Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

4 de janeiro de 2021

Segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Hoje: como é que é possível que a trapalhada armada no Ministério da Justiça e umas eleições sem pinga de interesse dominem o palco principal, relegando para o palco secundário a peça mais importante do semestre, a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia?


1
Bom trabalho no Público: A pandemia depois do Natal. Como evolui a covid-19 em Portugal e na Europa? Não dispensando a consulta do trabalho (está aberto), resposta em apenas 3 letras: m-a-l.


2
Há spin cruzado. O Governo está sob vários fogos no caso do procurador José Guerra. Está de tal maneira que temo bem que nunca conheçamos a verdade. Mas esta trapalhada tem um peso político que o cartão de crédito com um plafond gigante de António Costa terá de pagar mais dia menos dia. Já dou de barato o preço de manter Francisca Van Dunen: vamos ver é se os juros não lhe saem demasiado pesados.


3
Avaliar um candidato num debate televisivo de 30 minutos é como avaliar um mestre de xadrez num jogo de “rápidas”. Vale o que vale. Tendo sido realizada antes da interminável sucessão de espetáculos televisivos que expõem as forças e fraquezas comunicacionais dos candidatos para gáudio dos que confundem o exercício da política com “ganhar” e “perder” debates rápidos, a sondagem da Aximage para o grupo Global Notícias é como as outras: vale o que vale. (resultados na TSF.)

Os indicadores apontam o que todos sabemos, de uma forma algo bocejante eu diria:

a) que, não tendo assassinado ninguém no seu primeiro mandato, o presidente incumbente tem a reeleição assegurada;

b) que é provável que tenhamos a maior abstenção de sempre;

e c) que não há mais nenhum interesse numérico nesta reeleição, o que deixa Marcelo sem os recordes e marcas para bater ou evitar, isto para prosseguirmos na leitura maioritária da política como um jogo de ronaldos contra messis, uma coisa deprimente mas dentro do ar dos tempos tão bem captado pelos condutores dos debates. Marcelo ficará muito longe do melhor de sempre, os irrepetíveis 70% de Mário Soares em 1991, e menos longe mas ainda assim confortavelmente longe do pior de sempre, o score que lhe podia roubar uma noite de sono, ver-se atrás dos 52% de Cavaco em 2011. A confirmarem-se estes 61%, Marcelo ficará ligeiramente acima de Eanes (56% em 1980) e Sampaio (55% em 2001).

A única excitação da noite eleitoral é saber se o candidato da direita radical, André Ventura, fica atrás do candidato da esquerda tradicional, João Ferreira, num ainda assim bom demais 4º lugar. Vamos todos dormir cedo — o primeiro a ir para a cama é Tiago Mayan.

Para podermos todos pretender que há algum simulacro de interesse político nestas presidenciais, aos democratas resta a Nobre Missão de defender a presença de Vitorino Silva nos debates. E já agora, digo eu, nas sondagens. E, quem sabe, sonhando muito, mesmo só para entusiastas, avaliar se o resultado final de Ana Gomes permitirá acalentar alguma esperança de ela vir a ser candidata nas presidenciais seguintes contra Paulo Portas, que o grupo Media Capital está meticulosamente a preparar, branquear e embelezar (significados que só os anglo-saxónicos são capazes de comprimir num único verbo que diz tudo e ainda mais: groomed).


4
Em último lugar deixa-me dizer-te que estou satisfeito acima do par com esta aventura do diário. O feedback tem sido muito bom e não estou a falar de “bom” como em elogios — que também tive, de tant@s leitor@s — mas de “bom” como em significado: o caminho que tracei está a afigurar-se o correto. Os ensaios anteriores em matéria de informação um-para-um não tinham sido positivos e eu não estava certo que a fórmula fosse a indicada. Desconfiava que sim, que a fricção estava noutro aspeto, como eu ter tendência a concentrar-me no processo e não na qualidade do serviço de informação. Mas não estava certo. Este é o 56º diário e continuo sem fazer ideia das métricas, continuo sem analytics — mas estou satisfeito com o que escrevo e com a correspondência que vou trocando convosco.



LIVRO DO DIA

Notas sobre a pandemia: E breves lições para o mundo pós-coronavírus (artigos e entrevistas), de Yuval Noah Harari. Uma Kindle edition com um preço excelente: $2,11. Metade do que eu dei por ele há 2 meses. Recomendo vivamente.



OPINIÕES

João Ramos de Almeida escreve sobre social-democrata e Marcelo Rebelo de Sousa: Neoliberal ou social-democrata? LadrõesDeBicicletas 👉

Francisco Seixas da Costa escreve sobre a Francisca Van Dunen: Francisca. DuasOuTrêsCoisas 👉

Pedro Norton escreve sobre vacinação e Covid-19: Fazer política também é temperar otimismos. Visão 👉

Manuel Carvalho escreve o editorial do Público sobre O medo de vacinar os políticos. Público 👉