Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

29 de dezembro de 2020

Terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Hoje: comovido com a Grande Vitória Da Vacinação, os anti-vacinas, o efeito do flop do candidato presidencial liberal, o regresso do DN a diário de papel, a biografia de Joe Biden, as opiniões dos outros e o linklog.


1
O tweet da semana é de José Gusmão


2
Já te devo ter dito, mas repito e sublinho, até porque nem todos nós lemos todas as edições deste diário e das newsletters que recebemos: estou muito contente, contente ao ponto de comovido, com a vacinação.

A vacinação surge de um momento espetacular e singular da História: a convergência dos 27 estados-membros da União Europeia consubstanciada no pacote de ajuda à recuperação da pandemia juntou-se ao esforço mundial de milhares de cientistas e dezenas de laboratórios e centros de investigação, com financiamento público a rodos mas também privado sem reservas, para produzir em tempo recorde uma resposta eficaz à ameaça do coronavirus.

O sinal emitido pela UE com a distribuição num único movimento pelos 27 países / 450 milhões de europeus é um fortíssimo sinal de união.

Contra a proverbial descoordenação portuguesa, o plano de vacinação está bem delineado e executado, está a correr bem — até com a sorte que não tiveram outros países. Foi uma alegria ver e ouvir enfermeiros, médicos e profissionais da primeira linha nos primeiros dias da campanha de vacinação. Caramba, eles merecem bem a atenção dos holofotes!


3
Desvalorizei sempre os comentários anti-vacina e não me deixei impressionar pela quantidade de pessoas que reagiu dizendo que não tomaria a vacina contra a Covid-19. Estava na cara que era uma reação inicial ao desconhecido, compreensível e até saudável. À medida que avançamos na vacinação essas resistências desaparecerão com a mesma naturalidade. No fim restará somente um pequeno grupo a recusar a vacina. Um grupo cuja relevância epidemiológica será muito inferior ao barulho capaz de produzir nos media.


4
O partido Iniciativa Liberal mudou de estratégia de comunicação. Depois da primeira fase em que importava dar-se a conhecer, o crescimento contínuo nas intenções de voto trouxe-o a um novo patamar, podendo tomar por garantido que nas próximas legislativas passará de deputado único a grupo parlamentar. O que mudou: passou a esgravatar no eleitorado do PSD. Para a narrativa de que é único partido liberal etc, e para crescer no eleitorado da direita, ali entre o CDS e o PSD, procura encostar o PSD ao PS. “Nas opções de desenvolvimento não se distinguem”, “se o PSD fosse governo cometia os mesmos erros que o PS”, são mensagens a surgir na propaganda emitida pelas bases do partido, crescentemente ligadas aos assuntos autárquicos.

Ou seja: depois de uma campanha presidencial que para o IL está a ser um flop, com um candidato que vale menos que o partido, começou o ensaio para as autárquicas. Vamos ver se o IL consegue apresentar em setembro/outubro nas eleições para os órgãos das Autarquias Locais algum candidato com aspirações, ou se preferirá ir a jogo apenas com o objetivo de aumentar o seu reconhecimento.

Creio ser esta última a opção lógica. O IL não tem nenhum interesse no poder local, toda a sua ambição é influenciar a governação ao nível nacional, que é onde se pode diminuir ainda mais os “entraves” ao capitalismo e garantir a canalização de ainda mais recursos públicos para diminuir os riscos da iniciativa privada — o ponto único da sua agenda política. A ver vamos.


5
O Diário de Notícias regressou hoje às bancas no formato de jornal de papel diário. Não posso julgar o que aí venha a partir desta edição por se tratar de uma edição especial, a do 156º aniversário. Mas posso dizer algumas coisas.

Gostei muito de não terem mexido no grafismo, a não ser para o depurar, simplificar. Há assim uma continuidade imaginária: parece que não existiu um interregno, parece que a edição de hoje se segue à edição de ontem, que por sua vez se seguiu à edição de anteontem. Na minha mente de leitor, é como se não tivesse existido um hiato duplo, um período em que o jornal saiu uma vez por semana e depois não saiu de todo durante meses.

É claro que não apaga o erro incompreensível e indigno que foi um jornal centenário que sempre fora diário e tem a palavra diário cravada na essência do nome, ter sido publicado uma vez por semana. Mas não há organismo que não tenha os seus achaques e não há direção que não cometa os seus erros. Pelo menos o DN regressa à sua matriz: um jornal de papel todos os dias nas bancas.

Quanto ao futuro: não faço ideia se os jornais de papel terão continuidade por muito mais anos, se entretanto surgirá um formato-veículo-embalagem que substitua o papel. O digital NÃO substituiu, não é um suporte, não é um pacote, é outra besta, ou uma manada delas melhor dizendo. E se este surgir, seja “papel” maleável e recarregável, holograma (vê o linklog abaixo), ou outro dos candidatos perfilados, será tanto um agente revolucionário como um instrumento de continuidade do que é um diário, pois só mudará o suporte.

Todavia, tenho uma ideia do que terá de ser um jornal diário. E parece-me que este DN está alinhado com o que julgo ser necessário para a imprensa continuar a ser um objeto público relevante e útil para a sociedade.

Agora: isso é suficiente para manter uma operação, uma empresa? Há retorno? Há interesse? Vendas?

Tenho dúvidas. Não posso julgar por mim, que já deslacei do hábito dos jornais de papel e até do pacote chamado “imprensa”: o meu tipo de consumo de informação mudou e já não passa pelo objeto jornal, seja de papel ou digital. Mas não sou o único a ter deslaçado. Nem sou o único a ter mudado para um consumo mais eficaz de informação e conhecimento através dos múltiplos veículos hoje ao dispor.

Creio mesmo estarmos perante uma tendência sem retorno.

Contudo, vejo a imprensa como um conjunto e o que vemos é o encolhimento do número de páginas e o encolhimento do número de títulos. Haverá sobreviventes, adaptados a novos modelos de organização empresarial. E aí o DN pode ter a sua oportunidade.



LIVRO DO DIA

A biografia do presidente eleito Joe Biden. Um vida muito complicada. Na Amazon.



OPINIÕES

Vilma Reis escreve sobre ensino: A alegria de aprender e ensinar a ler. SinalAberto 👉

Joseph Stiglitz escreve sobre o regresso ao normal (enfim, whatever): Principais variáveis da recuperação global. DiárioDeNotícias 👉

Luísa Salgueiro escreve sobre 2020: O ano do cuidado. JornalDeNotícias 👉

João Camargo também escreve sobre 2020 mas no ângulo do clima: Dois mil e vinte: anticlimático com sinais de esperança. Público 👉

Valupi escreve sobre a ministra e o PR: Marcelo terá concluído a catequese? AspirinaB 👉

Manuel Carvalho escreve sobre os candidatos e Vitorino Silva: Deixem Vitorino Silva debater. Público 👉