Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

14 de dezembro de 2020

Segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Hoje foi um dia tramado! A Google esteve em baixo 45 minutos e os departamentos do Tesouro e Comércio dos EUA foram alvo de ataques de hackers. Mas ainda não viste nada: o plano português para a época do Natal e Ano Novo é muito pior que isto, vai por mim. Ainda uma palavrita sobre o caso SEF, ou melhor, os múltiplos casos SEF, já lá vão quatro and counting.


1
Não é do Entroncamento, mas é um fenómeno raríssimo. Incluindo a minha GoContact, centenas de milhar de empresas em todo o mundo tiveram hoje um momento difícil. Quase todos os serviços da Google foram abaixo e estiveram inacessíveis. Felizmente não durou muito tempo: entre meia hora e uma hora, dependendo de regiões e serviços.

O pico é bem visível na imagem acima, tirada do Downdetector, que teve um tal pico de tráfego por causa deste acontecimento que também deu os seus erros 500.

Como no meu caso coincidiu com a hora de almoço, quase não fomos afetados. Nos EUA o dia estava a começar e o impacto foi grande. ( Computerworld, Techcrunch).

A Google ainda não forneceu grandes explicações para o inaudito acontecimento. Percebeu-se cedo que o problema, ou pelo menos a maior parte dele, teve origem no serviço de validação das credenciais dos clientes. Não me lembro de ter alguma vez assistido a um downtime desta extensão na Google, da qual fui um early adopter, creio que antes ainda da incorporação, quando era só um motor de pesquisa tido como incapaz de desafiar o gigante Altavista (já ninguém se lembra deste, mas era o colosso das pesquisas no século passado).

Para a maioria das pessoas, o problema esteve no Gmail (1.500 milhões de utilizadores no mundo) e no Youtube. Mas as empresas, e a Google tem mais de 6 milhões de clientes do seu pacote empresarial, dependem também do Chat e do Drive. Há nas redes imensos relatos de pessoas a jogarem as mãos à cabeça enquanto revêem o dossiê “dependência”…

Os serviços acessíveis pela API da Google não foram afetados. Felizmente! Assim, os clientes da minha empresa não sofreram um beliscão, sequer, com os nossos serviços que utilizam em parte a Google, como o reconhecimento de voz (ASR) e o processamento de linguagem natural (NLP).


2
Várias agências do governo federal, incluindo os departamentos do Tesouro e Comércio dos EUA, tiveram alguns dos seus sistemas informáticos violados como parte de uma vasta campanha global de espionagem cibernética que se acredita ser o trabalho do governo russo, de acordo com funcionários e pessoas familiarizadas com o assunto.

Claro: os russo são sempre os principais suspeitos. O link com todos os links para todos os ângulos desta história é este da Techmeme.


3
Há três dias que ando com vontade de escrever no diário sobre o triste estado a que chegámos na pandemia. Muito triste. Nada se aproveita, a começar pela nossa atitude coletiva. Entre janeiro e junho uma imensa maioria estava paralizada pelo medo e o efeito foi positivo: baixámos a transmissão da COVID-19. Depois o PM e o PR desataram a dar maus exemplos para “animar a economia” e descambámos totalmente. Nos últimos 2 meses a situação piorou. Hoje, uma maioria diz basicamente “que se lixe, estou farto, quero fazer o que me apetece”. Resultado: Governo e Presidência entraram e roda livre, sem a pressão da rua, e passaram às medidinhas a fingir que se preocupam.

Fui buscar ao Francisco Restivo um quadro otimista, que mostra que a transmissão entrou num plano estável. Mas não nos iludamos: é de pouca dura.

O sistema de saúde estoirou. O facto de ainda ir tendo camas para a COVID-19 mascara o pior: milhares de cidadãos morreram de outras patologias por falta de capacidade para serem tratados. Se isso não é estoirar, o que é estoirar?

Nas duas semanas até ao Natal o mais certo é vir o dia em que passamos o número simbólico dos 100 mortos, mas deverá abrandar. O que é péssimo, péssimo. Esse bocadinho de confiança vai juntar-se às medidinhas completamente esburacadas que o Governo engendrou para a época.

O facto de Lacerda Sales ter afirmado que o Governo “não hesitará” em agravar medidas não me dá descanso algum. Não é por ele, que é dos raros a remar para o lado certo (quando isto terminar, eu se fosse a António Costa promovia Lacerda Sales a uma posição em que falasse em nome dele, Costa, e de todos os ministros). É por saber que é uma boa intenção que não passará disso.

As duas semanas entre o Natal e o dia de Reis vão agravar fortemente a situação. Vamos ter um Inverno assustador, penoso, interminável. Só espero estar enganado, só espero estar enganado, só espero estar enganado, só espero estar enganado, só espero estar…, só espero….


4
Marcelo e a cegada do SEF: ou muito me engano, ou saiu-lhe o tiro pela culatra. Já Eduardo Cabrita saltou em cima do brinde de Magina da Silva: a dispersão de confusões relacionadas com o SEF (cidadão ucraniano morto, demissão da diretora do SEF, restruturação das polícias, o presidente a meter o nariz por interposto senhor superintendente-chefe, dobra a língua ó caramelo) tem a virtude (enfim) de distrair os focos, diminuindo a intensidade do foco principal: ele. Não sei se será suficiente para se aguentar no cargo. Não sei se é desejável que permaneça no cargo. Assinalo tão-somente que está a vendê-lo caro.



OPINIÕES

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