Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

7 de janeiro de 2021

Quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Hoje: trabalhadores do Google criaram um sindicato! WOW! Sabes quanto ganham? Quase 10x o que ganha um desgraçado da Amazon. E a Apple? Uma unhas de fome :P Ainda o livro do dia, hoje para sorrir, e as opiniões, hoje com Trump e o golpe de Estado nos EUA em grande. O linklog também está recheado hoje, abre com a nota de que Wall Street adora a Covid, os seus mortos e o ataque ao Capitólio, na boa, muito na boa, o Dow Jones atingiu um recorde. 2021 promete.


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É um dos assuntos importantes na intersecção da política com a tecnologia. E começa logo no início do ano: no dia 4 um grupo de mais de 400 trabalhadores da Google e de outras empresas detidas pela Alphabet criou um sindicato. O Alphabet Workers Union, federado na Communications Workers of America, é o primeiro do seu género.

A criação do sindicato, uma raridade em Silicon Valley, segue-se a anos de crescente franqueza por parte dos trabalhadores da Google. É altamente invulgar para a indústria tecnológica, que há muito resiste aos esforços para organizar a sua força de trabalho. Segue as exigências crescentes dos empregados da Google no sentido de uma revisão das políticas salariais, assédio e ética, e é provável que aumente as tensões com a liderança de topo (ler no NYT Hundreds of Google Employees Unionize, Culminating Years of Activism).

Os custos de fazer lóbi somados aos das multas com que o DoJ americano e a Comissão Europeia conseguem fintar a apertada influência desse mesmo lóbis são tão inferiores aos custos dos impostos que as cinco grandes — Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft, a.k.a. GAFAM — preferem-nos. A principal consequência do comportamento fiscal do GAFAM é aleijar fortemente as economias dos grupos de estados onde operam, em especial nos EUA e na União Europeia. E embora mais diferenciados, como mostro abaixo, os seus comportamentos predatórios da força trabalhadora têm o mesmo tipo de impacto profundamente negativo nessas mesmas sociedades.

Salário anual típico nas GAFAM em dólares (fonte: NYTimes):

Se pensarmos que a Alphabet é, das cinco, a que melhor paga aos trabalhadores, ficamos com uma ideia do potencial de desequilíbrio que tem a criação do sindicato: é de esperar que os trabalhadores das outras iniciem movimentos no mesmo sentido. Ou pelo menos isso é desejável: se acontecerá ou não… Há mais variáveis na equação, a começar pelo extraordinário poder acumulado pelo GAFAM, que compra paralisias, influências, movimentos e silêncios jornalísticos (a Google e a Facebook já o fazem em esquemas de controlo disfarçados em operações de relações públicas que os fazem parecer apoios interessados).

Pode não passar de wishful thinking. Mas que a economia mundial está a precisar de uma correção do balanço de poder entre capital e trabalho, está. O desequilíbrio está a romper economias e sistemas sociais. Sem impostos, os estados mirram, as pessoas empobrecem e a livre concorrência desaparece dos mercados. Com os legisladores e os governos imobilizados pelos lóbis, restam duas vias para iniciar o movimento de correção: os trabalhadores e/ou os consumidores.

É um assunto a seguir com atenção porque este ano pode trazer desenvolvimentos.


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A propósito dos lóbis: a forma desastrosa como as questões do foro tecnológico são tratadas pelos legisladores da UE é legendária. Os tiros nos pés são tão antigos como o combate ao spam e em especial o Regulamento Geral de Proteção de Dados, que teve o condão de romper a world wide web, tornar a nossa navegação um martírio, onerar as operações dos sites com custos irracionais para meramente cumprir burocracia infundada. Na prática o efeito foi este: os dados pessoais de toda a gente circulam livremente, roubam-se, trocam-se e vendem-se apesar do RGPD e, no absurdo, legitimados por ele.

Agora temos outro problema: alguns membros da UE lançaram a peregrina, e perigosa, direção de combate ao crime designada “Garantir Segurança Apesar da Criptografia”. Tal posição promove a seguinte ideia: em caso de necessidade, e depois de enquadrada legalmente, os organismos judiciais e de segurança devem poder aceder a qualquer informação protegida criptograficamente. Uma idiotice perigosa, digo eu. José Legatheaux Martins aborda neste artigo de opinião os riscos da violação da proteção criptográfica que está a ser discutida na União Europeia.



LIVRO DO DIA

Se és fã dos Monthy Python, ou mesmo que não sejas, as memórias divertidas e bem escritas de Eric Idle são fundamentais! Imperdíveis! Always Look on the Bright Side of Life: A Sortabiography está no meu Kindle há mais de um ano. A versão Kindle está abaixo dos 10 dólares.



OPINIÕES

Rui Bebiano escreve sobre o Capitólio: O rosto do populismo. ATerceiraNoite 👉

Filipe Fialho sobre democracia e Estados Unidos da América: Trump, suicídio e final infeliz. Visão 👉

Heiko Maas (Ministro dos Negócio Estrangeiros da Alemanha) sobre o ataque ao Capitólio: Those Who Incite Bear Responsibility. Spiegel 👉

Vital Moreira escreve sobre a vergonha: White House 2021 (7): A Demência Trumpista. CausaNossa

Boaventura Sousa Santos descreve A Europa em 2021. Público 👉

João Rodrigues escreve sobre economia e A Insurreição: Chega de extrema-direita. LadrõesDeBicicletas 👉

Jack L. Rozdilsky escreve sobre violência e Capitólio dos Estados Unidos: La insurrección de los partidarios de Trump pone contra las cuerdas la democracia estadounidense. Ethic 👉

Gerardo Tecé escreve sobre o assalto ao Capitólio e Donald Trump: Día de la vergüenza norteamericana en 6 claves. ctxt 👉

Carlos Zorrinho propõe Lições para 2021 . ionline 👉

Rosália Amorim escreve sobre pandemia e SNS: Confinamento. Já não há tabus. DiárioDeNotícias 👉

Cristina Azevedo escreve sobre causa e Natal: Presidenciais: o que pode correr mal. JornalDeNotícias 👉