Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

27 de dezembro de 2020

Domingo, 27 de dezembro de 2020

Hoje: a presidência invisível; o colapso da verdade; emocionei-me com este dia histórico; e duas sugestões para lidar com o Nónio enquanto não o resolvemos de vez.

Amanhã: a futura normalidade.


1
Faltam menos de cinco dias para se iniciar a presidência portuguesa da União Europeia. Tenho a certeza que não te lembravas. Não faz mal, estás numa numerosa companhia: ninguém se lembra, a começar pelo Governo. A última comunicação no seus canais é de dia 15 de dezembro. A última notícia de imprensa foi há 3 semanas. Para já é a presidência invisível.


2
Carlos Matos Gomes escreveu um notável artigo sobre o controlo do debate público. A guerra da informação faz parte, desde sempre, do jogo entre poderosos e nações. Mas Matos Gomes vem mais longe: entrámos na era da media warfare, “a guerra através da utilização massiva, cientificamente planeada e executada através dos media, dos novos e dos convencionais, para conquistar as massas”.

Já tenho refletido sobre a forma como a democratização do acesso aos meios de comunicação de massas mudou o jogo. Esse é o “fator novo” a que o antigo militar alude no seu artigo. A tecnologia tornou o acesso de tal forma barato, por um lado, e por outro eficiente, que acabou por tornar a guerra da informação no principal da batalha, subalternizando os movimentos tradicionais da guerra, como a disposição dos soldados numa dada geografia e o armamento de que dispunham, ou os eventos súbitos das guerras assimétricas.

Deixando agora de lado outros fatores, esta subversão soma-se à extrema complexidade do mundo moderno para criar o ambiente irreal que permitiu o equívoco do brexit e as eleições de Trump e Bolsonaro, primeiros efeitos da “eliminação do último resquício de verosimilhança à comunicação. Os novos técnicos de manipulação de opinião e a elite predadora entendem que as massas que vão cavalgar já nem necessitam desse módico de engano. Por isso negam a realidade com a maior desfaçatez, dizem e desdizem-se com o mesmo descaramento”.

Matos Gomes adita ainda que a “aceitação das fake news e dos comentários adulterados confirmam que o debate público pode ser levado para lá da fronteira da racionalidade e da moralidade e revelam uma sociedade predisposta a aceitar tudo, como uma lixeira”.

Eu posso garantir que voltarei repetidamente a este tema. A expressão “pós-verdade” caiu prudentemente em desuso, e digo prudentemente porque ela fora lançada por intervenientes com um elevado grau de responsabilidade no desnorte que ajudou a criar este ambiente irreal: as pessoas com acesso aos meios de comunicação de massas, vulgo imprensa, rádio e televisão.


3
Hoje não foi um dia como os outros. Foi um dia histórico. Confesso que me emocionei. Calculo que uma grande parte de nós se sentiu emocionado nalgum grau. Aponto três razões principais para a sensação.

Primeira razão, a vacinação. Iniciou-se hoje em grande escala o processo de vacinação que permitirá, com tudo a correr dentro do expectável, que uma percentagem significativa das populações esteja precavida contra a SARS-CoV-2. De forma a que dentro de nove a doze meses, sendo cauteloso, poderemos dizer com confiança que os efeitos da pandemia terão deixado de ter impacto na vida pública, passando a ser uma virose controlada.

Segunda razão, a científica. Obter uma vacina para um vírus desconhecido num prazo de 12 meses É OBRA, é um feito nunca alcançado e sem paralelo na História da espécie humana. É o triunfo da ciência — uma forma particular de enfrentar o mundo, nascida do esforço de gerações de magos, alquimistas e outros cegos perseverantes, estudiosos determinados, burgueses endinheirados e reis com visão que através de séculos foram moldando um corpo que passou a ser identificado como tal há apenas 400 anos. Os cientistas já tinham produzido soluções antes; a diferença em 2020 está na escala global a que operaram e na extraordinária rapidez com que foram capazes de inventar esta solução.

Terceira razão, a política. Não há precedente, pelo que o dia ficará na História da União Europeia com um capítulo próprio, um capítulo marcante. A vacina foi distribuída NUM MOVIMENTO ÚNICO pelas 27 entidades administrativas, os estados-membro, que regulam a vida dos quase 500 milhões de cidadãos da UE. Nunca a UE tinha tido um ato simbólico desta dimensão e importância. Estou comovido, na minha qualidade de europeísta assumido e adepto do federalismo europeu. É uma vitória do federalismo. Obrigado, Ursula von der Leyen.

Entre o alívio da primeira razão, o significado da vitória sobre as trevas que envolvem a fé religiosa e o seu efeito perverso sobre a vida pública e social, e o decidido passo em frente rumo ao federalismo europeu, que como inesperado soube a plus, não consigo escolher qual o mais importante. Nem tenho que.


4
Mais um leitor do diário veio lamentar a existência de um muro entre as propostas de leitura de artigos da imprensa portuguesa e os respetivos conteúdos. Um muro chamado Nónio. Eu tenho pensado amiúde no problema em como o contornar. Aliás, posso dizer-te que penso nisso desde a planificação do diário, semanas antes de o ter iniciado. Tenho três soluções imaginadas mas ainda não testei nenhuma. Para uma delas, a que é de execução mais fácil, preciso de aprofundar aspetos legais. Para as duas que contornam esses aspetos, ainda não tive tempo de efetuar testes práticos.

A certeza é que penso numa solução que nos aproxime dos conteúdos novamente, insistindo no consumo do trabalho jornalístico contra as preferências das empresas. A dúvida está no método. E pode nem ser uma das presentes três, mas outra na qual entretanto pense, ou que me chegue: estou aberto a sugestões e ideias, se tens uma, responde-me com ela.

Até esse Dia De Raios De Sol chegar, tens duas alternativas. Uma eu não uso por pura inércia: as extensões que bloqueiam anúncios e trackers, os AdBlockers. A outra, uso e recomendo: abrir em janela de navegação privada cada link para sites assombrados pelo Nónio. A forma mais fácil: clica com o botão contrário do rato em cima do link e escolhe a opção de o abrir em janela de navegação privada. (Para a maioria das pessoas, é o botão da direita.) A imagem abaixo ilustra o quadro apresentado no Chrome em OSX, mas a tua não diferirá muito.



OPINIÕES

Manuel Brandão Alves escreve sobre a importância do planeamento: O que é preciso fazer no curto, médio e longo prazos com objectivo melhorar o bem-estar das populações. AreiaDosDias 👉

Simões Ilharco escreve sobre extrema-direita e André Ventura: Le Pen não será bem-vinda. DiárioDeNotícias 👉

Vítor Belanciano escreve sobre objetivos: É este ano que vou mudar, prometo! Público 👉

Miguel Vale de Almeida escreve sobre Marcelo Rebelo de Sousa: O tabu Marcelo. MiguelValeDeAlmeida 👉