Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

22 de dezembro de 2020

Terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Hoje: o partido Iniciativa Liberal e as novas formas de fazer política e Fujam! Vem Aí O CoronaVírus Mutante! Parece pouco mas vais ver que é dose.


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As reações no Facebook à minha análise no diário de ontem sobre a evolução dos números das sondagens concentraram-se num só ponto: o partido Iniciativa Liberal. Isto é surpreendente à partida, mas revelador de que foi tocado o ponto-chave: a mudança que conta está no centro do sistema, nos dois partidos cujas propostas podem desagradar-nos, mas são propostas dentro do quadro democrático vigente, não está na extrema-direita e nas suas propostas sem sentido, irrealistas, provocadoras.

A discussão principal é em torno do meu uso da palavra “centro” para descrever o IL. “Aquilo são Thatcheristas Emperdernidos, para quem Pinochet matou foi pouco e a Thatcher devia ter privatizado mais”, escreveu o Macário Dário num comentário.

Ora, há um oceano de diferença entre as narrativas utilizadas como bazucas pela infantaria do IL no campo das batalhas pela atenção dos cidadãos e a prática do seu representante no Parlamento. Quem hoje leia os posts (a que não falta doutrina, pelo contrário) de Carlos Guimarães Pinto terá dificuldade em reconhecer o presidente do IL que ficou na retina na noite das eleições legislativas pelo olhar tipo cocaínado com que encheu as televisões.

Já dei comigo a reler e a confirmar se a conta dele não teria sido hackada. Há um post aqui há uns três meses que podia ter sido escrito, com menos brilho revolucionário, por alguma figura do Bloco.

Estamos já dentro da nova forma de fazer política, ou como lhe chama Jack Shenker no subtítulo de “Já Estão A Prestar Atenção” [catálogo da Bertand], “como se fará a política do amanhã”. Numa pincelada larga: os novos atores políticos utilizam ações espetaculares e muitas vezes desproporcionadas porque é a única forma de garantirem a presença das câmaras e dos jornalistas, bem como da atenção nas redes sociais. Uma vez fisgados no anzol, os peixes poderão finalmente avaliar o isco para perceberem o que está a acontecer.

Esta necessidade de enfatizar as ações decorre de muitos fatores; uns envolvem a nebulosa que é hoje o jornalismo, outros envolvem a extrema concorrência pela atenção das pessoas, operada no mesmo regime por agentes de empresas, marcas, produtos, informação, entretenimento, propaganda, serviços — you name it.

O livro de Shenker é uma maravilha. Andou atrás desses novos organizadores de ações por vários pontos do Reino Unido e não só. Focou-se nos grupos emergentes, que têm ainda menos acesso à Comunicação Social, que digo, grupos que são invisíveis para a Comunicação Social, isso sim, até ao momento em que param uma cidade ou região, de preferência repetidamente, de preferência com cadência certa, com um bloqueio de camiões, ou algo do género.

Mas a necessidade toca a todos. O IL usa bem alguma comunicação de choque, tendo-se celebrizado pelos cartazes em centros urbanos nevrálgicos. Mas o que João Cotrim de Figueiredo depois propõe no Parlamento é outra coisa. É preciso estar toxico-dependente da forma para não reparar que depois o produto é diferente da publicidade.

O mesmo vale para o Chega. André Ventura ladra imenso, atrai uma matilha de jornalistas e de sem-camisa no Facebook e quando acha o momento adequado desfere a estocada com frases vulgares que o consumidor de televisão .oO(esta é culpa do Acordo, confesso)Oo. podia estar a ouvir de um apagado membro de um partido do centrão. Como um frequentador de pista de discoteca dança o que o dj quiser que ele dance, o pé de microfone e o desocupado do Facebook já estão agarrados por Ventura, que os espezinha para chegar mais alto (e eles adoram servir, béu béu).

O mesmo vale para o PAN, para o BE e — isto é muito recente, é de ontem/hoje — para o PSD, que começam a usar tonelagem muito acima do esperado em matérias quentes, como a chacina na herdade da Torre Bela. Para o PSD foi mesmo uma estreia: nunca tinha ouvido o partido falar de forma séria, através de uma deputada que não gaguejou, em assuntos desta natureza; ou fazia como o CDS e sumia a assobiar, pensando se algum dos caçadores homicidas seria dos seus, ou metia um deputado de terceira linha a debitar um template de ocasião. Em voz baixa e apressada.

