Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

11 de dezembro de 2020

Sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Cardápio desta sexta-feira: Temido e as vacinas, a paralisia atávica dos jornalistas e a mega-promo especial de José Rodrigues dos Santos paga POR TI. Sem esquecer uma boa seleção de opiniões.


1
O primeiro desafio vai ser gerir, numa primeira fase, a escassez [de vacinas]”, disse a Ministra da Saúde. É uma boa maneira de colocar o assunto por parte de Marta Temido. Mas visto daqui de baixo o problema não é a escassez de vacinas: é o excesso de expetativas. As vacinas virão num ritmo até elevado para o que é normal. Que má palavra: não há nada de normal nas vacinas contra a COVID-19. Nem na investigação em tempo recorde, nem na quantidade de recursos públicos e privados a ela reservada, nem na pressa na aprovação. A pressão dos cidadãos (que também nada tem de normal) é tremenda. Ou pedindo emprestada a palavra a Vitor Gaspar: é colossal.

E é com isso que o Governo terá de se haver. A expetativa. Multiplicada e ampliada por uma Comunicação Social ávida de casos e a preparar-se para as inevitáveis questões que a operação de vacinação vai levantar. Temo que os problemas da gestão da expetativa esmaguem os problemas técnicos e processuais do plano de vacinação.


2
Às vezes passo-me. Sucedeu hoje. Ó Tadeia, tiraste-me do sério. Ou melhor: o nosso amigo Manuel Queiroz é que me tirou do sério, sem a piadinha dele eu ter-me-ia limitado ao primeiro comentário bem disposto. Eu já me livrei do jornalismo, mas pelos vistos o jornalismo não me deixa bazar assim tão facilmente.

Segue então a resposta completa.

António e Manuel: os OCS estão metidos numa armadilha. Na sua guerra por dar mais notícias que a concorrência, e na sua guerra de clickbait, produzem cada vez mais conteúdos; isso gera um problema de filtro. Sem filtro, as audiências ficam soterradas. News fatigue. Adeus, vou ali ler um bom livro. Resposta dos OCS? Mais 300 artigos sobre leituras, livros, livros da semana, livros do mês, livros disto e daquilo. Lógica: os leitores querem.

Como quebrar este círculo vicioso? Não esperam que os OCS produzam MENOS, não?! Isso era dar parte de fraco :P

OK. Eu, cidadão leitor, e tu, jornalista interessado no jornalismo, como vamos navegar nesta maionese?

Sem ordem especial, três caminhos (entre outros).

Um caminho: agregadores. Com mais ou menos fator humano envolvido no processo (sabedoria das multidões, editores a catalogar e dar pesos, há vários modelos). Vantagens: filtram efetivamente e reduzem as quantidades a um nível manuseável e até apuram qualidade. Desvantagens: tendem a afunilar, perdem a serendipidade, que é uma característica essencial do processo de informação.

Outro caminho: curadores. Pessoas, se tiverem treino jornalístico tanto melhor, que se focam, que não apenas filtram como dão exclusivamente qualidade, as gemas, e constroem relações de confiança com os leitores. Podem ver-me como um curador. Por agora um tanto despreocupado, quem sabe se um dia venho a tornar a atividade consistente. Acredito que mais tarde ou mais cedo os OCS cederão ao óbvio: terão de contar com os curadores. Acabar-se-á por construir algum sistema de estímulo e recompensa. Mas por agora o que temos é os OCS a dificultarem ao máximo a curadoria. Um erro, mais um erro numa cadeia que nunca mais pára.

Outro caminho: pesquisa. Está na mãos da Google e esta, francamente, tem mais que fazer à vida. Já deu todas as ferramentas tecnológicas aos jornais, já desistiu, agora dá-lhes esmolas para os calar. Já tentaram pesquisar alguma coisa nos jornais? Uma perda de tempo. E a eficácia da Google também já deixa a desejar. Para melhorar a pesquisa, seja interna seja externa, é preciso começar por estruturar convenientemente a informação. Dica ou exemplo: dirijam-se ao JN e procurem por notícias de política. Ou ao Expresso. Uma total confusão: até notícias de futebol aparecem.

Se quiserem, vejam isto por outro prisma: agregadores e curadores e pesquisa são os novos quiosques on steroids onde se expõem os jornais para interessar os compradores.

