Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

15 de dezembro de 2020

Terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Hoje: o controlo da narrativa a.k.a o problema das fake news, a entrevista de Manuel Sobrinho Simões, a fraca qualidade dos entrevistadores, o mau negócio das assinaturas dos jornais portugueses, dois obituários de John Le Carré e o obituário enquanto género. Uff. Ah, espera: e uma ronda pelas políticas de lockdown na Europa.


1
Estava ali a ver o cartaz de apresentação de “Jornalismo em tempo de pandemia” e entre os temas está “o problema das Fake News e outros problemas relativos ao controlo das Fake News” e não pude deixar de sorrir. Também por o autor ser Pedro Lomba, um intelectual da direita muito chegada aos interesses da extrema-direita desconfiada da democracia e que considera que só alguns têm direito a ter direitos, que tem como nódoa no currículo ter sido Secretário de Estado de Passos Coelho/Paulo Portas, e representar hoje os interesses de um dos maiores escritórios de advogados/centro distribuidor de influências entre poderes político e económico. Mas não só. Aliás, isso é o menos: Lomba ou outro qualquer dirão o mesmo, pode ser que Lomba seja mais brilhante na oratória.

O problema, o cerne do assunto, o Pai de todas as discussões sobre a intersecção da tecnologia com a informação, da internet com o jornalismo, é só um: o controlo da narrativa. O bruá da década passada com a Wikipedia foi exatamente o mesmo. Tudo se resumiu à clique que perdeu o privilégio de controlar a narrativa ter dito, ter gritado, o que podia e o que não sabia mas inventava, com o único fito de denegrir as alternativas. Viu-se.

O controlo da narrativa é. Voltarei a este tema, descansa. Entre Gutenberg e a comunicação reticular, o assunto é precisamente tão inesgotável como o futuro.


2
Vamos ter de organizar a sociedade de maneira diferente. Notável, imperdível, a entrevista de Manuel Sobrinho Simões ($) a Andrea Cunha Freitas no Público. Um pequeno aperitivo, seguido de dois pensamentos indiretos:

Voltamos à pobreza que se agravou, uma assimetria assustadora. Temos fragilidades muito grandes. Para mim, os maiores problemas são, por exemplo, a longevidade crescente. Veja o que está a acontecer no Japão. Onde é que a gente vai caber? Não sei como vamos resolver isso. Não podemos continuar a viver tempo a mais.
(…) E
pela maldade que é um tipo viver muito, mas com mal-estar. Mas, além da pobreza e da longevidade, há ainda o problema do trabalho. Este é o meu triângulo.
(…) O que é que a gente vai fazer? O que é que os meus netos vão fazer? Toda a gente me diz sempre a mesma coisa e que vamos ter novas profissões. Sim, vamos. Mas são nichos. Repare, vamos ter uma área espantosa que é a dos cuidadores e que vamos ter de desenvolver por causa da longevidade. Aí muita gente vai ter emprego ou trabalho.
(…)
E vamos ter de organizar a sociedade de maneira diferente, com as pessoas a viverem em casas maiores ou em vertical, mas vivendo próximas. As pessoas têm de morrer em casa. Não podem morrer nos lares, nem nos hospitais.


3
Eu a ler a entrevista e a pensar num dos temas recentes no espaço público, que é a fraca qualidade dos entrevistadores no jornalismo português. É bem certo que José Gomes Ferreira é um desastre, Miguel Sousa Tavares se tornou numa sombra dele próprio, quase sempre mal preparado, arrogante e altaneiro, até o João Adelino Faria bebe pelo gargalo do veneno da rudeza que os impele a serem mais importantes que os entrevistados e a rivalizarem entre si usando os desgraçados dos convidados como munição.

Pois bem. Não conheço Andrea Cunha Freitas, não consegui referenciá-la para além do Público, mas afirmo com confiança: ela melhora imenso o nível. Sobrinho Simões inunda o texto com a sua naturalidade. A jornalista puxa por ele e dá-lhe espaço. Talvez haja uma diferença entre escrever uma entrevista ou fazê-la em direto e debaixo dos holofotes — mas não creio que seja por aí. Admito, isso admito, que o problema seja mais visível na televisão.


