Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

21 de dezembro de 2020

Segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Olhei para a sondagem que causou hoje algum burburinho nos media, ansiosos por ler mudanças favoráveis à direita nas borras de café de 603 telefonemas para eventuais eleitores, e agitou mentes bem pensantes à esquerda; relacionei os dados com a evolução dos números desde as legislativas de outubro do ano passado, e aqui fica a conclusão: em 14 meses não se produziu nenhuma alteração favorável à direita no sentido de voto dos portugueses. Mais conclusões e leituras abaixo. E ainda uma achega mais ao assunto da longevidade, a propósito de Ferreira Fernandes ter hoje escrito a última crónica para o Público.


1
O Chega está longe de ser o principal problema da democracia portuguesa. A esquerda faz mal em dar tanta importância ao Chega: está a desperdiçar recursos que devia empregar no pensamento da sua própria requalificação e aggiornamento. Os efeitos do Chega no sistema partidário não são, de todo em todo, uma preocupação para a esquerda, nem mesmo para o centro-esquerda: é um caso para a direita resolver. E o principal problema da direita não é o Chega. Vou primeiro aos resultados, depois à fundamentação de uma opinião sobre qual é efetivamente o principal problema da direita.

O quadro abaixo contém os resultados dos partidos com representação parlamentar desde as últimas eleições legislativas até esta segunda-feira, 21 de dezembro. Os números da primeira coluna são reais, os restantes são percentagens projetadas em cima de sondagens; contudo, há uma diferença na coluna de dezembro: refere-se a uma única sondagem, quando as outras são ponderadas em função de conjuntos de sondagens. Os dados vieram da Comissão Nacional de Eleições, Jornal de Negócios e Europe Elects.

Faço quatro leituras principais do quadro evolutivo, a saber:

  1. os blocos tradicionais esquerda-direita permanecem praticamente inalterados 14 meses depois das eleições, o que é lisonjeiro para o partido no Governo: o PS não só não sofreu a natural e expectável erosão eleitoral da governação, como a gestão da pandemia lhe tem sido favorável
  2. o PSD e o CDS continuam a definhar eleitoralmente, incapazes de uma oposição convincente
  3. a extrema-direita registou uma entrada espetacular, dos 0 aos 6,5% em menos de um ano, e ato contínuo estagnou
  4. materializou-se um bloco novo que vale já entre 7 e 8%, com propostas realistas e sensatas — centristas por oposição a extremistas — ou seja, que pode ter uma palavra a dizer no futuro da governação do país, qualquer que seja o partido vitorioso

Começando por aqui: o resultado do IL parece-me claramente um equívoco e terá uma correção, mas a tendência está lá e bem firmada. O partido Iniciativa Liberal é mesmo o único que só apresenta crescimento entre cada sondagem. Mesmo o meteoro populista já oscilou negativamente. O IL estará, após a correção, no intervalo 3,5% a 4%.

O desempenho do partido tem sido consistente e determinado. Creio que qualquer pessoa, mesmo que como eu tenha uma visão do mundo e sobretudo da economia diametralmente oposta à do IL, reconhece hoje que João Cotrim de Figueiredo tem efetuado um trabalho positivo como deputado e as intervenções do IL são benéficas para a democracia. Explico assim a evolução positiva nas sondagens.

Pode-se dizer o mesmo do PAN, com a diferença de que o PAN tem uma legislatura de vantagem. O seu deputado único foi em quatro anos suficientemente convincente e o partido está numa fase de estabilização na faixa dos 3,5% a 4%.

Creio que vamos passar a olhar para PAN e IL como um bloco benéfico para o diálogo democrático. É cedo para alinhamentos, sobretudo o IL não quereria imediatamente fazer parte de uma solução com o PS, nesta altura também o PAN e o PSD têm um muro de incompreensão a afastar cenários. Mas dentro de uma ou duas legislaturas, creio que os cenários serão bem mais abertos.

Por isso proponho no quadro uma nova leitura. Em vez de dois blocos, esquerdas e direitas, dividi em quatro: esquerda dura, esquerda alargada, direita dura, direita alargada. É ela que nos permite desvendar o crescimento da direita: é pequeno e deve-se exclusivamente à subida do IL.

Toda a expressão eleitoral do Chega já lá estava antes, na direita. O PSD e o CDS fornecem-lhe todas as intenções de voto. A transferência está patente nos números. Sem o IL, a direita ganhou 1 ponto percentual em 14 meses — o suficiente para os jornalistas abrirem o champanhe com manchetes eufóricas, mas insuficiente para tirar do sono o politólogo, o dirigente partidário, o estatístico e o eleitor.

O PS não tem nada com que se preocupar. É só manter o olho nas sondagens e cuidar de não fazer nada de profundamente errado. Já o PCP, o PEV e sobretudo o BE têm muito trabalho pela frente. O preço pago pela votação no Orçamento de Estado foi elevado. O papel de suporte a um governo é um papel muito complicado e que tem resultado sempre em custos maiores para o partido que o desempenha — o CDS que o diga.


2
Então se o Chega não é o principal problema da direita, qual é o principal problema da direita?, perguntas tu. E perguntas muito bem.

