Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

8 de janeiro de 2021

Sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Hoje: pornografia, democracia e trumpologia. É obra. Aguenta-te. Ah: e o livro do dia é do Piketty, só para manter o diário de hoje bem durão.


1
Pornografia. Não há economia que aguente este tipo de violação da criação de riqueza. Se não te dás bens com números grandes, eu traduzo grosseiramente. Bezos e Musk somados são mais ricos (308.000 milhões) que Portugal inteiro (240.000 milhões).


2
Democracia. Temo-la por garantida e é por isso que nos espantamos, nós “as pessoas de bem”, com os grunhos e os coisos — ou seja, os outros, “as pessoas de mal”, que nem nomeamos numa resposta atávica. A série de eventos extraordinários que tem vindo a acelerar o passo à medida que o século XXI progride diz-nos o contrário e mesmo assim continuamos em estado de negação. O assalto ao Capitólio na capital política dos Estados Unidos da América em vésperas da tomada de posse de um novo presidente foi uma tentativa de golpe de estado que escandaliza “as pessoas de bem” em todo o mundo.

Quanta presunção a nossa (eu faço parte deste plural, nota).

É uma questão de memória, também. A História e o período antes dela dizem-nos que o padrão da organização humana é alguma espécie de autocracia — lembra muito bem Adam Gopnik na New Yorker, ver link abaixo. A verdade é que a democracia virtuosa do pós-guerra de que temos desfrutado até há pouco tempo é um acidente improvável e frágil — um lapso na história humana. Uma forma de pessoas que discordaram umas com as outras conseguirem viver juntas sem se matarem umas às outras. Em grande medida este arranjo funcionou porque a economia crescia, fundamentando a narrativa do elevador social — uma máquina de esperança no futuro que nos ajudava a esquecer as diferenças.

Foram sete décadas maravilhosas. Eu nasci e vivi dentro delas. Não conheci os horrores da primeira metade do século XX.

Mas o arranjo deixou de funcionar para os principais detentores do poder: as tribos dos homens brancos. A avaria do elevador, com a riqueza produzida a acumular-se na penthouse, e “os outros”, em especial os não-homens e os não-brancos, a saírem da invisibilidade para tomarem o seu lugar em condições de igualdade de direitos, criaram as condições para os acossados quererem, através da força, tomar conta do seu destino antes que seja tarde e a força demográfica lhes tire o controlo do poder.

O ataque ao Capitólio, como o brexit, a candidatura de Marine Le Pen e a candidatura de André Ventura, são irrupções desse autoritarismo, caminhos para forçar os outros (neste caso, nós) a submeterem-se à vontade dos perpetradores (Rebecca Solnit, link abaixo). O que vimos nas imagens do Capitólio não era um novo normal, mas sim um antigo.

A democracia aguentar-se-á nas canetas? E em que geografias? Não sabemos. Mas sabemos que as democracias têm vindo a perder importância global: as economias não-democratas tomaram a dianteira. E alguns países não-democratas, como a China, tomaram como sua a narrativa que alimentou os EUA e, se bem que em menor grau, o que é hoje a União Europeia: a narrativa do elevador social, com centenas de milhões a sair da pobreza para as classes médias, com os seus iPhones, Nikes, filhos nas universidades, segunda habitação, viagens de turismo e reformas decentes.


3
Trumpologia.

Can Donald Trump Survive ‘Virtual Impeachment’? Stripped of his most powerful social media weapons, the president faces an existential crisis at a moment of maximum peril. (Politico)

The violence at the Capitol was an attempted coup. Call it that. Authoritarianism is always an ideology of inequality: I make the rules, you follow them, I punish those who don’t obey. (Rebecca Solnit, The Guardian)

What We Get Wrong About America’s Crisis of Democracy. The interesting question is not what causes autocracy (not to mention the conspiratorial thinking that feeds it) but what has ever suspended it. We constantly create post-hoc explanations for the ascent of the irrational. The Weimar inflation caused the rise of Hitler, we say; the impoverishment of Tsarism caused the Bolshevik Revolution. In fact, the inflation was over in Germany long before Hitler rose, and Lenin came to power not in anything that resembled a revolution — which had happened already under the leadership of far more pluralistic politicians — but in a coup d’état by a militant minority. Force of personality, opportunity, sheer accident: these were much more decisive than some neat formula of suffering in, autocracy out. (Adam Gopnik, New Yorker)

The Pro-Trump Movement Was Always Headed Here. For close observers of the pro-Trump and far-right extremist movements, this dark moment has felt almost inevitable. You can draw a straight line from the message-board fever swamps to Mr. Trump’s rallies to Charlottesville to “Stand back and stand by” to this. It is a desperate attempt to overthrow the democratic process. It is also the crash of a universe of toxic conspiracies against the rocks of human reality. (Charlie Warzel, New York Times)

À espera de luz no farol do mundo livre. Nada está garantido. Quando o outrora farol do mundo livre e da democracia liberal vive dilemas com esta crueza, só temos razões para duvidar. Que essa dúvida leve ao menos os que simpatizam com a extrema-direita em Portugal e na Europa a perceber o perigo: por detrás de um programa demagógico, iliberal e populista há sempre uma besta totalitária disposta a tomar de assalto pela intimidação ou pela força o coração da democracia. (Manuel Carvalho, Público)



LIVRO DO DIA

Capital and Ideology de Thomas Piketty (Kindle Edition).



OPINIÕES

Diogo Silva escreve sobre emissões e em Portugal: Mais emprego, menos emissões: uma ideia doutro planeta? Expresso 👉

João Vieira Pereira elogia Tiago Mayan Gonçalves: Patinho feio. Expresso🔒

Helena Freitas escreve sobre agenda económica e Mariana Mazzucato: Os investimentos pós-pandemia, o interesse público e o desafio das missões. Público 👉

Rui Tavares escreve sobre o trumpismo e os seus defensores portugueses: Isto foi óbvio desde o começo. E continua a ser. Público 🔒

Mário João Fernandes escreve sobre a direita e as suas marcas: PSD: Sumol sem sabor a laranja? ionline 👉

Felipe Pathé Duarte escreve sobre presidente e Donald Trump: Técnica do golpe de Estado. DiárioDeNotícias 👉