Qualquer destes caminhos podia, pode, ser trilhado dentro dos atuais OCS. Porque não o fazem? Porque esnobam. Porque acham que a sua missão é produzir mais e mais e mais e mais e mais conteúdos para ter mais e mais e mais e mais páginas para pendurar anúncios e porque é o que lhes exigem os patrões, cada vez mais e mais e mais e mais produtividade medida sob a forma, arcaica, do número de peças escritas por dia.

Porque, pá, man, um jornalista escreve, topas? É nobre. É um/a artista, é um/a gajo/a indispensável à democracia. Isso de agregar, etiquetar, curar, bocejo, são atividades para parolos, é para o equivalente da malta da ferrugem do antigamente.

Tudo bem, fiquem nessa. Deixem trabalhar as pessoas que querem trabalhar para melhorar o vosso trabalho. Complementá-lo. E descubram como podem incentivá-las para elas colocarem nos quiosques os vossos jornais mais à vista que o vosso concorrente.

Ou vendam-se à Google e à Facebook. É a opção em curso. Adeus. Mas não venham dizer que a culpa é da audiência e dos agregadores que vos DÃO leitores sem custos de aquisição (ler: À BORLIU).


3
O mundo mudou radicalmente, e continua a mudar, o jornalismo não mudou. E btw também a política não mudou, porque infelizmente os dois andam de mãos dadas. A política só pode ir para onde o jornalismo a deixa ir. Aprendemos essa dura lição durante a presidência da Trump. Eles têm poder para deter pessoas honradas, mas não têm poder sobre pessoas que não se importam.Dave Winer


4
Maria João Marques leva a coisa para o lado do sexismo (Magazine Capital) e eu nada tenho a opor. Também não enveredei pelo assunto do extermínio dos judeus. Não por não me apetecer: apeteceu. Mas porque o meu ângulo é outro: mais uma vez, José Rodrigues dos Santos teve uma promoção espetacular na RTP, no serviço público de informação e nem uma alminha apareceu a criticar a opção. “O escândalo com esta opção programática da RTP? Nenhum. O repúdio por José Rodrigues dos Santos estar a promover um projeto seu onde vai ganhar dinheiro? Nem vê-lo. A indignação aconteceu, mas só pelo conteúdo da entrevista à roda do branqueamento ou não do Holocausto, de quão informado sobre o tema está o jornalista e se afinal os nazis eram humanitários ou afinal gente bera”.

Desde sempre que a RTP é uma casa de vedetas. E estas fazem pretty much o que querem. Não é só salários e cargos. Ele é prateleiras douradas. Vasos comunicantes com as suas agências/empresas de comunicação. Escritores milionários é raro, mas também se arranjam. As direções sucedem-se sem que nada de essencial mude. Às vezes há umas direções melhores — a do meu amigo Paulo Dentinho, por exemplo, quis barrar o excesso de futebol que mina o serviço público. Acabou por perder a guerra — o lóbi do futebol é um dos mais poderosos a interferir com a Comunicação Social.

E há direções que nem damos por lá estarem. Como a atual. Eu prezo o jornalista e comentador político António José Teixeira, digo-o aqui e já. Mas uma direção que pactua com os interesses das vedetas da pantalha é uma direção banana. E aquele Conselho de Administração está a gerir tudo, menos os meus interesses na RTP. E eu não sou apenas um stakeholder: sou um accionista, um investidor.

Já deves ter percebido que acho inadmissível a promoção do escritor José Rodrigues dos Santos feita em horário nobre pelo pivô José Rodrigues dos Santos com as ajudas de jornalistas que estão sujeitos à influência de José Rodrigues dos Santos. Não quero saber se escreve bem ou mal, se é justo o que vende ou não.

E é irritante, de facto, ver o nosso coletivo duplo critério. A accionista da TVI Cristina Ferreira foi criticada por promover o seu livro na antena. Zurzida sem piedade. Um livro cujas receitas revertem para associações.

José Rodrigues dos Santos pode promover os seus livros na estação pública para a qual trabalha. Cristina Ferreira não pode promover os seus livros na estação privada da qual é accionista. Wrong.



CANSEIRA: criticar. EXCITAÇÃO: fazer.



OPINIÕES

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