Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

26 de dezembro de 2020

Sábado, 26 de dezembro de 2020

E o meu diário regressa à tua mailbox depois de 4 dias de descanso sob pretexto do Natal ;) Hoje: boa sorte ao Diário de Notícias 😈 e o golpe profundo desferido na democracia pelas televisões, as mesmas que ah e tal somos a garantia da democracia. Vitorino Silva a.k.a Tino de Rans que o diga.


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A bolha negacionista. “Dos poucos presentes que desembrulhámos neste Natal, houve pelo menos um de que nos podemos orgulhar: uma imprensa de qualidade, rigorosa e que muito tem feito pela informação em Portugal, contrariando a desinformação e as fake news”.

A diretora do Diário de Notícias vive submersa na bolha negacionista criada e mantida pelo grosso das pessoas com responsabilidades na evolução do jornalismo português nas duas últimas décadas.

Se Rosália Amorim se limitasse a viver dentro dessa bolha, não era mau. Mas não se limita: contribui ativamente para reforçar a narrativa com a qual a imprensa portuguesa tem vindo a perder leitores e sobretudo prestígio. Isto tem um efeito maligno duplo.

Por um lado, mantém na ilusão as pessoas que trabalham na imprensa. Com isso perpetua o modo operativo que tirou qualidade e sobretudo rigor à imprensa, que é cada vez — e na oposição ao que Rosália Amorim escreveu — mais um agente da desinformação e um veículo promotor de propaganda e informações falsas. Ora, admito que o caminho da sobrevivência das empresas passe por aí, mas não passa a futura imprensa de qualidade e rigor.

Por outro lado, inquina o processo de reconstrução dessa mesma imprensa, processo esse em que o novo proprietário do Diário de Notícias quer envolver as publicações do grupo, a começar pela sua melhor marca, precisamente o DN.

Não se pode pretender negociar um novo pacto com os leitores sem fazer o mea culpa dos erros cometidos para garantir que não serão repetidos. Não se consegue fazer uma edição diária e papel com qualidade sem um grupo numeroso de profissionais capazes e motivados — não há UMA informação que nos permita concluir que a Redação do DN está preparada, pelo contrário há várias a indicar que não está e não se vislumbra que possa vir a estar tão cedo.

E quanto à promessas para o site, o registo histórico do jornal é péssimo: não vejo qualquer razão para acreditar — e estamos no domínio da fé — que em 2021 o DN vai fazer o que não fez em 2019, em 2010, em 2005, em 1998. Apostar no video, na infografia e nos podcasts não é inovar, é precisamente o oposto, cara Rosália Amorim: é copiar a concorrência com anos de atraso (sendo que o video é um disparate que vai arruinar a capacidade produtiva de profissionais da escrita). Mudar de consultora e achar que isso basta é um equívoco — um equívoco caro, como descobrirá a administração.

Mas como da imprensa resta a dimensão da fé e porque não quero contrariar as boas intenções da narrativa com que a imprensa se tem vindo a afundar, envio à diretora e à Redação o meu sincero voto de Boa Sorte!


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A palavra inovação é sempre tramada. OK, podemos conceder que para Rosália Amorim é inovador o DN apostar no video, nas infografias e nos podcasts, na medida em que o site do jornal não tem video, tem pouca ou nenhuma infografia e zero podcasts… Ou seja, o DN introduz, incorpora, passa a usar técnicas profusa abundantemente encontradas há anos e anos em toda a imprensa mundial, incluindo a portuguesa.

Sorrio sempre com a lembrança de um antigo patrão meu, Francisco Pinto Balsemão, que aí por 2005 ou mais tarde, não me recordo com exatidão, publicou o que foi publicitado como o primeiro livro em edição PDF. É bem provável que fosse o primeiro — no bairro dele, último lugar a adotar o formato ;)


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Denotei a importância pública que assumiu o facto de as três televisões excluirem um dos candidatos dos debates com que vão fazer a campanha das eleições presidenciais. A exclusão de Vitorino Silva é de bradar aos céus em primeiro lugar porque a “justificação” não passa de uma desculpa esfarrapada e foi feita à medida para excluir o antigo autarca, conhecido por Tino de Rans.

Vitorino Silva candidata-se pela terceira vez. É o candidato folclórico? A democracia faz-se de todos os candidatos. Não me passaria pela cabeça votar, ou recomendar o voto, em Vitorino Silva, mas defendo intransigentemente o seu direito a candidatar-se à Presidência da República, com tudo o que está associado em matéria de deveres (que o candidato sempre cumpriu escrupulosamente, assinale-se) e de direitos. Aqui as televisões falham. E se já nem me incomoda que as privadas o façam, reduzindo a pó uma vez mais o contrato com o Estado que lhes garante um estatuto especial e uma defesa legal de que mais nenhum setor empresarial goza, o facto de a ainda pública RTP o fazer é uma dor para o cidadão.

A RTP foge de cumprir os seus deveres para com o Estado português — isto é, para comigo e contigo. É errado. É lamentável.



OPINIÕES

Armando Ferreira discorre sobre Portugal e os militares: A militarização da sociedade civil. Público 👉

Carvalho da Silva escreve sobre o péssimo estado do trabalho e pede: Um novo ano reparador. JornalDeNotícias 👉

Felisbela Lopes explica que o primeiro movimento de comunicação das vacinas é o político: Vacinar e explicar mais. JornalDeNotícias 👉

Rosália Amorim escreve sobre o seu jornal: Um diário renovado está a chegar. DiárioDeNotícias 👉

Elísio Estanque escreve sobre extrema-direita e PSD: Presidenciais: uma campanha supérflua?. Público 👉