras. Da sueca do Príncipe Real para o xadrez em Dnipropetrovsk, é um salto quântico cultural. Confirmado quando falei com alguns deles. Um em particular, um homem nos seus 60 anos, a idade que eu tenho hoje, mal vestido e pior calçado (quase todos eles passariam por pedintes e sem-abrigo, de acordo com os nossos padrões), desenferrujou o seu português de sotaque brasileiro e citou-me Camões, Pessoa e Eça. Falava cinco ou seis línguas e sabia mais de literatura portuguesa que eu.

A fidelidade de The Queen’s Gambit à época está muito bem espelhada não apenas na descrição da tribo do xadrez, que é bastante eclética, não apenas no guarda-roupa das duas décadas douradas das classes médias estado-unidenses e europeias (mas não soviéticas), mas também nos pormenores. O parque da cena com que a mini-série encerra é fiel à memória que guardo do parque pelo qual passeei em Dnipropetrovsk, e os interiores do hotel de Moscovo, imponência à parte, são cópias a papel químico do hotel de Dnipropetrovsk. Se um dia encontrar, nos arquivos que me restam, as fotografias que tirei, mostro-te e um corredor muito parecido e a mesa de cabeceira igualzinha, telefone incluído, do quarto que tive de partilhar com o José Neves de Sousa, essa máquina de ressonar que também se distinguiu por escrever maravilhosamente.


2
Não te fiques pelo título Alfredo Cunha: “Acho a minha reportagem do 25 de Abril um trabalho medíocre” ($). A entrevista do fotógrafo a Sérgio B. Gomes é uma maravilha de leitura. Espero que ele não se importe muito que eu pique esta foto belíssima que acompanha o artigo. Reproduzo uma resposta, vai lá buscar mais:

O que define um bom fotógrafo?
Tem de ser sensível. Ou melhor, hipersensível, para descobrir coisas que podem impressionar os outros. A mim, impressionam-me as situações de miséria, de pobreza… as questões sociais são fundamentais. As minhas fotografias têm quase sempre pessoas.

Alfredo Cunha

3
O Presidente da República acha que Francisco Sá Carneiro morreu num atentado. Como um taxista já bem embalado. Como qualquer nhurro no Facebook. Quais primado da Verdade, quais método científico, quais órgão sexual masculino. Se Marcelo Rebelo de Sousa acha!, está achado. Se ainda não tinhas reparado que entrámos na era pós-verdade, um Presidente de um Estado membro da União Europeia assegura-te que assim é.

Falou como “amigo, militante e Presidente da República”. Patético.

Vamos ter um segundo mandato presidencial bonito, lá isso vamos. Eu se fosse a António Costa não estava nada descansado: Marcelo foi um bom companheiro, não há nenhuma garantia que continue a sê-lo a partir de fevereiro de 2021. E há sinais de preocupação com uma mente errante, como este.



CANSEIRA: Instagram. EXCITAÇÃO: OnlyFans.



OPINIÕES

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