Portanto, e resumindo: o posicionamento ideológico do IL é desagradável para mim, mas francamente dou o desconto às flames com que captam a nossa atenção nos outdoors e no Twitter porque estou a olhar para o que Cotrim de Figueiredo faz. E Cotrim de Figueiredo não é um palhaço rico como André Ventura.

Não te deixo ir embora sem recordar que na sua primeira legislatura com um deputado único o PAN passou por um processo idêntico. Pessoas que ajudaram o partido a tornar-se conhecido usavam discursos fortes em matéria de animais e de alimentação, o partido esteve conotado pela Comunicação Social com os veganos como se estes fossem leprosos e foi destratado de forma violenta por comentadores televisivos adeptos da caça, como Miguel Sousa Tavares (mais de uma vez, sempre, ao ponto de eu me sentir envergonhado pelo Miguel). Enquanto isso, no Parlamento André Silva trabalhava em propostas que faziam sentido — e que fizeram caminho, cimentando em legislação valores que uma parte determinante dos cidadãos tem por civilizados. Não só as suas propostas como na votação de propostas de outros partidos, o PAN emergiu como um parceiro democrático em que se pode confiar. Com o qual se podem estabelecer acordos.

Esta nova forma de fazer política é um bocado barulhenta e feia, grotesca até por alguns padrões, mas aceita-a como um produto do estado a que chegámos — que, aqui só entre tu e eu, é também ele um bocado grotesco, hein, hein.


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Quanto mais leio as tentativas de explicar porque é que esta mutação do coronavírus é de assinalar em particular como nenhuma das outras 8.000 variações identificadas, mais frouxas elas se exibem — e mais consistência ganha a tese da natureza política do novo susto.

O problema vem depois: é resultado de um Boris Jonhson desesperado com a derrocada da sua governação, em especial no dossiê brexit, que puxa de um “inimigo externo”? E/ou é um aproveitamento cínico da União Europeia para desferir um golpe fatal nas negociações desse dossiê? Ou os países em geral usam-na como um espantalho de último recurso depois da cobardia generalizada para decretar as políticas de confinamento imprescindíveis para a época do Natal?

Faites vos jeux. Eu puxo do que Tiago Correia (já te puseste no CV dele? Impressionante! E eu não me impressiono facilmente) escreveu sobre “Linhagens e mutações do vírus”:

  1. Nos últimos dias fomos inundados com notícias sobre a mutação do SARS-CoV-2 em Inglaterra. Pensa-se que pode ser até 70% mais transmissível, mas sem certezas sobre se diminui a eficácia das vacinas e sobre se agrava a doença. As pistas dizem que não.
  2. Os virologistas concordam que as mutações irão suceder-se como processo normal da adaptação do vírus (de qualquer vírus) à sua circulação. Mesmo que esta mutação não afete a eficácia das vacinas, outras mutações podem fazê-lo, ou não. Lá está a incerteza inerente à construção do conhecimento científico.
  3. As pessoas perguntam-se então porquê este ruído súbito, sobretudo se esta mutação já estava descrita desde Setembro. Há uma dimensão política no meio de tudo isto. E a dimensão política é o desastre de governação do Primeiro-Ministro Johnson. O alarme público era a única saída política possível perante a oposição científica de abrir os contactos familiares no natal. E o desastre político foi visível no comportamento das pessoas a fugirem para os seus destinos. Fez-se quase tudo o que não se pode fazer em comunicação de crise em saúde pública. Aprendamos por cá com este erro.

4. Se esta mutação for assim tão mais transmissível e considerando que circula desde Setembro, as restrições à entrada de passageiros vindos de Inglaterra são pouco relevantes. Esta mutação já está em circulação.



OPINIÕES

Mariana Mortágua escreve sobre a decisão: Ataque à refinaria de Matosinhos não faz nada pelo clima. Esquerda 👉

J.-M. Nobre-Correia escreve sobre a RTP: A aleatoriedade de um sonho. NotasDeCircunstância 👉

Domingos Lopes está à espera de melhores dias: O meu avô vinha de bicicleta. Público 👉

Francisco Louçã escreve sobre as aparições da semana: O significado da convulsão passista. Expresso 🔒

André Silva passou-se com o homicídio coletivo: Eles caçam tudo, eles matam tudo e não deixam nada. Visão 👉