4
Segundo pensamento indireto: assinaturas de jornais. Nada tenho contra a ideia de cobrar pelo jornalismo, tenho sim contra as soluções encontradas, quer do ponto de vista técnico, quer pela política de preços. Em ambos os casos há um desinteresse, para não dizer desprezo, pelos clientes.

O primeiro esboço do bloco acima sobre a entrevista de Sobrinho Simões ao Público começava com algo como “só esta entrevista justifica assinar o Público”. Uma frase injusta que logo substituí, pensando em aditar nesta nota. Mais abaixo no diário falo no obituário de Le Carré no New York Times. Mais uma vez me senti compelido a assinar, mais uma vez não concretizei: sou um leitor demasiado irregular do NYT.

Mas que é tentador, é: 2 euros mensais / 24 euros no primeiro ano. Compare-se com o Público: 68 euros por 12 meses. Compare-se com o Expresso: 78 euros por 12 meses. Um dia destes não resisto ao NYT. Posso sempre passar a ler com regularidade. Assunto e qualidade abundam, é sobretudo uma questão de hábito.

A política de preços dos jornais portugueses é muito conservadora. To say the least. Eu gostava que o Público tivesse uma oferta semelhante à do NYT. Bem, quer dizer: eu gostava que o Público e os outros jornais portugueses NOS TRATASSEM BEM — e não é só uma questão de preço.

Se eu comprar o jornal em papel, posso dar a ler esse exemplar a quem eu quiser. É meu. Ora, na assinatura online não tenho nada que se pareça. Não é minha. Não tenho um link personalizado, para convidar alguém a ler. Para te dar a ler a entrevista de Sobrinho Simões, teria de infringir regras. Ainda por cima tenho a desconfiança dos jornais, que policiam cada post no Facebook e no Twitter e na sombra promovem legislação contra a World Wide Web. Está tudo subvertido: o Público devia era agradecer-me por eu recomendar a entrevista e fornecer uma entrada para o site.

Se o único incentivo à aquisição de uma subscrição é o valor dos conteúdos, os jornais portugueses estão em clara desvantagem no mundo global em que operam.


5
O obituário de John Le Carré, a.k.a David John Moore Cornwell (pun intended), assinado por Sarah Lyall no New York Times é de ler com avidez. “Ao romper com o molde de James Bond, transformou o romance de espionagem em alta arte ao explorar os compromissos morais dos agentes de ambos os lados da Cortina de Ferro”.

O obituário do escritor no Público é menos luminoso. Não li outros na imprensa portuguesa.

O obituário é um género à parte dentro do jornalismo. Em Portugal José Cutileiro dominou o género como nenhum outro. Gostava muito de o ler. Antropólogo, antigo embaixador (negociou a adesão de Portugal à então CEE), manteve durante anos crónica no Expresso. Todas as semanas morre alguém com valor-notícia, mas só ocasionalmente se trata de uma figura que coloca à prova o escriba. Cutileiro era muito bom. Morreu em Maio deste ano. Sobre ele escreveu também no Expresso a minha ex-camarada Isabel Paulo: “Há duas décadas, estreou-se a escrever para o Expresso numa coluna de relações internacionais, titulada de ‘O Mundo dos Outros’, seguindo-se os obituários, sobretudo de personalidades estrangeiras, sobretudo pelas quais tinha admiração, quando regressou dos EUA. Das que não gostava, dizia que não sabia “tão bem”. Mas num e noutro caso garantia que escrevia a verdade. Escreveu o de Mário Soares e do de Maria de Jesus. E também o de Fidel Castro, um ditador que, comentava, “caiu no goto de alguns”, “não era um bom homem, mas houve piores”.

Há uns anos, no declínio da blogosfera, um amigo blogger trocou umas ideias comigo acerca de manter um obituário. Em português e virado para Portugal, não teria sucesso que comportasse remuneração alguma, respondi-lhe. Talvez global e multi-língua. E mesmo aí seria necessária uma mestria literária que o meu amigo não possuía.

Há algum tempo que não leio The Economist, mas a revista inglesa costumava albergar bons obituaristas, é provável que continue, até porque a imprensa anglo-saxónica tem essa tradição.


6
Natal de 2020. A pandemia mata milhares e em toda a Europa os governos encerram os seus países em cápsulas protetoras para evitar o alastramento das transmissões durante as orgias consumistas dos dias 24 a 31. Toda? Não. Num cantinho da Península Ibérica…



OPINIÕES

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