Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

12 de dezembro de 2020

Sábado, 12 de dezembro de 2020

O diário numa frase: estou bipolar com ministros, isto é um Governo ou o Instituto de Socorro a Náufragos?, fomos passear à Gulbenkian e gastar dinheiro em livros, falo das árvores e de como elas falam e da sua importância no ciclo do carbono, e ainda dou sugestões de prendas de Natal, quem é amigo, quem é?

(Amanhã faço um balanço da pancadaria entre a big tech e os reguladores dos dois lados do Atlântico: EU e governo federal estado-unidense querem esfrangalhar a Facebook e açaimar a Google.)


1
Dois ministros, duas notas distintas. Um 💚 para Marta Temido, um 😡 para Pedro Nuno dos Santos.

Digam o que quiserem, e eu contribuo com meia dúzia de críticas, a Ministra da Saúde sai destes 9 meses de pandemia com nota positiva. 13 ou 14 na escala de 0 a 20. Esteve melhor na primeira fase da pandemia, não evitou a desorientação do Governo e desorganização das cúpulas da saúde a partir de agosto. As lágrimas no IRJ levo-as como um sinal bastante humano de emotividade. Temido está não só sem descanso emocional mas sob stress físico e o mais certo é não dormir bem desde Março.

Digam o que quiserem, e eu contribuo com o meu quinhão de admiração e gosto pelo seu papel no Governo, o Ministro das Infraestruturas e da Habitação sai da gestão do dossiê TAP com nota negativa. Um 9. Por mais voltas que dê aos números, não consigo perceber como é que há um saldo positivo para a economia se enterro 7.000 milhões no buraco negro da TAP e mesmo assim não a salvo, despeço milhares e reduzo salários. Vai-me convencer que sem a TAP não havia turistas em Lisboa e no Algarve?!

O primeiro erro (a privatização) aguenta-se. O segundo erro (a reversão parcial da privatização) foi um ultraje extremamente difícil de engolir. O terceiro erro (não a liquidar quando está moribunda e sem futuro) é inadmissível.

E terá um custo político que eu não vou gostar de ver Pedro Nuno dos Santos pagar.


2
E ainda sobre a Ministra da Saúde, Mafalda Anjos escreve isto na Visão e eu aplaudo: “É cada vez mais raro alguém experimentar caminhar nos sapatos de outra pessoa, como dizem os ingleses, antes de tecer considerações sobre ela. (…) Desde o início da pandemia que Marta Temido e Graça Freitas têm sido sujeitas a esta epidemia da falta de empatia e a críticas que não teriam sido feitas a homens se estivessem nos lugares delas”.


3
E ainda sobre a TAP, Pedro Adão e Silva escreve no Expresso (🔒): “A pandemia provocou uma tempestade perfeita, em que se combina crise sanitária com devastação económica e social, que acabará por se traduzir em instabilidade política. Mas, quando o tema é aviação comercial, é mais adequado falar de um tsunami, que deixará um rasto de destruição difícil de refazer. Por mais especialistas que escutemos, ninguém sabe como e quando é que as companhias aéreas vão recuperar e é muito difícil antecipar os custos de manter em apneia prolongada a aviação comercial.


4
Salvar o Novo Banco, salvar a TAP, isto é um Governo ou o Instituto de Socorro a Náufragos? Contas por alto, estas salvações equivalem a mais de metade do pacote de auxílio comunitário. Dinheiro para tecidos mortos que podia ir insuflar saúde em tecidos vivos como os restaurantes. Uma bazucada, sim, mas nos pés da economia portuguesa.


5
Retomar a normalidade aos bocadinhos: hoje fomos passear aos jardins da Fundação Gulbenkian. A espécie de shinrin-yoku a que temos direito, uma vez que estamos a falar de um jardim no meio de uma cidade de um milhão de habitante. Soube maravilhosamente. Em partes desiguais: a parte de passear entre o arvoredo e sua fauna que sabe sempre bem e a parte de sacudir a pressão confinante da pandemia. Não fiz as contas a qual é mais importante. Francamente? Estou-me nas tintas e ainda a viver dos rendimentos do passeio.

E ainda gastei 20 euros em livros na loja da Gulbenkian. Seis livros seis. Estão com preços de Natal irresistíveis.


6
E a propósito das árvores, ou vice-versa pois que passei a semana a querer falar do seguinte artigo mas não tive oportunidade: por favor lê The Social Life of Forests, que o NYT publicou na sua revista. Aproveita o tempo do fim de semana. É uma long read fascinante. Uma reportagem que acompanha trabalhos de campo, bem como produção teórica, de Suzanne Simard, a professora de ecologia florestal que tem testado a teoria de como as árvores comunicam umas com as outras.

captura parcial da página do NYT

O assunto está condensado no essencial na Ted talk original (2016), que lançou a preocupação na comunidade científica ligada à biologia, e com bonecos na Ted Ed animada sobre a linguagem secreta das árvores. O artigo do NYT também tem versão audio, o que é ótimo.

Simard chama às árvores mais antigas, maiores e mais interligadas de uma floresta as “árvores-mãe” — expressão destinada a evocar a sua capacidade de alimentar aquelas que as rodeiam, mesmo quando não são literalmente suas mães. No seu livro compara as redes micorrízicas com o cérebro humano. E fala abertamente da sua ligação espiritual com as florestas.

Há contudo (ou evidentemente) quem discorde desta aproximação ternurenta de Suzanne Simard, que choca contra a visão competitiva da evolução. Essa corrente parte já do trabalho de Simard com o objetivo de colocar a relação entre as árvores e a vida vegetal envolvente dentro do darwinismo.

O artigo lança ainda alguma luz sobre o papel crucial das florestas no ciclo do carbono — ou seja, e sintetizando, como as podemos instrumentalizar mais uma vez para nos safarem o coiro.


7
Fart@ de meias, gravatas, écharpes e demais prendas totalmente vazias de inspiração, que mostram aos outros como não tens um pingo de imaginação e avias o Natal com o que calha? Lê aqui:



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