Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

18 de dezembro de 2020

Sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Hoje: holy cow! Mas que grande laranjada fora de prazo! A conjetura política da semana, o facto político do dia, o facto político da semana — e Ventura fora dos lances todos? Luxo! Bem, já que estamos de balanços, vamos fazer previsões para 2021? De permeio destaco a justa exaltação de Susana Peralta com a CNE. E dois números para o teu sábado, o bom, 7%, e o mau, 2,6%.


1
(apesar do erro, é o) Tweet da semana:


2
Conjetura política da semana: Rui Rio disse que o jantar com Santana Lopes não teve qualquer “intenção política”. “Seria confundir um jantar que teve meros intuitos pessoais num facto político que não o é ou não o deve ser”.

A conjetura foi assunto de correspondência ainda antes de Rio se pronunciar. “E o regresso do menino que anda sempre por aí? O regresso de Santana Lopes é ou não descrédito para a classe política?” perguntou-me um leitor. [ya. Este diário é mais do que um diário, é também pretexto para conversas num ambiente e num tempo mais sossegados do que as redes. Meto as fichas no um-para-um, que não é uma comunicação só para marketing e vendas, serve perfeitamente à informação. Atreve-te sempre que tenhas dúvidas, críticas ou vontade.]

Respondi: Santana Lopes nunca se afasta muito tempo. E em política verdadeiramente só cai em descrédito quem tenha o azar de ser apanhado pela Justiça ou pelo justiceirismo do jornalismo tablóide. De resto, os erros políticos pagam-se com curas de afastamento. Já ninguém se lembra do governo de Santana Lopes. E ele tem um registo positivo como autarca, em especial na Figueira da Foz. Eu creio ser uma candidatura fraca à partida, pelo que não estou a ver Rio aceitar. Se Medina concorrer pelo PS, ganha de caras.


3
Facto político do dia (ou: Rio está em todas esta semana). A sondagem do ISCTE e do ICS deixou Rui Rio à beira de um ataque de nervos a lamuriar-se pelo Twitter. Se as legislativas fossem hoje, o PS sozinho tinha mais votos que toda a direita junta, unida e somada. O PSD ficava a 14 — catorze — pontos do PS. Ano e pico depois, com uma pandemia a por à prova o Governo, a direita está exatamente na mesma em termos globais. E em termos internos está mais fraca e exposta: PSD perdeu força, CDS perdeu força, Chega suga-lhes a força toda. Não arrebitem. Please!


4
Facto político da semana (ou: a contra-ofensiva dos mortos-vivos). Cavaco Silva e Passos Coelho abriram a boca. O primeiro disse os costumeiros disparates, sendo a novidade a benção ao Chega. O segundo curiosamente esteve menos mal. Falhou na acusação de populismo a Costa e na história da “cauda” da Europa, depois do que fez, com a ajuda de Paulo Portas, para garantir que estamos lá. Foi oportunista todavia certeiro com o SEF e a TAP. E lembrou bem a inação tuga em Moçambique. (Renascença)


5
Tanta laranjada fora de prazo na semana teve um efeito positivo: ajudou a varrer do palco mediático o embaraço de Marcelo. Falo do episódio em que Magina da Silva serve de ator na intrigalhada presidencial. Que, como muito bem referiu o mesmo leitor na correspondência desta semana, traz à memória Cavaco-Fernando Lima-Sócrates-Público.

Excetuando Eanes e Sampaio, bem talvez só Sampaio, bem, esquece as exceções, Belém foi sempre um poço de intriga política. À medida que fica menos preso da opinião pública (ler: sondagens), Marcelo vai piorar a sua faceta de intriguista. É mais refinado do que Cavaco — mas também mais fértil.


6
Susana Peralta exaltou-se com a Comissão Nacional de Eleições e com toda a razão (o que nela é recorrente). Portugal nunca foi presidido por uma mulher; em nove eleições tivémos 48 candidatos e três candidatas: Maria de Lourdes Pintasilgo (1986), Maria de Belém e Marisa Matias (2016). Cinco anos depois novamente duas candidatas (Peralta vai votar na primeira, eu votarei certamente numa delas, ainda não decidi, estou mais inclinado para a segunda): Marisa Matias e Ana Gomes. Como comunica a CNE?

Num dos vídeos de 30 segundos que vi, ouvi duas vezes “meu” Presidente, uma vez “nosso” Presidente, duas vezes “o” Presidente, outra “o” chefe das Forças Armadas, outra ainda “o” garante das instituições. Não contente com o destaque dado ao género do chefe supremo, o vídeo refere duas vezes “o Presidente de todos”, sublinhando também o género dos cidadãos que o elegem. Acresce que numa eleição em que há um incumbente, a prudência aconselhava a autoridade que garante a isenção da dita eleição a não fazer uma campanha que refere com tanto afinco “o Presidente”. Se isto não foi de propósito, parece mesmo.” No Público ($).


7
Tenho um desafio para ti. Quais são as tuas previsões para 2021? O campo principal é o espaço público. A política, claro, mas tudo o que tem poder de influenciar o nosso dia a dia. Ou seja, cabe quase tudo menos futebol e influencers. O Chega vai crescer ou estagnar? A vacina vem resolver ou temos pandemia por mais um ano? Haverá retoma do turismo ou as mudanças de hábitos são perenes e vão manter a maioria dos aviões no solo? Estás a ver o que se pretende.

Farei a lista num dos diários até final do ano. Mas guardo-a, nota bem: em dezembro de 2021 farei a avaliação da nossa taxa de acerto. Vai ser giro, vai. Solta a Maia, perdão, a jornalista de economia que há em ti ;)


8
A boa notícia: as emissões de dióxido de carbono desceram 7% em 2018-2020. É de agradecer à principal resposta à pandemia: o confinamento. Mas também aos países que têm feito algum esforço. A má notícia: em 2021 a procura de carvão deverá aumentar 2,6% com a retoma da economia (Global Carbon Project, Reuters).



OPINIÕES

Rosália Amorim acha que a semana foi surreal e como compreendo a senhora diretora: Véspera de Natal surreal. DiárioDeNotícias 👉

Beatriz Gomes Dias aborda o caso SEF por outro ângulo: Migrar não é crime. Esquerda 👉

Helena Pereira de Melo critica o plano de vacinação comparando-o com o britânico: Vamos mesmo continuar a deixar morrer os nossos idosos? Público 👉

Mafalda Anjos irónica mas não sarcástica: Rui Rio, as ironias falhadas e o sentido de estado de um bulldozer. Visão 👉

Raquel Duarte escreve sobre casa e Natal: Nadar, nadar e morrer na praia….JornalDeNotícias 👉