O principal problema da direita está no coração do PSD. O PSD está agora a pagar o preço de ser o partido-cabide do sistema, o partido que vestiu as ideologias conforme a ocasião, o partido dos barões. Os barões que morreram ou estão na reforma. O partido não apresenta um coro de quadros de renovação.

Quando olhas para o CDS vês uma geração de transição, entre as múmias e os jotas. Vês quadros novos com questões novas na ponta da língua, a noção das mudanças na sociedade e respostas para elas, e já com alguma rodagem. Não tomaram conta do partido na última ronda porque Paulo Portas deixou o partido dinamitado.

Quando olhas para o PS vês a geração seguinte, podes mesmo deitar-te a adivinhar qual dos nomes ascenderá a secretário geral. Caramba, até o PCP tem uma segunda linha pronta a pegar no batente. O PEV fez a rotação. O BE fez a rotação.

Quando olhas para o PSD, vês um deserto. Aparecem umas almas penadas do século passado com assuntos anacrónicos. Não há uma ideia nova, não há a assunção de uma nova questão social e não há uma geração média para a transição.

Não creio tratar-te de um assunto de líder. Passos hoje seria pior que Rio: estaria sempre a falar do que ele entende como glória passada. Montenegro seria igual a Rio: nenhuma diferença para a governação PS, um olho no cigano e a certeza que o mundo em 2021 se resolve como em 1996 pois não é assim tão diferente.

Só que é. E no PSD não há ninguém à vista para dizer ao eleitorado que é diferente, quais são as perguntas e propor respostas.

É por este deserto que André Ventura irrompe. Mas André Ventura só semeia ódio. Não haverá nada para colher enquanto só semear ódio. Se ele mudar… Adeus PSD.


3
Ferreira Fernandes deixa hoje o Público. Foi uma passagem breve, de uns meses, depois de deixar a direção do DN. Escreveu uma derradeira crónica muito gira, claro. Muita gente lamenta a perda. Eu não. E não é por saber que provavelmente regressará noutro projeto editorial em formação: tenho demasiada pouca informação sobre isso. É porque tenho a convicção, que se tem aprofundado, que mais vale uma pessoa assim, como o FF, quando chega a um ponto em que a idade se combina com uma atividade fecunda em que se fez tanto e tanto se deu, sair de cena pelo seu pé e em alta em vez de continuar em palco a chamar a atenção com falsetes repetidos.

E isto leva-me de regresso à entrevista de Sobrinho Simões ao Público (14 de dezembro, conteúdo fechado) e ao tema da longevidade. Em adolescente lia muita literatura de todos os graus em que se projetava no futuro uma humanidade liberta dos grilhões da doença, capaz de viver muito para além dos 100 anos. Particularmente interessante, nesta matéria, a parte substancial da obra de Robert A. Heinlein, que publicou ensaios filosóficos em formato pastilha-elástica, isto é, em coleções com a etiqueta “ficção científica”. O premiado Time Enough for Love, em que o personagem Lazarus Long vive para além de mil anos até perder (ele, o autor e o leitor) o conto e isso nada interessar, é o mais emblemático mas não o único livro em que Heinlein discorre sobre a longevidade.

O tema da longevidade é, de resto, uma comichão perene. A Wired tem uma verdadeira obsessão — o que é uma Coisa Boa para nós porque tem dado à estampa bons (e maus) especialistas do assunto.

Isto para dizer que a entrevista me serviu para um ponto de situação da minha própria relação com a longevidade: o entusiasmo adolescente entrou pela idade adulta e começou a esmorecer depois de ter passado o meio século de vida. A observação dos outros, dos que partiram e dos que ficam quando olho tanto para cima como para os lados, nas condições em que alguns partiram e sobretudo nas condições em que a maioria permanece, é a responsável primeira pela minha mudança.

A segunda responsável está nos efeitos na sociedade. “Voltamos à pobreza que se agravou, uma assimetria assustadora. Temos fragilidades muito grandes. Para mim, os maiores problemas são, por exemplo, a longevidade crescente. Veja o que está a acontecer no Japão. Onde é que a gente vai caber? Não sei como vamos resolver isso. Não podemos continuar a viver tempo a mais”, diz Sobrinho Simões. O problema político da longevidade — aí está algo que nunca preocupou Heinlein, o Paulo Querido que o leu e a legião de entusiastas da vida centenária.

Mas agora preocupa-me. Não vejo uma saída. E não vejo o assunto enfrentado pela elite dirigente.



OPINIÕES

Miguel Guedes escreve sobre Cavaco, Durão e Barroso: Confinamento de vilões. Esquerda 👉

Vital Moreira escreve sobre as eleições: Presidenciais 2021 (21): “ficção Presidencial”. CausaNossa 👉

Henrique Costa Santos escreve sobre as coisas lá dele: Regresso à Natalidade. Visão 👉

Pedro Norton escreve sobre o desastre: A TAP é do povo. Visão 👉

Ana Sá Lopes escreve sobre o Reino Unido: Brexit, o fim da aventura.Público 👉

Vítor Belanciano escreve sobre desafios de 2021: Um desejo: não regressarmos a 2019. Público 👉