Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

28 de dezembro de 2020

Segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Hoje? E tu, no que pensas quando pensas em Marcelo Rebelo de Sousa? No que estava Lacerda Sales a pensar quando me exortou a vacinar-me? José Gil pergunta como é que nos vamos adaptar a uma instabilidade?


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É possível que tenhas decidido votar em Marcelo Rebelo de Sousa nas Presidenciais. É provável que estejas a ponderar votar em MRS. Sentes que ele foi “bom” para com o Governo, ou pelo menos não se meteu à frente, e que antes ele que o Cavaco, e que foi um bom representante dos portugueses e pronto, merece.

Não quero contrariar nenhum desses argumentos. Todavia, quero confrontar-te com outros, que te podem fazer alterar a decisão ou ajudar a decidir em consciência. Pensamentos como este: “Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso no atraso que causou na despenalização do aborto e da sua posição sobre o assunto”. Miguel Vale de Almeida tem mais uma série de lembranças para meter na balança antes de decidir. Ora lê o tabu Marcelo.

[Eu já decidi há muito não votar em Marcelo. E decidi que voto nas Presidenciais, ponto. Continuo com o voto em aberto numa de duas candidatas.]


2
Que não restem dúvidas: tenho de Lacerda Sales a melhor das impressões e, enquanto cidadão, uma gratidão pela cabeça e coração com que tem gerido a pandemia, especialmente antes do verão. Compreendo as melhores intenções do Secretário de Estado Adjunto e da Saúde ao fazer publicar um artigo apelando à vacinação. Mas tenho sérias dúvidas sobre o timing e sobretudo o meio usado. Ao ler o “apelo à vacinação, pela nossa saúde”, exortando os leitores do Público a aderirem à vacinação em larga escala, é capaz de irritar a maioria desses leitores. A reação imediata é não menos compreensível: “se pudesse eu tomava-a já, ó amigo, SE PUDESSE! :P”

Dirigir uma mensagem destas a pessoas que não apenas não podem tomar já a vacina como não fazem a menor ideia de quando poderão, é no mínimo complicado.


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Só esta semana, e para dar apenas dois exemplos, Clara Ferreira Alves titula no Expresso, estarrecida, “Aqui chegados, o caos”, e José Gil, que escreveu recentemente “Caos e Ritmo”, preocupa-se com o fim de tudo: “há uma coisa que acho necessário acentuar: isto a que se chama apocalipse é, pela primeira vez na história, anunciado pela racionalidade científica e não por seitas milenaristas, proféticas, religiosas. Agora é a ciência que está a anunciar a possibilidade do fim da espécie.

Não falta opinião publicada, em Portugal como fora dele, sobre a incerteza, o caos e o fim dos tempos. Cheira efetivamente a fim de qualquer coisa. Imagino imediatamente as elites francesas na década de 1780 a escrever preocupados artigos sobre o fim dos tempos. Ao longo da História houve inúmeros momentos, provocados por fatores exógenos como pandemias e terramotos e endógenos como revoluções que causaram mudanças grandes na relação das classe sociais.

É de esperar que os privilegiados em cada um desses momentos tenha descrito os seus últimos tempos como caóticos. É nessa perspetiva que em primeiro lugar interpreto estas intervenções. O apocalipse. Mas apetece-me em seguida parafrasear José Afonso: não será a torneira a pingar no bidé?

Deixando o humor: na entrevista a Isabel Lucas (outra das boas entrevistadoras que restam na imprensa) o filósofo avança várias respostas importantes, merecendo o Público a recomendação de leitura de “A vida é livre e isto é uma espécie de antivida ($)”.

Na verdade, comecei por achar Gil pessimista; mas à medida que nos dias seguintes fui pensando nos vários solavancos da entrevista, notei que ele acaba por abrir várias janelas para um futuro não apenas possível, não apenas provável, como nada mau se pensarmos não como um dos privilegiados de hoje, mas como um dos hipotéticos beneficiados das mudanças em curso.

José Gil identifica a vitória de Biden/Harris nas presidenciais estado-unidenses como um sinal do triunfo da democracia reagindo a ser levada às cordas pelo fanatismo trumpista. Registo o “uff”, mas não me alegra. Precisamos de mais sinais, de mais vitórias da luz da razão e das soluções duras da ciência sobre as trevas da crença e as escapatórias fáceis da religião.

A democracia não está vacinada contra a propaganda, que de resto faz parte da sua essência: em qualquer momento pode soçobrar vítima dos seus próprios processos.

Ah, mas há tanto mais na entrevista! Como: “o que vamos certamente viver será uma euforia com o fim da pandemia, com o princípio da retoma económica. Uma espécie de efusão de progresso e de estabilidade na vida pessoal, social, nas expectativas para o futuro. Voltar-se-á, como já se diz, à normalidade, que não existe. Não virá a normalidade. Virão outras maneiras de viver”.

(A continuar noutros dias.)



OPINIÕES

Maria João Marques escreve sobre tarefas domésticas: A exploração natalícia do trabalho das mães e das avós. CapitalMagazine 👉

Vital Moreira anda às voltas com os operadores e 5G: Não Dá Para Entender (26): Regulador Público Contra O Interesse Público?. CausaNossa

José Manuel Neto Simões escreve sobre a Presidência portuguesa da UE: Afirmação de Portugal numa Europa ousada. DiárioDeNotícias 👉

José Carlos de Vasconcelos acha que: Reorganizar o SEF é muito pouco…. Visão 👉

João Ramos de Almeida escreve sobre o Presidente da República: Candidato ou PR? LadrõesDeBicicletas 👉


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