Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

3 de janeiro de 2021

Domingo, 3 de janeiro de 2021

Hoje não escrevo sobre os debates das Presidenciais (hot), nem sobre o caso do procurador (warm), nem sobre as vacinas (cold), nem sobre a presidência portuguesa da UE (warm). Escrevo sobre o fim do CDS, o sumiço do PSD, o equívoco dos jornalistas sobre eles próprios, as fake news, o pós-verdade e a democracia, e ainda O Dia Em Que Trump Finalmente Tomou Uma Boa Decisão Para Os EUA Foi O Dia Em Que Os Republicanos Anularam O Seu Veto.


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Ver desaparecer o CDS não me provoca nenhuma emoção. Fiquei um tanto surpreendido porque considerava existir no partido uma camada de gente qualificada, uma segunda geração de quadros democratas cristãos capaz de representar os interesses das classes dominantes e dominadoras. Estivemos a subestimar o papel corrosivo de Paulo Portas no partido, que com ele perdeu toda e qualquer matriz ideológica e de identidade. Portas substituiu a matriz cristã por um populismo caudilhista que arrasou o partido.

Mas let’s face it: o CDS nunca fez falta à democracia e não é agora, a entrar para a terceira década do século dos Grandes Desafios, que fará. Nunca passou de um pomposo artifício para colocar no centro do poder político algumas pessoas próximas do poder económico. A mentira do “arco de governação” foi o penúltimo estertor da forma de conduzir os negócios políticos encetada pelo aparatchik de Marcelo Caetano. E essa segunda geração está na boa idade para usar os connects para ganhar dinheiro, em vez de se sacrificar pelas famílias ricas em nome já ninguém sabe bem do quê, pois está tudo reformado ou na Holanda.

Agora, ver desaparecer o PSD provoca algumas emoções. Ver o PSD engolido pela extrema-direita, assistir a Rui Rio deixar-se bandarilhar por André Ventura, ver estudos de opinião que colocam Ventura muito perto de substituir Rio como líder da oposição, é uma tristeza. E uma preocupação: o PSD faz falta para manter o centro político funcional.

Oh, não me refiro ao fraco score do PSD em ano e meio de sondagens. Quer dizer: esse é um facto importante, mas não é a esse facto que me refiro. Refiro-me à incapacidade do PSD para marcar a agenda política, ao desaparecimento das segundas e terceiras linhas, à inexistência de pessoas, símbolos, protestos, propostas e discursos laranjas no espaço público.

O que antes foi o PSD é hoje um deserto. Rio é um homem só. Ninguém o secunda, ninguém o discute, ninguém aparece quando ele não pode, ninguém aparece ponto.

O partido pára-raios das televisões, o partido da fanfarronice mediática diária, da permanente ocupação do espaço público pelas boas, pelas más e pelas assim-assim razões, o PSD, sumiu. Todo o espaço é ocupado pelo frankenstein com que Pedro Passos Coelho destruiu o centro-direita português e aterroriza os democratas: André Ventura.


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Um estudo de Duncan J. Watts e David M. Rothschild para revista Columbia Journalism Review observou que na época das eleições de 2016 houve 65.000 frases nos meios de comunicação social sobre o caso dos e-mails de Hillary Clinton, mas apenas 40.000 sobre todos os escândalos do Trump combinados. Houve o dobro de frases sobre os e-mails de Clinton do que sobre as suas políticas. “Em apenas seis dias, o New York Times publicou tantas histórias de capa sobre os e-mails de Hillary Clinton como sobre todas as questões políticas combinadas nos 69 dias que antecederam as eleições”.

O escândalo dos e-mails custou provavelmente a Clinton a eleição de 2016 e mesmo agora, depois de o Departamento de Estado a ter ilibado de irregularidades, muitos americanos continuam a pensar que Clinton extraviou informações confidenciais nos seus e-mails.

Alguém podia fazer uma coleção dos flops dos jornais portugueses no seu processo coletivo de rendição aos encantos e falsidades do manipulador André Ventura. Era lindo. Épico.

Quais redes sociais, quais c*. Enquanto os media, e em especial os jornalistas e alguns pundits fora de prazo, insistirem em manter a cabeça enterrada na areia, não vamos a lado nenhum. Se querem medir responsabilidades, o funcionamento da democracia está mais ameaçado pelos jornais do que pelas redes sociais.


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E aproveitando estar a ler sobre o outro lado do Atlântico: a política é tããão um exercício de hipocrisia que até irrita. Quando Donald Trump teve finalmente razão e tomou uma decisão favorável ao país, pois foi precisamente quando o Partido Republicano anulou o veto presidencial ao orçamento para a defesa. Se Trump não estivesse de saída e completamente (finalmente!) fragilizado, ter-se-iam atrevido a contrariá-lo? Não. Nunca o tinham feito!

Talvez Trump só tenha vetado o orçamento para a defesa para vincar o seu confronto com o Congresso, e dentro deste com a ala republicana. Apesar da sua retórica, com solenes juras de reduzir os gastos militares, os números mostram que essa foi uma promessa não cumprida. Um dos seus filhos gabou-se mesmo de o pai ter devolvido ao setor militar os fundos que Obama havia conseguido reduzir.

Mas — e uma vez não são vezes — o argumentário do ainda Presidente dos Estados Unidos da América está correto. Torrar ainda mais dinheiro dos contribuintes na indústria da guerra quando o país não está envolvido em nenhum conflito grande e é bastante previsível que não venham a ser chamado para nenhum, é uma decisão política bastante parva. E é mais do que isso: como tuitou Trump, é conceder uma vantagem estratégica à China.



LIVRO DO DIA

The Lure of Technocracy, de Jurgen Habermas. Na prateleira do Kindle para ler em breve.



OPINIÕES

Ana Sá Lopes escreve sobre a sondagem de Dezembro: O fim do CDS? 0,3% na sondagem DN/JN/TSF. Público 👉

Vítor Belanciano diz-nos que adora vacinas: Um café e uma vacina. Público 👉

Jorge Costa escreve sobre o Contrato pela Saúde: Presidenciais para cumprir calendário? Esquerda 👉

Luís Delgado escreve sobre senadores e Câmara dos Representantes: O circo americano começa agora. Visão 👉

Nuno Ramos de Almeida escreve sobre Chiapas: Um caderno em branco e alguns copos. Contacto 👉

Jared Diamond escreve sobre o futuro: De que maneira a covid-19 poderá mudar o mundo?. DiárioDeNotícias 👉

Teixeira dos Santos terá comprado os títulos Sol e I. O antigo director do extinto Semanário pretenderá relançar os dois jornais como projectos assumidos de centro-direita. |Vem aí uma guerra com Mário Ramires|.2020 ended with a flurry of announcements reporting promising results in COVID-19 vaccine trials, |there is little reason to expect a robust economic recovery anytime soon|. Defeating the virus remains a monumental task, and the wounds inflicted by the pandemic will not heal easily. (Nouriel Roubini)